 SARA SHEPARD
   TRADUO
 FAL AZEVEDO
   ROCCO
  JOVENS LEITORES
                                   Para Riley
                                    Ttulo original
                                      KILLER
                           A PRETTY LITTLE LIARS NOVEL
             Copyright  2009 by Alloy Entertainment e Sara Shepard
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                       MNICA MARTINS FIGUEIREDO
                         CIP-Brasil Catalogao na fonte
                   Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
                           S553p Shepard, Sara, 1977-
       Destruidoras / Sara Shepard; traduo Fal Azevedo.  Rio de Janeiro:
                Rocco Jovens Leitores, 2011. (Pretty Little Liars; v.6)
                                 Traduo de: Killer
                               Sequncia de: Perversas
                             ISBN 978-85-7980-094-8
        1. Amizade - Literatura infantojuvenil. 2. Fico policial americana.
3. Literatura infantojuvenil americana. I. Azevedo, Fal, 1971- . II. Ttulo. III. Srie.
                    115271      CDD  028.5        CDU  087.5
                   O texto deste livro obedece s normas do
                   Acordo Ortogrfico da Lngua Portuguesa.
Mentirosos precisam ter boa memria.
            -- ALGERNON SYDNEY
                            SE A MEMRIA NO NOS FALHA...
Que tal se, de repente, voc conseguisse lembrar cada segundo da sua vida inteirinha? E no
apenas dos acontecimentos mais importantes, dos quais todo mundo se lembra -- mas dos deta-
lhes tambm. Como quando voc e sua melhor amiga descobriram que o dio que sentiam do
cheiro da cola de borracha era mais uma afinidade a uni-las nas aulas de artes do terceiro ano.
Ou a primeira vez em que voc viu o menino pelo qual se apaixonaria no oitavo ano. Ele
andando pelo ptio da escola, segurando uma bola de futebol em uma das mos e um iPod
Touch na outra.
        Mas com toda bno vem uma maldio. Com sua nova memria atordoante e
impecvel, voc tambm teria que se lembrar de cada briga com sua melhor amiga. Reviveria
todas as vezes nas quais o menino do futebol por quem voc tinha uma paixonite sentou ao lado
de outra pessoa no almoo. Com uma memria infalvel, o passado poderia de repente se tornar
bem assustador, no? Todas essas pessoas parecem ser suas aliadas agora? Pense melhor --
pode ser que elas no sejam to legais quanto voc pensava. Aquele amigo que sempre pareceu
a mais fiel das criaturas? Opa! Observando mais de perto, talvez no seja bem assim.
        Se quatro garotas charmosas de Rosewood de repente desenvolvessem memrias
perfeitas, saberiam melhor em quem confiar e de quem se manter distantes. Por outro lado,
talvez seu passado fizesse ainda menos sentido.
        Nossa memria pode ser um tanto caprichosa. E s vezes estamos fadados a repetir as
coisas que esquecemos.
L estava ela. A grande casa vitoriana dominando a paisagem da rua sem sada, a casa com
trelias de rosas ao longo da cerca e o deque de madeira no quintal dos fundos. Apenas alguns
poucos felizardos eram convidados a visit-la, mas todo mundo sabia quem morava ali. Ela era
a garota mais popular da escola. A garota que ditava a moda, inspirava paixes e construa ou
acabava com reputaes. A garota que todo garoto queria namorar e que toda garota queria ser.
         Alison DiLaurentis,  claro.
         Era um sbado tranquilo de setembro na idlica Rosewood, uma das cidades ricas e
endinheiradas ao sul da Pensilvnia, a mais ou menos trinta quilmetros da Filadlfia. O sr.
Cavanaugh, que vivia em frente  famlia de Alison, atravessou seu jardim para pegar o jornal.
O golden retriever de pelo claro que pertencia aos Vanderwaal pulava no quintal murado a
poucos metros dali, latindo para os esquilos. Nenhuma flor ou folha parecia fora do lugar...
exceto pelas quatro garotas do sexto ano que, por acaso, entraram no quintal da famlia
DiLaurentis ao mesmo tempo.
         Emily Fields se escondia entre os ps altos de tomate, puxando nervosamente os
cordes de seu moletom da equipe de natao de Rosewood. Ela nunca havia ido  casa de
colega nenhuma, muito menos na da garota mais bonita e popular da escola. Aria Montgomery
se abaixou atrs de um carvalho, correndo os dedos pelo bordado da tnica que seu pai havia
trazido de outra viagem de ltima hora para uma conferncia sobre histria da arte na
Alemanha. Hanna Marin abandonou sua bicicleta perto de uma pedra prxima do barraco da
propriedade da famlia, tramando seu plano de ataque. Spencer Hastings, que morava na casa
vizinha, entrou no quintal de Alison e se agachou atrs de um arbusto de framboesa cuidado-
samente podado, inalando o cheiro agridoce das frutas.
         Com cuidado, cada garota observou com ateno a bay window da parte dos fundos da
casa dos DiLaurentis. Sombras indicavam alguma movimentao na cozinha. Elas ouviram um
grito no banheiro do andar superior. Um galho de rvore estalou. Algum tossiu.
         As meninas perceberam que no estavam ali sozinhas exatamente no mesmo instante.
Spencer notou Emily hesitando perto das rvores. Emily viu Hanna se agachando perto da pe-
dra. Hanna vislumbrou Aria atrs da rvore. Todas elas marcharam para o centro do quintal de
Ali e se reuniram em um pequeno crculo.
         -- O que esto fazendo aqui, meninas? -- perguntou Spencer.
         Ela conhecia Emily, Hanna e Aria desde o concurso de leitura do primeiro ano na
Biblioteca Pblica de Rosewood. Spencer vencera, mas todas haviam participado. Elas no
eram amigas. Emily era o tipo de garota que corava quando um professor a chamava no meio da
aula. Hanna, que agora puxava o cs do seu black jeans da Paper Denim, um pouco pequeno
demais, nunca parecia estar confortvel consigo mesma. E Aria -- bem, pelo jeito ela estava
vestindo um daqueles trajes tpicos alemes, uma espcie de shorts com suspensrios. Spencer
tinha certeza de que os nicos amigos de Aria eram imaginrios.
         -- H... nada -- respondeu Hanna.
         -- Pois , nada -- disse Aria, olhando desconfiada para as outras.
         Emily deu de ombros.
         -- O que voc est fazendo aqui? -- perguntou Hanna a Spencer.
         Spencer suspirou. Era bvio que elas estavam ali pela mesma razo.
         Duas tardes antes, Rosewood Day, o colgio de elite que frequentavam, havia
anunciado o incio de seu to aguardado jogo da Cpsula do Tempo. Todo ano o diretor
Appleton cortava uma bandeira azul reluzente de Rosewood Day em vrios pedaos e os
entregava para que os alunos mais antigos os escondessem pelo lugar, e os professores
divulgavam pistas sobre o paradeiro de cada pea tanto no saguo superior do colgio quanto no
inferior, como se fazia em uma caa ao tesouro. O garoto ou garota que encontrasse uma pea
poderia decor-la como quisesse e depois devolv-la  direo da escola. As peas encontradas
eram costuradas umas s outras por funcionrios, at que a bandeira fosse refeita. Depois, era
realizada uma cerimnia em honra aos vencedores, e a bandeira era enterrada em uma Cpsula
do Tempo atrs do campo de futebol. Os estudantes que encontravam as peas da Cpsula do
Tempo viravam lendas -- o legado deles viveria para sempre.
         Era difcil se destacar em uma escola como Rosewood Day, e mais difcil ainda
conseguir um pedao da bandeira da Cpsula do Tempo. Apenas uma brecha no regulamento do
jogo dava a todo mundo um lampejo de esperana: a clusula do furto, que legalizava o ato de
roubar a pea encontrada por algum at o momento em que, costuradas, todas as peas
desaparecidas formassem novamente uma bandeira. Dois dias antes, certa beldade local havia se
gabado de j ter garantida uma das partes da bandeira.
         E agora, quatro annimas esperavam colocar a clusula do furto em prtica quando tal
beldade menos esperasse. A ideia de roubar a parte de Alison era de deixar qualquer um tonto.
Por um lado, era a chance de se aproximar dela. Por outro, era uma oportunidade de mostrar 
garota mais bonita de Rosewood Day que ela nem sempre podia conseguir tudo o que quisesse.
Alison DiLaurentis definitivamente precisava de um choque de realidade.
         Spencer olhou para as trs outras garotas.
         -- Eu cheguei aqui primeiro. Aquela bandeira  minha.
         -- Eu estava aqui antes de voc -- sussurrou Hanna. -- Vi voc vindo da sua casa
poucos minutos atrs.
         Aria bateu com fora sua bota de camura lils no cho, olhando espantada para Hanna.
         --Voc tambm acabou de chegar! Eu estava aqui antes de vocs duas.
         Hanna endireitou os ombros e olhou para as tranas bagunadas de Aria e seu pescoo
cheio de colares.
         -- E quem vai acreditar em voc?
         -- Meninas! -- Emily projetou seu queixo pontudo na direo da casa da famlia
DiLaurentis e colocou um dedo na frente dos lbios.Vozes vinham da cozinha.
         --No!
         Aquela parecia a voz de Ali.
         As garotas ficaram tensas.
         -- No! -- Uma segunda voz, mais aguda, imitou Ali.
         -- Pare! -- guinchou Ali.
         -- Pare! -- ecoou a segunda voz.
         Emily teve uma sensao ruim. Sua irm mais velha, Carolyn, costumava imitar sua
voz, chiando exatamente do mesmo jeito, e Emily odiava isso. Ela ficou imaginando se a
segunda voz pertencia ao irmo mais velho de Ali, Jason, aluno do ensino mdio de Rosewood
Day.
         -- Chega! -- gritou uma voz mais grave. Houve um baque surdo e som de vidro se
estilhaando.
         Segundos depois, a porta da varanda foi aberta e Jason surgiu, apressado, o casaco de
moletom aberto, seus tnis desamarrados, o rosto todo vermelho.
         -- Droga -- sussurrou Spencer.
         As meninas fugiram para trs dos arbustos. Jason entrou no quintal andando em
diagonal pelo gramado, na direo da floresta, depois parou, prestando ateno em alguma coisa
 sua esquerda. Uma expresso furiosa se formou aos poucos em seu rosto.
         As meninas seguiram o olhar de Jason, fixo no quintal de Spencer. A irm de Spencer,
Melissa, e seu novo namorado, Ian Thomas, estavam sentados na beira da banheira de
hidromassagem da famlia. Quando viram que Jason os observava, Ian e Melissa soltaram as
mos um do outro. Longos segundos se passaram. Dois dias antes, logo depois que Ali se
exibira, falando a respeito da bandeira que estava para encontrar, Ian e Jason tiveram unia briga
por causa dela na frente de todos os alunos do sexto ano. Talvez a briga no tivesse terminado.
         Jason deu meia-volta, rgido, e marchou na direo da floresta. A porta da varanda bateu
outra vez, e as garotas se abaixaram. Ali ficou de p na plataforma, olhando ao redor. Seu longo
cabelo louro ondulava at os ombros, e a blusa rosa-shocking fazia sua pele parecer mais
reluzente e fresca.
         -- Ei, pode aparecer! -- gritou Ali. Emily arregalou os olhos castanhos. Aria se abaixou
ainda mais. Spencer e Hanna taparam a boca. -- Srio!
         Ali desceu os degraus da varanda perfeitamente equilibrada em seus saltos plataforma.
Ela era a nica garota do sexto ano corajosa o bastante para ir  escola de salto alto. Rosewood
Day tecnicamente no permitia que as alunas usassem salto at o ensino mdio.
         -- Eu sei que tem algum a. Mas, se voc veio pela minha bandeira, j era. Algum j a
roubou.
         Spencer saiu de trs dos arbustos, sem conseguir esconder sua curiosidade.
         -- O qu? Quem?
         Aria apareceu depois. Emily e Hanna a seguiram. Outra pessoa havia chegado at Ali
antes delas?
         Ali suspirou, sentando-se no banco de pedra prximo ao laguinho da famlia. As garotas
hesitaram, mas Ali acenou para que se aproximassem. De perto, ela cheirava a sabonete de bau-
nilha para as mos e tinha os clios mais longos que elas j viram. Ali deslizou do banco e
afundou os ps delicados na grama verde e macia. Suas unhas do p estavam pintadas de um
vermelho cintilante.
         -- No sei quem foi -- respondeu Ali. -- Num minuto a bandeira estava na minha
bolsa. No minuto seguinte, havia desaparecido. Eu j a havia decorado e tudo. Tinha desenhado
um sapinho de mang muito legal, o logo da Chanel e uma garota jogando hquei. E trabalhei
pra caramba nas iniciais da Louis Vuitton e na estampa da marca, copiando o desenho direto da
bolsa da minha me. Ficou perfeito. -- Ela fez uma careta triste para as garotas, seus olhos azul-
safira arregalados. -- O idiota que a roubou vai arruin-la. Eu sei disso.
         As garotas murmuraram que sentiam muito, subitamente agradecidas de no ter sido
nenhuma delas a roubar a bandeira de Ali -- porque elas seriam o idiota de quem Ali
reclamava.
         --Ali?
         Todo mundo se virou. A sra. DiLaurentis andou at a varanda. Parecia estar a caminho
de um almoo chique, usando um vestido transpassado Diane von Furstenberg cinza e saltos.
Seu olhar se demorou nas meninas, confuso. No era como se elas j tivessem estado no quintal
de Ali antes.
         -- Ns estamos indo agora, est bem?
         -- Est bem -- disse Ali, sorrindo de maneira delicada e acenando. -- Tchau!
         A sra. DiLaurentis parou, como se quisesse dizer algo. Ali deu as costas para a me,
ignorando-a. Ela apontou para Spencer:
         --Voc  Spencer, certo?
         Spencer confirmou, envergonhada. Ali olhou curiosa para as outras meninas.
         --Aria --Aria lembrou a Ali.
         Hanna e Emily se apresentaram tambm, e Ali acenou sem grande entusiasmo. Aquele
tipo de coisa era a cara de Ali --  claro que ela. sabia o nome delas, mas com aquela atitude
tpica estava sutilmente querendo dizer que, na hierarquia da turma do sexto ano de Rosewood
Day, seus nomes no importavam. Elas no sabiam se deviam se sentir humilhadas ou elogiadas
-- afinal, naquele momento, Ali queria saber os nomes delas.
         -- Bem, onde voc estava quando sua bandeira foi roubada? -- perguntou Spencer,
procurando um meio de manter o interesse de Ali.
         Ali piscou, confusa.
         -- H, no shopping. -- Ela colocou o dedo na boca e comeou a mord-lo.
         -- Em qual loja? -- pressionou Hanna. -- Tiffany? Sephora?
         Talvez Ali ficasse impressionada por Hanna conhecer o nome das lojas mais
importantes do shopping.
         -- Pode ser... -- murmurou Ali, e depois desviou o olhar para a floresta. Parecia
procurar algo, ou algum. Atrs delas, a porta da varanda bateu. A sra. DiLaurentis havia
entrado em casa outra vez.
         -- Sabe, a clusula do furto no devia nem ser permitida -- disse Aria, revirando os
olhos. --  simplesmente... maldade.
         Ali colocou o cabelo atrs das orelhas, dando de ombros. Uma luz no andar superior na
casa dos DiLaurentis foi apagada.
         -- E a, onde Jason escondeu a parte dele, afinal? -- Emily arriscou perguntar.
         Ali saiu do estado ausente em que estava e perguntou, tensa:
         -- Como  que ?
         Emily se encolheu, preocupada por talvez ter feito uma pergunta desagradvel.
         --Voc falou uns dias atrs que Jason havia dito a voc onde tinha escondido um dos
pedaos da bandeira. O pedao que voc encontrou, certo?
         Na verdade, Emily estava mais interessada no baque que escutara dentro da casa
minutos antes. Ser que Ali e Jason haviam brigado? Jason imitava sempre a voz de Ali? Ela
no ousou perguntar.
         -- Ah! --Ali girava cada vez mais rpido o anel prateado que sempre usava no
indicador direito. -- Certo. . Sim, foi o pedao da bandeira que eu encontrei.
         Ali virou o rosto para a rua. A Mercedes cor champanhe que as meninas viam apanh-la
com frequncia depois das aulas saiu devagar da garagem e seguiu at a esquina. Parou em
frente  placa de Pare, ligou a seta e virou  direita.
         Em seguida, Ali suspirou e olhou para as meninas quase sem reconhec-las, como se
estivesse surpresa de v-las ali.
         -- Bem... tchau -- disse ela. Ali virou e voltou para casa. Instantes depois, a mesma luz
do andar de cima que fora apagada acendeu.
         Os sininhos de vento na varanda dos DiLaurentis soavam. Um esquilo correu pelo
gramado. Num primeiro momento, as meninas estavam desconcertadas demais para se mover.
Quando ficou claro que Ali no iria voltar, elas se despediram umas das outras, meio sem graa,
e tomaram caminhos diferentes. Emily pegou um atalho pelo jardim da casa de Spencer para
alcanar a rua, tentando enxergar o lado positivo do que acabara de acontecer -- ela estava
agradecida por Ali ter pelo menos conversado com elas. Aria caminhou na direo da floresta,
incomodada por ter ido at l. Spencer arrastou-se de volta para sua casa, envergonhada por
perceber que Ali a menosprezava tanto quanto s outras. Ian e Melissa haviam entrado,
provavelmente para namorar no sof da sala -- credo! E Hanna pegou sua bicicleta atrs da
pedra no jardim da casa de Ali e notou que havia um carro preto barulhento parado junto 
calada, bem em frente  casa. Ela semicerrou os olhos, sem entender nada. Ser que j tinha
visto aquele carro antes? Dando de ombros, se virou e saiu pedalando.
         Cada uma das meninas saiu dali com o mesmo peso no peito, humilhada, sem esperana
nenhuma. Quem elas pensavam que eram, tentando roubar um pedao da bandeira da Cpsula
do Tempo da garota mais popular de Rosewood Day? Por que ousaram acreditar que poderiam
fazer uma coisa daquelas? Provavelmente Ali entrara em casa para telefonar para suas melhores
amigas, Naomi Zeigler e Riley Wolfe, rindo das idiotas que haviam acabado de aparecer no seu
quintal. Por um momento fugaz, pareceu que Ali ia dar a Hanna, Aria, Emily e Spencer uma
chance de amizade, mas agora aquela chance estava definitivamente perdida.
         Hum... ser que estava mesmo?
Na segunda-feira seguinte, a histria sobre o pedao da bandeira encontrado por Ali ter sido
roubado se espalhava pelos corredores da escola. Havia uma segunda fofoca tambm: Ali tivera
uma briga horrorosa com Naomi e Riley. Ningum sabia sobre o que tinha sido a discusso,
nem como havia comeado. Tudo o que todo mundo sabia era que o grupinho mais cobiado do
sexto ano ia precisar de novos membros.
        Quando Ali foi falar com Spencer, Hanna, Emily e Aria no evento de caridade de
Rosewood Day no sbado seguinte, as quatro garotas pensaram que fosse alguma espcie de
trote. Mas Ali lembrou seus nomes. Ela elogiou o jeito impecvel com o qual Spencer havia
soletrado badulaques e candelabros. Demonstrou ter gostado das botas novinhas de Hanna da
loja Anthropologie e dos brincos de pena de pavo que o pai de Aria havia trazido do Marrocos.
Ali se declarou admirada com a facilidade com que Emily levantava uma caixa inteira de ca-
sacos da estao passada. Antes que as garotas se dessem conta, ela as tinha convidado para
passar uma noite em sua casa, que levou  outra noite juntas e depois outra. Perto do fim de se-
tembro, quando o jogo da Cpsula do Tempo terminou e todo mundo devolveu suas partes
decoradas da bandeira, havia uma nova fofoca nos corredores do colgio: Ali tinha quatro novas
melhores amigas.
        As meninas se sentaram juntas na cerimnia da Cpsula do Tempo no auditrio de
Rosewood Day, assistindo enquanto o diretor Appleton chamava ao palco cada pessoa que
havia encontrado uma parte da bandeira.
        Quando Appleton anunciou que uma das partes encontradas previamente por Alison
DiLaurentis no fora devolvida e seria declarada invlida, as garotas apertaram com fora as
mos de Ali. No  justo, elas sussurraram. Aquele pedao da bandeira era seu. Voc trabalhou
to duro nele.
        Mas a garota no fim da fila, uma das novas melhores amigas de Ali, tremia tanto que
teve que segurar os joelhos com as mos. Aria sabia onde estava o pedao da bandeira
encontrado por Ali. s vezes, depois de conversar ao telefone com suas melhores amigas e
antes da hora de dormir, quando o olhar de Aria recaa sobre a caixa de sapato na prateleira mais
alta de seu armrio, um vazio, uma sensao cida aparecia no fundo de seu estmago. Foi
melhor que ela no tivesse contado a ningum que encontrara o pedao da bandeira de Ali. Pela
primeira vez, sua vida estava indo muito bem. Ela fizera novas amizades. Tinha amigas para
acompanh-la no almoo, amigas com quem se encontrar nos fins de semana. A melhor coisa
era esquecer o que havia acontecido naquele dia... para sempre.
        Mas talvez Aria no devesse ter esquecido aquilo tudo to rpido. Talvez devesse ter
apanhado a caixa, tirado a tampa e examinado com bastante ateno o pedao perdido da
bandeira de Ali. Afinal, elas estavam em Rosewood, e em Rosewood tudo tinha um significado.
O que Aria poderia encontrar naquela bandeira talvez tivesse lhe dado uma pista de algo que se
aproximava de Ali, em um futuro no to distante.
        Seu assassinato.
                                              1
                             A GAROTA QUE GRITOU "CADVER!"
O ar frio da noite fez Spencer Hastings tremer, enquanto se abaixava para desviar do galho
espinhoso de um arbusto.
         -- Por aqui -- disse ela por sobre o ombro, embrenhando-se na mata atrs da reformada
casa de fazenda de sua famlia. -- Foi aqui que ns o vimos.
         Suas antigas melhores amigas Aria Montgomery, Emily Fields e Hanna Marin seguiam
logo atrs dela. As garotas caminhavam com dificuldade, quase perdendo o equilbrio sobre os
saltos altos, enquanto seguravam a bainha de seus vestidos de festa. Era sbado  noite, e pouco
antes dessa caminhada no meio do mato elas estavam em um evento beneficente de Rosewood
Day na casa de Spencer. Emily choramingava, e as lgrimas escorriam pelo seu rosto. Aria
rangia os dentes, como sempre fazia quando estava com medo. Hanna no fazia barulho
nenhum, mas seus olhos estavam arregalados e ela carregava um enorme castial de prata pego
na sala de jantar dos Hastings. O oficial Darren Wilden, o policial mais jovem da cidade, seguia
as meninas, iluminando com uma lanterna a cerca de ferro que separava o jardim de Spencer do
quintal da casa que um dia pertencera a Alison DiLaurentis.
         -- Ele est em uma clareira, no final desta trilha -- disse Spencer.
         Havia comeado a nevar, primeiro flocos insignificantes, depois enormes e pesados. 
esquerda de Spencer ficava o celeiro reformado de sua famlia, o ltimo lugar onde ela e suas
amigas viram Ali ainda viva, trs anos e meio antes.  sua direita ficava o buraco aberto pelos
pedreiros, onde o corpo de Ali fora encontrado em setembro. E logo ali na frente estava a cla-
reira onde ela acabara de descobrir o corpo de Ian Thomas, o antigo namorado de sua irm, o
amor secreto de Ali e tambm seu assassino.
         Bem, seu provvel assassino.
         Spencer ficara aliviada quando os policiais prenderam Ian pelo assassinato de Ali. Tudo
fazia sentido: no ltimo dia do stimo ano, Ali dera um ultimato a ele. Ou ele terminava com
Melissa, a irm de Spencer, ou Ali iria contar para todo mundo que eles estavam juntos. Farto
dos jogos dela, Ian se encontrara com Ali naquela noite. Sua fria e frustrao arrancaram dele o
que tinha de pior... e ele a matara. Spencer inclusive tinha visto Ali e Ian na floresta na noite em
que ela morreu, uma recordao traumtica que ela suprimira por trs longos anos.
         Mas no dia anterior ao incio do julgamento de Ian, ele desrespeitara sua priso
domiciliar e fora at o quintal de Spencer, implorando para que ela no testemunhasse contra
ele. Outra pessoa havia matado Ali, ele insistira em dizer, e contou ainda que estava a ponto de
desvendar um segredo terrvel e perturbador que provaria sua inocncia.
         O problema foi que Ian no teve a chance de chegar a contar para Spencer qual era o
grande segredo. Ele desapareceu antes da abertura de seu julgamento na ltima sexta. Enquanto
todo o departamento de polcia de Rosewood entrava em ao, passando um pente fino em toda
a cidade para descobrir onde ele poderia estar, tudo que Spencer havia considerado como
certezas absolutas havia sido questionado. Ian fizera mesmo aquilo... ou no? Spencer tinha
visto Ian com Ali... ou era outra pessoa? Ento, poucos minutos atrs, na festa, algum usando o
nome Ian_T enviara uma mensagem a Spencer.
        Encontre-me no bosque, onde ela morreu.
        Tenho algo para mostrar a voc.
         Spencer correra pelo bosque, ansiosa para entender toda a histria. Ao alcanar uma
clareira, ela olhou para baixo e gritou. Ian estava cado no cho, inchado e azul, seus olhos
vtreos e sem vida. Aria, Hanna e Emily apareceram logo em seguida, e um instante depois
todas elas haviam recebido exatamente a mesma mensagem de A. Ele teve que ir. Elas correram
de volta at a casa de Spencer para procurar Wilden, mas ele no estava em lugar nenhum.
Quando Spencer foi at a entrada para verificar mais uma vez, Wilden de repente se
materializou ali, perto dos carros estacionados. Pareceu assustado ao v-la, como se tivesse sido
apanhado fazendo algo que no devia. Antes que Spencer pudesse perguntar onde diabos
Wilden estivera, as outras meninas apareceram histricas, arfando, implorando que ele fosse
com elas at a floresta. E agora, ali estavam eles.
         Spencer parou, reconhecendo uma rvore retorcida, onde estava o velho tronco cado.
L estava o antigo toco. O lugar onde a grama estava amassada. O ar estava assustadoramente
esttico, parecendo sem oxignio.
         -- Bem,  aqui -- disse ela por sobre o ombro, e olhou para baixo, preparando-se para o
que iria ver. -- Oh, meu Deus -- sussurrou.
         O corpo de Ian tinha... desaparecido.
         Desconcertada, Spencer deu um passo para trs, colocando a mo na cabea. Piscou
com fora e olhou outra vez. O corpo de Ian estivera ali meia hora antes, mas agora no havia
nada ali, exceto uma camada fina de neve. Mas... como isso era possvel?
         Emily levou a mo  boca e gemeu baixinho:
         -- Spencer.
         Aria fez um barulho, algo entre um gemido e um grito.
         -- Onde ele est? -- gritou ela, olhando ao redor da floresta fora de si. -- Ele estava
bem aqui!
         Hanna estava plida. Ela no disse uma palavra. Vindo de algum lugar na floresta, um
som agudo e muito estranho fez as meninas pularem assustadas, e Hanna agarrou o castial com
fora. Era apenas o walkie-talkie de Wilden preso em seu cinto. Ele deu uma olhada para o rosto
das garotas e depois encarou o lugar vazio no cho.
         --Talvez estejamos no lugar errado -- disse Wilden.
         Spencer balanou a cabea, sentindo a presso crescendo no peito.
         -- No. Ele estava aqui. -- Ela se abaixou prxima  ligeira elevao do terreno e
apoiou um joelho sobre a grama, na qual a neve comeava a derreter. A grama parecia meio
achatada, como se algo pesado tivesse sido apoiado ali. Ela esticou os dedos para tocar a grama,
mas depois recolheu a mo, com medo. No poderia tocar o lugar onde um corpo estivera.
         -- Talvez Ian estivesse machucado, no morto. -- Wilden mexeu inquieto nos botes
de metal de sua jaqueta. -- E talvez ele tenha fugido depois que vocs saram.
         Spencer arregalou os olhos, permitindo-se considerar essa possibilidade.
         Emily balanou a cabea.
         -- No existe a menor possibilidade de que ele estivesse apenas machucado.
         -- Ele estava definitivamente morto -- concordou Hanna, vacilante. -- Ele estava...
azul.
         --Talvez algum tenha retirado o corpo -- disse Aria. -- Ns ficamos fora por mais de
meia hora.  tempo suficiente.
         -- Havia outra pessoa aqui -- sussurrou Hanna. -- Ela se aproximou de mim quando
eu ca.
         Spencer se virou e olhou pasma para Hanna.
         -- Como ?
         Claro, a ltima meia hora havia sido uma correria, mas Hanna devia ter dito alguma
coisa sobre isso!
         Emily tambm olhou para Hanna boquiaberta.
         --Voc viu quem era?
         Hanna engoliu em seco.
         -- Quem quer que fosse, vestia um capuz. Eu acho que era um homem, mas no tenho
certeza. Talvez ele tenha arrastado o corpo de Ian para algum lugar.
         -- Talvez fosse A -- disse Spencer com o corao disparado. Ela pegou seu celular
Sidekick do bolso do casaco e mostrou a ameaadora mensagem de texto de A para Wilden. Ele
teve que ir.
         Wilden examinou o telefone de Spencer, depois lhe devolveu.
         Ele estava com a boca crispada de tenso.
         -- Eu no sei de quantas maneiras tenho que dizer isto. Mona est morta. Esse tal de A
 uma imitao. A fuga de Ian no  segredo, o pas inteiro sabe o que aconteceu.
         As meninas se olharam sem jeito. No ltimo outono, Mona Vanderwaal, uma colega de
turma e melhor amiga de Hanna, enviara mensagens doentias e assustadoras para as garotas
assinando como A. Mona arruinara a vida delas incontveis vezes, e havia at tramado mat-las,
atropelando Hanna com sua SUV e quase empurrando Spencer do penhasco na pedreira. Depois
que Mona cara do penhasco, elas pensaram que estivessem salvas... mas na semana anterior
comearam a receber mensagens sinistras de uma nova A. No comeo, elas acharam que as
mensagens de A fossem de Ian, j que s comearam a receb-las depois que ele saiu da priso
em liberdade condicional. Mas Wilden estava ctico. Ele continuava dizendo a elas que era
impossvel -- Ian no tinha acesso a celular, nem poderia ter se escondido livremente nas
redondezas para observar cada movimento das garotas durante sua priso domiciliar.
         -- A  real -- protestou Emily, balanando a cabea de forma desesperada. -- E se A
for o assassino de Ian? E se A arrastou 1an?
         -- Talvez A tambm seja o assassino de Ali -- acrescentou Hanna, ainda segurando o
castial com fora.
         Wilden passou a lngua nos lbios, parecendo duvidar de tudo aquilo. Grandes flocos de
neve caam em sua cabea, mas ele no ligou.
         -- Meninas, vocs esto histricas. Ian  o assassino de Ali. Vocs, acima de todas as
pessoas, deveriam saber disso. Ns o prendemos com as evidncias que vocs nos deram.
         -- E se armaram para Ian? -- pressionou Spencer. -- E se A matou Ali e Ian
descobriu? -- E se h algo que os policiais esto encobrindo?, ela quase acrescentou. Era uma
teoria que Ian havia sugerido.
         Wilden tocou no distintivo do departamento de polcia de Rosewood bordado em seu
casaco.
         -- Foi Ian que disse esse monte de bobagens quando vocs se encontraram em sua
varanda na quinta-feira, Spencer?
         O corao de Spencer pareceu parar.
         -- Como voc soube?
         Wilden olhou para ela.
         -- Acabei de receber uma ligao da delegacia. Recebemos uma denncia. Algum viu
vocs dois conversando.
         -- Quem avisou vocs?
         -- Foi uma denncia annima.
         Spencer se sentiu zonza. Olhou para as amigas -- havia contado a elas, e apenas a elas,
que tivera um encontro secreto com Ian --, mas elas pareciam surpresas e chocadas. Apenas
outra pessoa sabia que ela e Ian haviam se encontrado. A.
         -- Por que voc no nos procurou assim que isso aconteceu? -- Wilden se aproximou
de Spencer. Sua respirao cheirava a caf. -- Ns teramos arrastado Ian de volta para a
cadeia. Ele nunca teria escapado.
         -- A me ameaou -- protestou Spencer. Ela procurou na caixa de entrada de seu
telefone e mostrou a Wilden a seguinte mensagem, tambm de A:
       Se a Pequena-Senhorita-No-To-Perfeita-Assim desapa-
       recer, algum se importaria?
         Wilden oscilou para frente e para trs enquanto pensava. Ele deu uma olhada para o
lugar no cho onde Ian estivera uma hora antes e suspirou.
         -- Olhe, vou voltar para sua casa e reunir uma equipe, mas vocs no podem culpar A
por tudo.
         Spencer olhou para o walkie-talkie na cintura dele.
         -- Por que voc no os chama daqui? -- pressionou ela. -- Eles podem encontrar voc
na floresta e comear a procurar agora mesmo.
         Wilden pareceu incomodado, como se no tivesse previsto essa pergunta.
         -- Me deixem fazer meu trabalho, meninas. Ns temos que seguir... os procedimentos.
         -- Procedimentos? -- repetiu Emily.
         -- Oh, meu Deus --Aria respirou fundo. -- Ele no acredita em ns.
         -- Eu acredito em vocs, acredito mesmo. --Wilden se abaixou para se desviar de
alguns galhos baixos. -- Mas a melhor coisa que vocs, garotas, devem fazer  ir para casa e
descansar um pouco. Eu cuido das coisas por aqui.
         O vento soprou, fazendo esvoaar as pontas do cachecol de l cinza que Spencer tinha
colocado em volta do pescoo antes de correr at ali. Um pedao da lua espiava na neblina. Em
alguns segundos, nenhuma delas conseguia ver a luz da lanterna de Wilden.
         Tinha sido apenas a imaginao de Spencer ou ele parecera ansioso para se livrar delas?
Ele estava apenas preocupado com o corpo de Ian ter ido parar em outro lugar da floresta... ou
havia algo mais? Ela se virou e encarou a clareira vazia, desejando que o corpo de Ian voltasse
de onde quer que estivesse. Ela nunca esqueceria como um dos seus olhos estava arregalado,
enquanto o outro permanecia fechado. O pescoo dele estava torto, formando um ngulo
estranho. E ele ainda usava na mo direita o anel de platina de sua formatura em Rosewood
Day, a pedra azul brilhando com a luz da lua. As outras garotas tambm estavam olhando para o
espao vazio. Nesse momento houve um estalo, longe na floresta. Hanna pegou no brao de
Spencer. Emily deixou escapar um "Ah!". Todas elas congelaram, esperando. Spencer podia
sentir seu corao disparado.
         -- Eu quero ir para casa -- choramingou Emily.
         As outras meninas concordaram na mesma hora, todas elas pensando na mesma coisa.
At que a polcia de Rosewood comeasse as buscas, elas no estavam a salvo ali, sozinhas.
         Ento as meninas seguiram suas pegadas de volta para a casa de Spencer.
         Quando j estavam bem afastadas da clareira, Spencer viu o facho de luz da lanterna de
Wilden ao longe, oscilando entre as rvores. Ela parou, seu corao na garganta outra vez.
         -- Meninas -- sussurrou ela, apontando.
         A luz da lanterna de Wilden apagou rpido, como se ele tivesse percebido que elas
viram que ele estava ali. Seus passos ficaram cada vez mais abafados e distantes, at o som
desaparecer completamente.
         Ele no estava indo na direo da casa de Spencer para reunir uma equipe de busca,
como dissera que faria. No, ele estava indo para o interior da floresta... na direo exatamente
oposta.
                                             2
                                   TUDO O QUE VAI VOLTA
Na manh seguinte, Aria sentou-se  mesa de frmica na minscula cozinha de seu pai, em Old
Hollis, a cidade universitria prxima a Rosewood, comendo uma tigela de cereal Kashi
GoLean com leite de soja e tentando ler o jornal Philadelphia Sentinel. Seu pai, Byron, j
terminara as palavras cruzadas, e havia manchas de tinta nas pginas.
         Meredith, ex-aluna de Byron e atual noiva, estava na sala prxima  cozinha. Ela
acendera incenso de patchuli, e todo o apartamento cheirava como uma tabacaria. O barulho
calmante de ondas batendo e o som de gaivotas vinha da televiso da sala. Inspire pelo nariz no
comeo de cada contrao, instrua a voz de uma mulher. Quando voc expirar, produza os
sons hee, hee, hee. Vamos tentar juntas.
         -- Hee, hee, hee -- repetiu Meredith.
         Aria abafou um gemido. Meredith, grvida de cinco meses, estava assistindo a vdeos
sobre Lamaze havia uma hora, o que significava que Aria aprendera por osmose tcnicas de
respirao, bolas de ginstica e os males das anestesias epidurais.
         Depois de uma noite quase toda insone, Aria ligara para o pai bem cedo naquela manh
e perguntara se poderia ficar com eles por um tempo. Em seguida, antes que sua me, Ella, acor-
dasse, Aria colocou algumas coisas em sua bolsa de mo de tecido floral da Noruega e saiu.
Queria evitar um confronto. Ela sabia que a me ficaria atordoada por estar querendo morar por
um tempo com o pai e a namorada, que arruinara o casamento deles. Especialmente porque Ella
e Aria haviam finalmente se acertado e feito as pazes, depois que Mona Vanderwaal (a malvada
A) quase acabara com o relacionamento de me e filha. Aria odiava mentir, e no era como se
pudesse contar a Ella a verdade a respeito do motivo pelo qual estava fazendo aquilo. Seu novo
namorado est dando em cima de mim, convencido de que eu tambm quero ficar com ele,
pensou em dizer. Ella provavelmente nunca mais falaria com a filha.
         Meredith aumentou o volume da televiso -- aparentemente ela no conseguia ouvir
mais nada por causa do barulho de sua respirao hee. Som de ondas. Um gongo soou. Voc e
seu companheiro aprendero maneiras de amainar a dor natural do nascimento da criana e
apressar o processo do parto, disse a instrutora. Algumas tcnicas incluem imerso na gua,
exerccios de visualizao e deixar seu companheiro levar voc ao orgasmo.
         -- Oh, meu Deus. --Aria tapou os ouvidos com as mos. Era surpreendente que ela no
tivesse ficado surda no ato.
         Ela olhou para o jornal outra vez. Uma manchete estampava a pgina principal. Onde
est Ian Thomas?, perguntava o jornal.
         Boa pergunta, pensou Aria.
         Os acontecimentos da noite anterior martelavam em sua cabea. Como o corpo de Ian
poderia estar na floresta em um instante e desaparecer no minuto seguinte? Algum o matara e
depois arrastara seu corpo quando elas saram para procurar Wilden? O assassino de Ian o calara
porque ele havia descoberto o grande segredo sobre o qual comentara com Spencer? Ou talvez
Wilden estivesse certo -- Ian estava machucado, no morto, e fugira quando elas voltaram para
a casa de Spencer. Mas se era isso que tinha acontecido, Ian ainda estava... por a. Aria tremeu.
Ian odiava Aria e suas amigas por terem feito com que ele fosse preso. Ele poderia querer se
vingar delas.
         Aria ligou a televiso no balco da cozinha, ansiando por alguma distrao. O canal 6
exibia a reconstituio do assassinato de Ali -- Aria j tinha visto aquilo duas vezes. Ela mudou
de canal. No canal seguinte, o chefe de polcia de Rosewood conversava com alguns reprteres.
Ele vestia um pesado casaco de l azul-marinho forrado de pele, e havia pinheiros s suas
costas. Parecia que aquela entrevista estava acontecendo na beira da floresta que margeava a
casa de Spencer. Na parte inferior da tela, uma legenda dizia: Ian Thomas morto?
         Aria se inclinou, o corao palpitando.
         -- H relatos no confirmados de que o corpo do sr. Thomas foi visto nesta floresta na
noite passada -- dizia o chefe de polcia. -- Ns reunimos uma grande equipe e comeamos as
buscas na floresta s dez da manh de hoje. Entretanto, com toda esta neve...
         O cereal Kashi borbulhou no estmago de Aria. Ela pegou o celular sobre a pequena
mesa da cozinha e discou o nmero de Emily, que atendeu imediatamente.
         -- Voc est assistindo ao noticirio? -- perguntou Aria em vez de dizer "al".
         -- Acabei de ligar a televiso -- respondeu Emily, com a voz preocupada.
         -- Por que voc acha que eles esperaram at esta manh para comear a procurar?
Wilden disse que reuniria uma equipe ontem mesmo.
         -- Wilden tambm disse alguma coisa sobre procedimentos -- sugeriu Emily em voz
baixa. -- Talvez tenha alguma coisa a ver com isso.
         Aria bufou.
         --Wilden nunca se importou com procedimentos antes.
         -- Espere, o que voc est dizendo? -- Emily pareceu incrdula.
         Aria pegou um dos jogos americanos que um dos amigos de Meredith havia tecido com
cnhamo. Quase vinte horas haviam se passado desde que elas viram o corpo de Ian, e muita
coisa poderia ter acontecido na floresta durante esse tempo. Algum poderia ter eliminado as
provas... ou plantado pistas falsas. Mas o departamento de polcia -- Wilden -- havia sido
muito descuidado com esse caso desde o comeo.
         Wilden no tinha um suspeito sequer para a morte de Ali at que Aria, Spencer e as
outras entregaram a cabea de Ian para ele em uma bandeja. Ele deixara passar a escapadela de
Ian para visitar Spencer e deixara Ian fugir no dia do incio do julgamento. De acordo com
Hanna, Wilden queria que Ian fosse condenado tanto quantos elas, mas ele no fizera um bom
trabalho para manter Ian atrs das grades.
         -- No sei -- respondeu Aria finalmente. -- Mas  estranho que eles s estejam
tomando as providncias necessrias agora.
         --Voc recebeu mais alguma mensagem de A? -- perguntou Emily;
         Aria ficou tensa.
         -- No. E voc?
         -- No, mas continuo achando que vou receber uma a qualquer momento.
         -- Quem voc acha que  esse novo A? -- perguntou Aria.
         Ela mesma no tinha nenhuma teoria. Seria algum que desejava Ian morto, o prprio
Ian, ou uma pessoa completamente diferente? Wilden acreditava que as mensagens eram trotes
de algum que no tinha nada a ver com aquela histria, algum que poderia inclusive estar
muito longe dali. Mas A havia tirado fotos incriminadoras de Aria e Xavier juntos na semana
anterior. Isso significava que A estava em Rosewood. A tambm sabia a respeito do corpo de
Ian na floresta -- todas elas receberam uma mensagem que dizia para irem encontr-lo. Por que
A estava to desesperado para mostrar a elas o corpo de Ian -- queria assust-las? Ou alert-las?
E quando Hanna caiu, viu algum perto dela. Qual era a probabilidade de algum estar por
acaso na floresta na mesma hora em que as meninas encontraram o corpo de Ian? Tinha que
haver uma conexo.
         -- Eu no sei -- concluiu Emily, -- Mas no quero descobrir.
         -- Talvez A tenha ido embora -- disse Aria, com a voz mais esperanosa que
conseguiu.
         Emily suspirou e disse que tinha que ir. Aria levantou, serviu um copo de suco de aa
que Meredith havia comprado na loja de comida natural e massageou as tmporas. Ser que
Wilden atrasara o comeo da busca de propsito? Caso a resposta fosse positiva. por qu? Ele
parecia to inquieto e desconfortvel na noite anterior, e elas o viram seguir na direo oposta
da casa de Spencer. Talvez ele estivesse escondendo algo. Ou talvez Emily estivesse certa -- a
demora fosse devido aos procedimentos. Ele era apenas um policial obediente jogando de
acordo com as regras.
         Aria nunca deixava de se espantar com o fato de Wilden ter se tornado policial e, ainda
por cima, um policial dedicado. Wilden era da mesma turma que Jason DiLaurentis e Ian em
Rosewood Day e, naquela poca, era um encrenqueiro. Quando Aria estava no sexto ano, e ele
no dcimo primeiro, ela frequentemente escapava at o ptio onde os alunos mais velhos se
reuniam durante os intervalos para espionar Jason -- ela era apaixonada por ele e o seguia
sempre que podia. s vezes, por alguns segundos, conseguia espiar pela janela da sala de mar-
cenaria, para v-lo fazendo suas estantes de livros, ou se perdia olhando para suas pernas
musculosas enquanto ele corria durante os treinos de futebol. Aria sempre tomava muito
cuidado para no deixar ningum v-la. Mas uma vez algum viu.
         As aulas haviam comeado h uma semana. Aria estava observando Jason, do corredor,
enquanto ele checava seus livros, quando ouviu um clic atrs dela. L estava Darren Wilden,
com o ouvido colado na porta de um armrio, girando a chave devagar. O armrio abriu e Aria
viu um espelho com formato de corao na parte de dentro da porta, alm de uma caixa de
absorventes Always Maxi na prateleira de cima. A mo de Wilden alcanou uma nota de vinte
dlares posta entre dois livros. Aria franziu a testa ao perceber o que Wilden estava fazendo. Ele
se endireitou e notou a presena da menina. Aria o encarou de volta, sem vacilar.
         -- Voc no devia estar aqui. -- Ele sorriu. -- Mas no vou contar... desta vez.
         Quando Aria olhou para a televiso outra vez, estava passando o comercial de uma loja
de mveis que estavam em liquidao chamada The Dump. Ela olhou para o telefone sobre a
mesa, dando-se conta de que havia outra ligao que deveria fazer. Eram quase onze horas --
Ella com certeza j estava acordada. Aria discou o nmero de sua casa. O telefone tocou uma,
duas vezes. Houve um clic e algum disse:
         --Al?
         As palavras de Aria ficaram presas na garganta. Era Xavier, o novo namorado de sua
me. Ele parecia contente e relaxado, completamente  vontade para atender ao telefone dos
Montgomery. Ser que ele dormira l depois do evento beneficente na noite anterior? A, meu
Deus.
         -- Al? -- disse Xavier outra vez.
         Aria sentiu a lngua presa e ficou com nojo. Quando Xavier se aproximara dela no
evento beneficente de Rosewood Day na noite anterior e perguntara se eles poderiam conversar,
Aria sups que ele fosse se desculpar por beij-la poucos dias antes. Mas, aparentemente, no
dicionrio de Xavier, "conversar" significava "apalpar".
         Aps alguns segundos de silncio, Xavier suspirou.
         --  a Aria? -- disse ele, com voz pegajosa. Aria produziu um pequeno grunhido. --
No h nenhuma necessidade de se esconder -- provocou. -- Pensei que tivssemos nos
entendido.
         Aria desligou na mesma hora. O nico entendimento que ela e Xavier tiveram foi que,
se ela alertasse sua me sobre o tipo de pessoa que ele era, Xavier contaria a Ella que Aria tinha
gostado dele por um nanossegundo. E isso arruinaria a relao das duas para sempre.
         --Aria?
         Aria pulou e olhou para cima. Seu pai, Byron, estava de p diante dela, usando uma
camisa velha da Hollis e exibindo seu tpico cabelo de quem acabou de acordar. Ele sentou 
mesa perto dela. Meredith, usando um vestido de grvida que parecia um sri e sandlias de
dedo, andou at ela num passinho de pinguim e se inclinou sobre o balco.
         -- Ns gostaramos de falar com voc -- disse Byron.
         Aria colocou as mos no colo. Os dois pareciam muito srios.
         -- Primeiro, ns vamos fazer um ch de beb para Meredith na quarta-feira  noite --
disse Byron. --Vai ser uma coisa pequena para alguns de nossos amigos.
         Aria piscou. Elas tinham amigos em comum? Aquilo parecia impossvel. Meredith
estava na casa dos vinte, mal tinha sado da faculdade. E Byron era... velho.
         -- Voc pode trazer uma amiga, se quiser -- acrescentou Meredith. -- E no se
preocupe em me dar um presente. Eu no estou esperando nada.
         Aria imaginou se Meredith estava registrada na Sunshine, a loja ecolgica infantil de
Rosewood que vendia sapatinhos orgnicos de beb, feitos de garrafas de refrigerante
recicladas, por cem dlares.
         -- E quanto ao lugar do ch de beb... -- Byron puxou os punhos das mangas de seu
suter branco de tric. -- Ns vamos faz-lo em nossa nova casa.
         As palavras demoraram um pouco para serem compreendidas. Aria abriu a boca e logo
a fechou.
         -- Ns no quisemos contar a voc at que tivssemos certeza -- Byron se aventurou.
-- Mas nosso emprstimo saiu hoje, e ns vamos fechar o negcio amanh. Queremos mudar
logo, e adoraramos se voc viesse com a gente.
         -- Uma... casa? -- repetiu Aria. Ela no estava certa se sorria ou chorava.
         Ali, naquele pequeno apartamento de sessenta metros quadrados para estudantes em Old
Hollis, velho e cheio de goteiras, a relao de Byron e Meredith parecia quase... uma
brincadeira. Uma casa, por outro lado, era coisa de adultos. Era pra valer.
         -- Onde ? -- perguntou Aria finalmente.
         Meredith correu os dedos sobre a tatuagem de teia de aranha na parte interna do punho.
         -- Em Coventry Lane.  muito bonita, Aria. Acho que voc vai amar. Tem uma escada
em espiral que leva a um quarto grande no sto. Pode ser seu, se quiser. A iluminao l em
cima  tima para pintar.
         Aria olhou para uma pequena mancha no suter de Byron. Coventry Lane soava
familiar, mas ela no estava certa do porqu.
         --Voc pode comear a levar suas coisas para l a partir de amanh, na hora que quiser
-- disse Byron, olhando com cautela para Aria, como se no tivesse certeza da reao dela.
         Aria se virou meio abobada para a televiso. O noticirio mostrava a fotografia que fora
tirada de Ian na cadeia. Depois a me dele apareceu na tela, parecendo abatida, cansada.
         -- Ns no temos notcias de Ian desde quinta-feira  noite -- chorava a sra. Thomas.
-- Se algum souber o que aconteceu com ele, por favor, entre em contato.
         -- Espere a -- disse Aria com calma, um pensamento congelando em sua mente. --
Coventry Lane no  o lugar que fica logo atrs da casa de Spencer?
         -- Isso! -- Byron se iluminou. --Voc estar perto dela.
         Aria balanou a cabea. Seu pai no tinha entendido.
         --  a rua onde Ian Thomas morava.
         Byron e Meredith trocaram olhares, seus rostos empalidecendo.
         --  mesmo? -- perguntou Byron.
         O corao de Aria deu um pulo. Esta era uma das razes pelas quais ela amava o pai.
Ele estava incrivelmente por fora de todas as fofocas. Ao mesmo tempo, como era possvel ele
no saber disso? timo. Ela no s estaria perto da floresta onde encontraram o corpo de Ian,
como tambm do lugar onde Ali havia morrido. E se Ian ainda estivesse vivo, espreitando na-
quela floresta?
         Ela encarou o pai.
         --Voc no acha que aquela rua vai trazer um carma muito ruim?
         Byron cruzou os braos sobre o peito.
         -- Desculpe, Aria, mas ns fizemos um excelente negcio e no podemos deixar passar.
A casa  muito espaosa e tenho certeza de que voc vai achar mais confortvel do que viver...
nisto aqui. -- Ele gesticulou, apontando especificamente para o nico e minsculo banheiro da
casa, que eles tinham que dividir.
         Aria olhou para a estaca de madeira esculpida com a cara de um pssaro no canto da
cozinha, que Meredith tinha comprado em uma feira, mais ou menos um ms antes. No era
como se ela pudesse voltar para a casa da me. A voz provocativa de Xavier ecoava em sua
cabea. No h necessidade de se esconder. Eu achei que tivssemos nos entendido.
         -- Tudo bem, eu vou mudar na tera-feira -- resmungou Aria.
         Ela pegou os livros e o celular e foi para seu pequeno quarto nos fundos do estdio de
Meredith, sentindo-se exausta e derrotada.
        Quando jogou suas coisas sobre a cama, algo do lado de fora da janela chamou sua
ateno. O estdio ficava no fim do apartamento e dava para um beco e para uma garagem
abandonada. Uma sombra se moveu nas janelas embaadas da garagem. Em seguida, um par de
olhos encarou Aria diretamente atravs do vidro.
        Aria gritou e comprimiu o corpo contra a parede, com o corao galopando. Em um
segundo, porm, os olhos j haviam desaparecido, como se jamais tivessem estado l.
                                             3
                                DEIXE-ME VOAR PARA A LUA
Na noite de domingo, Emily Fields acomodou-se de pernas cruzadas em uma lanchonete
aconchegante, no muito longe de sua casa, chamada Penelope's. Seu novo namorado, Isaac,
sentou do outro lado da mesa, com duas fatias de po carregadas de manteiga de amendoim na
frente dele. Ele estava ensinando a ela como fazer seu mundialmente famoso, enlouquecedor,
sanduche de manteiga de amendoim.
         -- O segredo -- disse Isaac --  usar mel em vez de geleia.
         Ele pegou uma garrafa em formato de urso no meio da mesa. O urso produziu um som
de flatulncia quando Isaac apertou o contedo sobre uma das fatias.
         -- Prometo que isso acabar com todo o seu estresse.
         Ele passou o sanduche para ela. Emily deu uma grande mordida, mastigou e sorriu.
         -- Noooossa -- disse ela com a boca cheia. Isaac apertou sua mo, e Emily pensou que
fosse desmaiar.
         Isaac tinha olhos azuis delicados, expressivos, e havia algo em sua boca que fazia com
que parecesse estar sorrindo mesmo quando no estava. Se Emily no o conhecesse, ela diria
que era bonito demais para sair com algum como ela.
         Isaac apontou para a televiso sobre o balco da lanchonete.
         -- Ei, aquela no  a casa da sua amiga?
         Emily virou a tempo de ver a sra. McClellan, a vizinha de Spencer do fim da rua, parada
em frente  propriedade dos Hastings, seu poodle branco preso em uma guia retrtil.
         -- No consigo dormir desde sbado -- disse ela. -- A ideia de que h algum morto
largado ali na floresta atrs da minha casa  demais para suportar. S espero que eles o
encontrem logo.
         Emily afundou em seu assento com um gosto estranho na boca. Estava feliz que a
polcia estivesse procurando Ian, mas no queria ouvir nada a respeito daquilo. No naquele mo-
mento.
         Um policial apareceu na tela em seguida.
         -- O departamento de polcia de Rosewood deu todas as garantias necessrias, e os
policiais comearam sua busca na floresta hoje. -- Flashes pipocaram no rosto do policial. --
Ns estamos levando este assunto a srio e tomando as devidas providncias o mais rpido que
podemos.
         Os reprteres comearam a bombardear o policial com perguntas.
         -- Por que o oficial na cena do crime atrasou a busca?
         -- Os policiais esto encobrindo alguma coisa?
         --  verdade que Ian desrespeitou a priso domiciliar no comeo da semana e se
encontrou com uma das garotas que depois encontraram seu corpo?
         Emily roeu a unha de seu dedo mindinho, surpresa por ver que a imprensa descobrira
sobre a visitinha de Ian ao quintal de Spencer. Quem teria alertado a imprensa? Wilden? Um
dos policiais? A?
         O policial ergueu as mos pedindo silncio.
         -- Como acabo de explicar, o oficial Wilden no atrasou a busca. Ns tivemos que
obter as permisses necessrias para entrar na floresta. Ela  propriedade privada. Quanto ao
desrespeito do sr. Thomas  sua priso domiciliar,  algo que eu no estou preparado para
discutir no momento.
         A garonete fez um som tse e mudou de canal, sintonizando num noticirio. Rosewood
reage, dizia a grande legenda amarela na tela, que tambm mostrava o rosto de uma menina.
Emily logo reconheceu seu cabelo preto e seus enormes culos escuros Gucci. Jenna
Cavanaugh.
         Emily ficou enjoada. Jenna Cavanaugh. A garota que Emily e suas amigas haviam
acidentalmente deixado cega no sexto ano. A garota que contara a Aria, apenas dois meses atrs,
que Ali tinha problemas com seu irmo, Jason. Problemas que Emily no queria nem imaginar
quais eram.
         Emily pulou da mesa.
         --Vamos embora -- disse ela, desviando os olhos da televiso.
         Isaac ficou de p tambm, parecendo preocupado.
         -- Eu posso pedir que desliguem a televiso.
         Emily balanou a cabea.
         -- Eu realmente quero ir embora.
         --Tudo bem, tudo bem -- disse Isaac, gentilmente, colocando dinheiro sobre a mesa.
Emily andou sem muita firmeza at a porta da lanchonete. Quando alcanou a entrada, sentiu
Isaac pegando em sua mo.
         -- Desculpe -- disse ela, culpada, os olhos cheios de lgrimas. --Voc nem chegou a
comer seu sanduche.
         Isaac tocou o brao dela.
         -- No se preocupe. No posso nem imaginar o que voc est passando.
         Emily deitou a cabea no ombro dele. Sempre que fechava os olhos, via o corpo de Ian,
inerte e inchado. Ela nunca tinha visto uma pessoa morta, nem em funerais, nem em uma cama
de hospital, e certamente no algum assim, jogado na floresta, assassinado. Emily queria poder
apagar esta lembrana apenas apertando um boto, como se fosse um spam em sua caixa de e-
mail. Estar com Isaac era a nica coisa que afastava um pouco sua dor e seu medo.
         -- Aposto que voc no pensou em aturar esse tipo de coisa quando me pediu em
namoro, no ? -- murmurou ela.
         -- Ah, por favor -- disse Isaac com carinho, beijando sua testa. -- Eu estou ao seu lado
em qualquer situao.
         A cafeteira no balco borbulhou. Do lado de fora da janela, um caminho limpa-neve
trabalhava no fim da rua. Pela milionsima vez, Emily pensou em como tinha sorte por ter
encontrado algum to doce. Ele a aceitara mesmo depois que ela lhe contou sobre sua paixo
por Ali no stimo ano, e depois por Maya St. Germain no ltimo outono. Escutara
pacientemente quando ela explicou como sua famlia encarara sua sexualidade, enviando-a para
o Tree Tops, um programa para "recuperar" jovens. Ele segurara sua mo quando ela contou
que ainda pensava muito em Ali, mesmo que Ali tivesse escondido muitos segredos delas. E
agora Isaac a estava ajudando a passar por tudo aquilo.
         Escurecia, e o ar tinha cheiro de ovos mexidos e caf. Eles andaram d mos dadas at o
Volvo da me de Emily que estava estacionado em paralelo ao meio-fio. Montes volumosos de
neve se empilhavam na calada e algumas crianas escorregavam em uma elevao atrs do
terreno baldio no outro lado da rua.
         Quando chegaram ao carro, um rapaz vestindo um casaco cinza pesado e um capuz
forrado de pelo veio at eles. Seus olhos flamejavam.
         -- Este  o seu carro? -- Ele apontou para o Volvo.
         Emily parou, surpresa.
         -- S-sim...
         -- Olhe o que voc fez! -- O rapaz andou com pressa pela neve e apontou para um
BMW estacionado em frente ao Volvo. Havia uma marca logo abaixo da placa. --Voc
estacionou aqui depois de mim -- rosnou ele. --Voc pelo menos olhou antes de estacionar?
         -- De-desculpe -- gaguejou Emily. Ela no conseguia se lembrar de ter batido em nada
quando estacionara, mas a verdade  que estivera confusa o dia inteiro.
         Isaac encarou o rapaz.
         -- Isso poderia estar a antes. Talvez voc no tenha se dado conta.
         -- No estava. -- O rapaz deu um sorriso irnico.
         Quando ele chegou mais perto, seu capuz caiu. O rapaz tinha um cabelo louro
desgrenhado, olhos azuis penetrantes e um rosto familiar, em formato de corao. Emily sentiu-
se mal. Era o irmo de Ali, Jason DiLaurentis. Ela esperou, certa de que Jason tambm a
reconheceria. Emily passara praticamente todos os dias na casa de Ali durante o sexto e o
stimo anos, e Jason tinha acabado de v-la no julgamento de Ian na sexta-feira. Mas o rosto
dele estava vermelho, e seus olhos no fixavam nada diretamente. Ele parecia estar em um
transe enfurecido. Emily cheirou o ar perto dele, imaginando se estava bbado. Mas no sentiu
cheiro de lcool em seu hlito.
         -- Vocs pelo menos tm idade suficiente para dirigir? -- vociferou Jason.
         Ele deu mais um passo ameaador na direo de Emily. Isaac se postou entre eles,
protegendo Emily de Jason.
         -- Epa, voc no precisa gritar.
         As narinas de Jason fumegaram. Ele cerrou os punhos e, por um instante, Emily pensou
que ele fosse dar um soco em Isaac.
         Depois, um casal saiu da lanchonete em direo  rua, e Jason virou a cabea. Ele
deixou escapar um grunhido frustrado, bateu com fora no porta-malas do carro, deu uma volta
e pulou no banco do motorista. Jason deu partida e arrancou com o carro, fechando um veculo
que se aproximava. Buzinas soaram. Pneus cantaram. Emily observou com as mos no rosto as
luzes traseiras desaparecerem na esquina.
         Isaac olhou para Emily.
         -- Voc est bem? -- Emily fez um sinal com a cabea, em silncio, chocada demais
para falar. -- Qual era o problema dele? Era um amassado quase imperceptvel. Eu nem me
lembro de v-la batendo no carro dele.
         Emily engoliu em seco.
         -- Aquele era o irmo de Alison DiLaurentis.
         Dizer isso em voz alta fez com que ela desabasse e comeasse a chorar. Isaac hesitou
por um momento e depois a envolveu com os braos, puxando-a contra seu peito.
         -- Shhh -- Sussurrou ele. --Vamos entrar no carro. Eu dirijo.
         Emily lhe entregou as chaves e sentou no banco do passageiro. Isaac saiu da vaga e
entrou na estrada. As lgrimas corriam pelo rosto de Emily cada vez mais rpido. Ela no sabia
dizer ao certo por que estava chorando. A exploso de Jason a assustara, sim, mas s o fato de
ver Jason na frente dela fizera com que se sentisse mal. Ele era to parecido com Ali.
         Isaac olhou para ela parecendo preocupado.
         -- Emily... -- disse ele com ternura. Depois virou em uma rua que levava a um
complexo de prdios, seguiu em direo a um estacionamento vazio e escuro e estacionou. --
Est tudo bem.
         Ele tocou o brao de Emily. Eles ficaram sentados ali por uns instantes, sem dizer nada.
O nico som que se podia ouvir era do escapamento do Volvo. Depois de um tempo, Emily
secou as lgrimas, inclinou-se e beijou Isaac, feliz de que ele estivesse ali. Ele a beijou de volta
e eles se olharam demoradamente. Em seguida, Emily o beijou de novo, com mais intensidade.
De repente, todos os seus problemas desapareceram como cinzas ao vento.
         Os vidros do carro embaaram. Em silncio, Isaac pegou a ponta de sua camisa de
manga comprida e a puxou sobre a cabea. Seu peito era liso e musculoso, e ele tinha uma
pequena cicatriz na parte interna do brao direito. Emily se esticou e a tocou.
         -- Como voc conseguiu essa cicatriz?
         -- Ca de uma rampa de skate no segundo ano -- respondeu ele.
         Isaac baixou a cabea e fez um gesto na direo da camisa de Emily. Ela levantou os
braos. Isaac a tirou.
         Ainda que o aquecedor estivesse a todo vapor, os braos de Emily estavam arrepiados.
Ela olhou para baixo, envergonhada pelo suti de ginstica que havia desencavado de sua gaveta
naquela manh. Ele era estampado com luas, estrelas e planetas. Se ao menos tivesse vestido
algo mais feminino e sexy... Mas ela no estava planejando tirar suas roupas.
         Isaac apontou para o umbigo dela.
         --Voc tem um umbigo saltado.
         Emily o cobriu.
         -- Todo mundo ri dele.
         Em grande parte, ela se referia a Ali, que havia olhado para seu umbigo quando elas
estavam se trocando no Country Clube de Rosewood.
         -- Eu achava que s garotos gordinhos tivessem umbigos assim -- Ali provocara
Emily.
         Desde aquele dia, Emily usava apenas mais.
         Isaac afastou as mos dela.
         -- Eu acho lindo.
         Seus dedos tocaram a parte de baixo de seu suti, escorregando as mos para dentro. O
corao de Emily estava descontrolado. Isaac se inclinou at ela, beijando seu pescoo. Sua pele
nua tocou a dela. Ele puxou o suti de ginstica de Emily, como que pedindo a ela que o tirasse.
Ela passou o suti pela cabea, e um sorriso bobo surgiu no rosto de Isaac.
         Ela sorriu, impressionada com a seriedade do que estava acontecendo. E ainda assim,
no se sentia envergonhada. Isto parecia... certo.
         Os dois se abraaram apertado, seus corpos clidos um contra o outro.
         --Voc tem certeza de que est bem? -- murmurou Isaac.
         -- Eu acho que sim -- disse ela com o rosto deitado no ombro dele. -- Desculpe se
minha vida parece to maluca.
         -- No se desculpe. -- Isaac acariciou o cabelo dela com as mos. -- Como eu disse,
estou com voc para o que der e vier. Eu... amo voc.
         Emily se afastou um pouco, admirada. Isaac tinha um olhar to sincero e vulnervel no
rosto, e Emily se perguntou se ela era a primeira pessoa que ele amava. Sentiu-se to grata de t-
lo em sua vida. Ele era a nica pessoa que a fazia sentir-se ao menos um pouco segura.
         -- Eu amo voc tambm -- disse Emily.
         Eles se abraaram novamente, mais forte desta vez. Mas depois de alguns segundos
deliciosos, o rosto furioso e transtornado de Jason surgiu na mente de Emily. Ela fechou os
olhos, apertando-os, e sentiu o estmago se contrair.
         Acalme-se, disse baixinho uma voz dentro dela. Provavelmente havia uma explicao
lgica para a exploso de Jason. Todo mundo estava arrasado pela morte de Ali e pelo desapare-
cimento de Ian, e no era estranho que algum, especialmente um membro da famlia, ficasse
um pouco fora de si. Mas uma segunda voz tambm a cutucou.
         Essa no  a histria toda, disse a voz, e voc sabe disso.
                                            4
                                 AQUELE GAROTO  MEU
Mais tarde, naquela noite, Hanna Marin sentou-se a uma das mesas brancas e brilhantes no
Pinkberry do Shopping King James. Sua futura meia-irm, Kate Randall, Naomi Zeigler e Riley
Wolfe estavam com ela, e havia pequenos copos de frozen yogurt na frente de cada uma delas.
Uma msica pop japonesa animada soava nos alto-falantes, e uma fila de garotas da Escola
Preparatria St. Augustus se concentrava no balco, tentando escolher o que pedir.
         --Vocs no acham que o Pinkberry  um lugar muito melhor para se reunir do que o
Rive Gauche? -- disse Hanna, referindo-se ao bistr estilo francs na outra ponta do shopping.
Ela fez um gesto na direo do trio do shopping. -- Ns estamos exatamente do outro lado da
Armani Exchange e da Cartier. Podemos olhar garotos lindos e diamantes maravilhosos sem
ficar de p.
         Ela afundou a colher no copo do Pinkberry e depois a enfiou na boca, deixando escapar
um pequeno hummm para enfatizar o quanto achava aquilo uma boa ideia. Em seguida, deu um
pouco para Dot, seu cozinho, que carregava numa bolsa novinha de transportar ces, da Juicy
Couture. Os funcionrios da Pinkberry continuavam olhando feio para Hanna. Alguma regra
idiota dizia que cachorros no eram permitidos ali, mas certamente eles se referiam a cachorros
sujos, como labradores e so-bernardos e pequenos shih tzus asquerosos. Dot era o co mais
limpo em Rosewood. Hanna lhe dava banhos semanais de espuma com xampu de lavanda
importado de Paris.
         Riley brincava com uma mecha de seu cabelo acobreado.
         -- Mas voc no pode beber vinho escondido aqui, como fazia no Rive Gauche.
         -- Sim, mas o Rive Gauche no aceita ces -- disse Hanna, colocando as mos em
volta do focinho de Dot; ela deu a ele mais um pouco de Pinkberry.
         Naomi tomou um pouco do iogurte e imediatamente reaplicou mais uma camada de
batom Guerlain KissKiss.
         -- E a iluminao aqui  to... desfavorvel. -- Ela olhou para os espelhos redondos
que cobriam as paredes. -- Sinto como se meus poros estivessem aumentados aqui.
         Hanna bateu seu copo de Pinkberry na mesa, fazendo a pequena colher de plstico
pular.
         --Tudo bem, eu no queria ter que falar nisso, mas antes de terminarmos, Lucas me
disse que h ratos na cozinha do Rive Gauche.Voc realmente quer que a gente se rena em um
lugar com problema de roedores? Poderia haver coc de rato em suas batatas fritas.
         -- Ou voc no quer ir l por causa de um problema com Lucas? -- Naomi deu um riso
abafado, jogando seu cabelo louro-claro sobre o ombro ossudo. Kate deu uma risada e ergueu
sua xcara de ch de hortel que comprara mais cedo no Starbucks para um brinde. Quem
tomava ch de hortel alm de senhoras, afinal? Esquisita. Hanna olhou ressentida para sua
futura meia-irm, incapaz de compreend-la. No comeo da semana anterior, Kate e Hanna
pareciam amigas, compartilhando alguns segredos no caf da manh. Kate insinuou que tinha
um "problema ginecolgico", sem, entretanto, explicar o que era, e Hanna confessou ter
bulimia. Mas quando A comeou a insinuar para Hanna que Kate no era realmente uma boa
amiga e sim uma meia-irm diablica, ela ficara preocupada, achando que confiar em Kate
pudesse ter sido um grande erro. Por isso, na festa beneficente de Rosewood Day, Hanna
deixara escapar para a escola inteira que Kate tinha herpes. Hanna estava certa de que se no
tivesse feito isso, Kate teria espalhado seu segredo.
         Naomi e Riley haviam reconhecido de imediato o incidente do herpes como um grande
jogo de poder, chamando Hanna e Kate naquela manh de domingo para ir ao Shopping King
James, como se nada tivesse acontecido. Kate parecia ignorar tambm, virando para Hanna no
carro a caminho do shopping e dizendo num tom de voz amigvel:
         --Vamos esquecer tudo sobre a noite passada, est bem?
         Infelizmente, nem todo mundo enxergou o truque do herpes como o movimento de
abelha rainha que ele era na verdade. Logo depois que tudo aconteceu, Lucas, ento namorado
de Hanna, disse que estava tudo acabado entre eles. Ele no queria ficar com algum obcecado
por popularidade. E quando o pai de Hanna soube do que ela havia feito a Kate, decretou que
ela passaria todos os segundos de seus dias com ela para que pudessem fazer as pazes. At
aquele momento, ele estava levando o castigo muito a srio. Naquela manh, quando Kate quis
ir ao Wawa comprar Coca Diet, Hanna teve que ir junto. Depois, quando Hanna quis ir  aula de
bikram ioga, Kate correu at o andar de cima e vestiu sua cala cpri de ioga da Lululemon. E
naquela tarde, a imprensa havia aparecido na porta de Hanna para fazer perguntas sobre Ian ter
burlado a priso domiciliar na semana anterior para se encontrar com Spencer.
         -- Sobre o que eles conversaram? -- Os reprteres exultavam.
         -- Por que vocs no contaram  polcia que Ian escapou?
         -- Meninas, vocs esto escondendo algo de ns?
         Enquanto Hanna explicava que ela no soube que Ian havia aparecido na varanda de
Spencer at muito depois de ele ter escapado, Kate permanecera ao lado dela, passando uma
camada nova de gloss da Smashbox, caso os reprteres precisassem da opinio de outra garota
de Rosewood. No importava que ela fosse uma garota de Rosewood h apenas uma semana.
Depois que a me de Hanna conseguira um emprego com alta remunerao em Cingapura, Kate
mudara para a casa de Hanna com sua me, Isabel, e o pai de Hanna. Eles estavam noivos e
planejavam se casar. Eca.
         Kate deu um sorriso doce.
         --Voc quer falar sobre Lucas?
         Ela tocou a mo de Hanna.
         -- No h nada para falar -- retrucou Hanna, afastando a mo de Kate.
         Ela no estava com nenhuma vontade de se abrir com Kate. Aquilo era to semana
passada. Hanna estava triste com relao a Lucas, e j estava comeando a sentir falta dele, mas
talvez eles no fossem certos um para o outro.
         -- Mas voc parece bem irritada, Kate -- devolveu Hanna com a mesma voz adocicada.
--Voc no tem falado com Eric, no ? Coitadinha. Est com o corao partido?
         Kate baixou os olhos. Eric Kahn, o gato irmo mais velho de Noel, estava interessado
em Kate... Bem, ele estava, at o comentrio sobre herpes.
         -- Mas acho que foi melhor assim -- disse Hanna. -- Ouvi dizer que Eric  um galinha.
E ele gosta s de garotas com seios grandes.
         -- Os seios de Kate so normais -- se intrometeu Riley na conversa.
         Naomi enrugou o nariz.
         -- Eu nunca soube que Eric era galinha.
         Hanna agitou seu guardanapo, incomodada com a rapidez com que Naomi e Riley
saram em defesa de Kate.
         -- Acho que vocs no tm o mesmo tipo de informao privilegiada que eu tenho.
         As garotas se concentraram em seus Pinkberries, em silncio. De repente, um lampejo
de cabelo louro no trio chamou a ateno de Hanna, e ela se virou. Um grupo de garotas na
casa dos vinte passou, balanando bolsas de compra da Saks. Todas eram morenas.
         Hanna andara vendo muitos fantasmas de cabelo louro nos ltimos tempos, e tinha
sempre a estranha sensao de que poderia ser Mona Vanderwaal, sua antiga melhor amiga.
Mona morrera dois meses antes, mas Hanna ainda pensava nela muitas vezes ao dia. Todas as
vezes que dormiram uma na casa da outra, todas as viagens de compras que elas haviam feito,
todas as noites que haviam se embebedado na casa de Mona, rindo e falando sobre os garotos
que eram apaixonados por elas. E agora que Mona se fora, havia um vazio imenso na vida de
Hanna. Ao mesmo tempo, ela se sentia uma idiota. Mona no fora realmente uma amiga. Mona
era A. Ela havia arruinado os relacionamentos de Hanna, exposto sua vida e seus segredos e
torturado Hanna de todas as formas possveis por meses. E melhores amigas definitivamente no
atropelam umas s outras com a SUV do pai. Depois que o grupo de garotas passou, Hanna
notou uma figura familiar de cabelos negros do lado de fora do Pinkberry conversando ao
telefone. Ela apertou os olhos para enxergar melhor. Era o oficial Wilden.
         --Acalme-se -- murmurava Wilden ao telefone, sua voz ansiosa e angustiada. Sua testa
permanecia enrugada enquanto ele escutava a pessoa do outro lado da linha. -- Tudo bem, tudo
bem. Espere. Daqui a pouco estarei a.
         Hanna franziu a testa. Ser que ele descobrira algo sobre o corpo de Ian? Ela tambm
queria perguntar a ele sobre o assustador vulto encapuzado que vira na floresta na noite da festa.
Independente de quem fosse, a pessoa se aproximara de Hanna de forma muito ameaadora, e
depois de um momento levou um dedo aos lbios e sussurrou shhh. Por que algum mandaria
Hanna se calar, a no ser que tivesse feito algo terrvel e no quisesse ser visto? Hanna
imaginou se a pessoa tinha alguma relao com a morte de Ian. Talvez fosse A. Hanna comeou
a se levantar, mas antes que conseguisse afastar sua cadeira, Wilden foi embora. Ela afundou de
volta na cadeira, deduzindo que ele estivesse apenas ocupado e com pressa.
         Diferente de Spencer, Hanna achava que Wilden no estava escondendo nada. Wilden
namorara a me de Hanna antes de sua viagem a trabalho para Cingapura, e Hanna sentia que
tinha mais intimidade com ele do que as outras meninas. Tudo bem, encontr-lo logo aps o
banho, enrolado em sua toalha favorita da Pottery Barn, era mais estranho do que ntimo, mas
ele era essencialmente um cara legal que estava cuidando delas, certo? Se ele achava que a nova
A era apenas uma imitao da antiga, talvez tivesse razo. Por que ele as trairia? Alm disso,
Hanna no estava arriscando nada. Com isso em mente, ela tirou o iPhone novo em folha de sua
capa de couro de bezerro da Dior e virou outra vez para as meninas:
         -- Olhem, eu mudei o nmero do meu celular, mas no vou dar para qualquer um.
Vocs tm que prometer que no vo divulg-lo. Se fizerem isso, eu saberei. -- Ela encarou as
amigas com seriedade.
         -- Ns prometemos -- disse Riley, pegando ansiosamente seu BlackBerry.
         Hanna mandou mensagens para todas elas com o novo nmero. Na verdade, ela deveria
ter pensado em mudar de nmero muito antes. Era uma forma perfeita de colocar sua vida a
salvo de A. Alm disso, trocar de nmero era uma forma de se livrar de tudo o que havia
acontecido no semestre anterior. Voil! Todas as recordaes desagradveis iriam embora para
sempre.
         -- Enfim -- disse Kate em voz alta depois que as meninas terminaram de mandar
mensagens, guiando a ateno de volta para ela --, continuando o assunto. Eu j superei Eric.
H vrios outros garotos bonitos ao nosso alcance.
         Ela inclinou o queixo na direo do trio. Um grupo de jogadores de lacrosse de
Rosewood Day, incluindo Noel Kahn, Mason Byers, e o irmo mais novo de Aria, Mike, estava
matando tempo perto da fonte. Mike gesticulava enquanto contava uma histria. Ele estava
longe demais delas para que ouvissem o que ele dizia, mas os outros meninos do lacrosse
estavam prestando muita ateno.
         -- Garotos do time de lacrosse? -- Hanna fez uma careta. -- Voc deve estar
brincando.
         Ela e Mona haviam feito um pacto de nunca namorar garotos do time de lacrosse. Eles
faziam tudo juntos, desde estudar at malhar no Philly Sports Club, a academia nojenta nos fun-
dos do Shopping King James, ou comer a comida asquerosa do Chickfil-A. Hanna e Mona
costumavam fazer piada sobre isso, dizendo que eles tambm tinham um grupinho secreto cujos
membros se reuniam para tranar os cabelos uns dos outros e dormir juntos.
         Kate deu outro gole em seu ch de hortel.
         -- Alguns deles so muito gatos.
         -- Tipo quem? -- desafiou Hanna.
         Kate observou os meninos enquanto eles passavam pela M.A.C., DavidYurman, e Lush,
a loja que vendia milhes de tipos de velas e sabonetes caseiros.
         -- Ele. -- Ela apontou para um dos garotos no fim.
         -- Quem, Noel? -- Hanna deu de ombros.
         Noel serviria, se voc gostasse de garotos ricos que no tinham nenhum senso de
ridculo e eram obcecados por piadas sobre testculos, terceiros mamilos e animais transando.
         Kate mordeu a colherzinha do ch de hortel.
         -- Noel no, o outro. Com cabelo preto.
         Hanna piscou.
         -- Mike?
         -- Ele  lindo, no ?
         Hanna revirou os olhos, demonstrando incompreenso. Mike, lindo? Ele era barulhento,
irritante e grosseiro. Tudo bem, talvez no fosse um cachorro completo. Ele tinha o mesmo
cabelo preto azulado, corpo magro e olhos azul-gelo de Aria. Mas... ainda assim.
         De repente, um sentimento de posse comeou a correr nas veias de Hanna. O fato era:
Mike havia seguido Hanna como um cachorrinho perdido por anos. Em um fim de semana, no
sexto ano, quando ela, Ali e as outras meninas estavam dormindo na casa de Aria, Hanna
levantara no meio da noite para usar o banheiro. No corredor escuro, um par de mos se esticou
e apalpou seus seios. Hanna deu um grito, e Mike, ento no quinto ano, deu um passo para trs.
         -- Desculpe, pensei que voc fosse Ali -- disse ele. Depois de um silncio, Mike se
inclinou e a beijou assim mesmo. Hanna deixou que o menino a beijasse, secretamente
lisonjeada. Na poca, ela era gordinha, feia e desengonada, e no tinha milhares de garotos
brigando por ela. Mike foi tecnicamente seu primeiro beijo.
         Hanna olhou para Kate. Ela se sentia como uma panela borbulhando.
         -- Odeio ter que contar isto para voc, queridinha, mas Mike gosta de mim. No notou
o jeito que ele me olha no Steam toda manh?
         Kate passou os dedos no cabelo castanho.
         -- Eu estou no Steam toda manh tambm, Han.  difcil saber para quem ele est
olhando.
         --  verdade! -- intercedeu Naomi, escovando seu cabelo cada dia mais louro. --
Mike olha para todas ns.
         --  mesmo -- disse Riley.
         Hanna apertou sua perna com as unhas pintadas  francesinha. Que diabos estava
acontecendo ali? Por que aquelas duas estavam descaradamente do lado de Kate? Hanna era a
abelha rainha.
         -- Ns teremos que tirar isso a limpo -- disse Hanna, estufando o peito. Kate ergueu a
cabea, como se para dizer: Oh, sim?
         Depois, Kate levantou.
         -- Meninas, de repente me deu uma vontade louca de tomar um vinho. Querem dar uma
passada no Rive Gauche?
         Os olhos de Naomi e Riley brilharam.
         --  claro! -- disseram as duas em unssono e tambm ficaram de p.
         Hanna deixou escapar um grunhido indignado, e todo mundo parou.
         Kate fez um beicinho de falsa preocupao.
         -- Oh, Han! Voc est realmente... chateada a respeito do Lucas? Eu pensei mesmo
que voc no se importava.
         -- No -- respondeu Hanna, irritada por sua voz ter soado trmula. -- Eu no me
importo com ele. Eu... Eu s no quero ir a um lugar com ratos.
         -- No se preocupe -- disse Kate gentilmente. -- No vou dizer ao seu pai se voc no
quiser vir.
         Ela colocou sua bolsa Michael Kors sobre o ombro. Naomi e Riley olharam de um lado
para o outro, de Hanna a Kate, tentando decidir o que fazer. Por fim, Naomi deu de ombros,
mexendo no cabelo.
         -- Vinho parece uma tima ideia. -- Ela olhou para Hanna. -- Desculpe.
         E Riley seguiu logo atrs, sem dizer nada. Traidoras, pensou Hanna.
         -- Cuidado com rabos de ratos nas suas taas -- gritou Hanna para elas. Mas as garotas
no se viraram, seguiram andando, cutucando umas s outras e rindo. Hanna as observou por
um momento, o rosto vermelho de raiva. Depois, virou-se para Dot, respirou fundo algumas
vezes, e envolveu os ombros com seu manto de caxemira. Kate poderia ter vencido a batalha de
abelha rainha hoje, mas a guerra estava longe de terminar. Ela era a fabulosa Hanna Marin,
afinal. Aquela vaquinha estpida no fazia ideia de com quem estava se metendo.
                                             5
                                ME D UMA OPORTUNIDADE
No incio da noite de segunda-feira, Spencer e Andrew Campbell sentaram no solrio da casa
dela, com as anotaes de economia avanada espalhadas diante deles. Uma mecha do longo
cabelo louro de Andrew caiu em seus olhos quando ele se debruou sobre o livro e apontou para
o desenho de um homem.
         -- Este  Alfred Marshall. -- Ele cobriu o pargrafo abaixo da imagem. -- Rpido,
qual  a filosofia dele?
         Spencer massageou a testa. Ela conseguia adicionar colunas de nmeros na cabea e
fornecer sete sinnimos para a palavra assduo, mas, quando estudava economia avanada, seu
crebro virava uma pasta. Acontece que aquilo era algo que ela precisava aprender. Seu
professor, o sr. McAdam, declarou que Spencer seria expulsa do curso a menos que tirasse
apenas notas mximas. Ele ainda estava indignado com o fato de ela ter roubado o trabalho de
economia da irm e confessado apenas depois de vencer o prestigiado prmio Orqudea
Dourada. Por isso, Andrew, que tinha um talento especial para economia, agora era seu
professor particular.
         De repente, Spencer se lembrou.
         -- A teoria da oferta e demanda -- recitou ela.
         -- Muito bem. -- Andrew sorriu.
         Ele virou a pgina do livro, seus dedos roando nos dela sem querer. O corao de
Spencer disparou, mas Andrew logo se afastou.
         Spencer nunca estivera to confusa. A casa estava vazia agora. Seus pais e sua irm,
Melissa, haviam sado para jantar, sem convid-la, como sempre, o que significava que Andrew
poderia avanar um pouco, se quisesse. Na festa beneficente de Rosewood Day, ele parecia
querer beij-la, mas desde ento... nada. Bem, era verdade que Spencer estivera envolvida na
histria do desaparecimento do corpo de Ian no fim do sbado, e no domingo fizera uma viagem
rpida  Flrida para ir ao funeral de sua av. Andrew e ela haviam sido simpticos um com o
outro na escola naquela manh. Ele no mencionou o que acontecera na festa, e no seria ela
quem tocaria no assunto.
         A visita de Andrew deixara Spencer to ansiosa que ela fez uma faxina em seus trofus
dos campeonatos de soletrao, clube de teatro e hquei s para ter o que fazer. Talvez o beijo
de sbado tivesse sido apenas um beijo, nada mais. E, bem, Andrew fora sua tortura por anos.
Eles competiram pelo primeiro lugar na turma desde que a professora do jardim de infncia
promovera uma competio para ver quem faria a melhor marionete de papel de embrulho. Ela
no poderia gostar dele de verdade.
         Mas ela no estava enganando ningum.
         Uma intensa luz brilhou atravs das paredes de vidro do solrio, e Spencer se assustou.
Ao voltar da Flrida, na noite anterior, havia quatro vans da imprensa no gramado dianteiro e
uma multido de cmeras perto do celeiro reformado da famlia, nos fundos da propriedade.
         Agora um oficial da polcia com uma lanterna enorme e um pastor alemo da unidade
K-9 fazia a ronda no permetro e, ao passar pelos pinheiros que ficavam num dos cantos do
terreno, pareceu intrigado com alguma coisa. Spencer teve a sensao de que o co poderia ter
farejado o saco de lixo cheio de lembranas de Ali que a terapeuta especializada em luto,
Marion, pedira que as meninas enterrassem na semana anterior. Um reprter poderia tocar a
campainha a qualquer minuto, perguntando a Spencer o que aqueles objetos significavam.
         Era como se seus ossos tremessem, de medo e aflio.
         Na noite anterior, ela no conseguira dormir nem por um segundo, horrorizada que no
apenas uma, mas duas pessoas agora haviam morrido na floresta atrs de sua casa, a alguns
passos de seu quarto. Toda vez que ouvia o estalar de um galho ou o uivo do vento, se levantava
desesperada, certa de que o assassino de Ian ainda vagava pela floresta. Ela no conseguia parar
de pensar que Ian fora assassinado porque chegara perto demais da verdade.
         E se Spencer estivesse perto demais da verdade tambm, simplesmente por ter ouvido as
vagas informaes que Ian lhe dera quando eles conversaram na varanda, quando ele lhe contou
que os policiais estavam acobertando algo e que havia um segredo ainda maior sobre o
assassinato de Ali que toda Rosewood ainda no tinha descoberto?
         Andrew pigarreou, atento  forma aflita como Spencer encravava as unhas na superfcie
da mesa.
         -- Tudo bem com voc?
         -- Ah, tudo -- respondeu Spencer. -- Eu estou bem.
         Andrew apontou para os policiais do lado de fora da janela.
         -- Encare dessa forma: pelo menos voc tem proteo policial 24 horas por dia.
         Spencer engoliu em seco. Sim, isso provavelmente era uma coisa boa. Ela precisava de
toda a proteo que pudesse ter. Spencer olhou para suas anotaes sobre a matria e empurrou
seus medos para longe.
         -- De volta ao trabalho?
         -- Claro -- disse Andrew, parecendo muito concentrado. Ele voltou sua ateno para as
anotaes.
         Spencer sentiu uma mistura de decepo e apreenso.
         -- Bem... Ns no temos que estudar -- ela deixou escapar, esperando que Andrew
tivesse entendido sua mensagem.
         Andrew parou.
         -- Eu no quero estudar -- murmurou ele.
         Spencer tocou a mo dele. Devagar, ele se inclinou em direo a ela, que chegou mais
perto tambm. Depois de longos instantes, seus lbios se tocaram. Foi um alivio eletrizante. Ela
abraou Andrew. Ele cheirava como o purificador de ar ctrico que ficava pendurado no espelho
retrovisor de seu Mini Coopero Eles tomaram flego e se beijaram novamente, um beijo mais
longo dessa vez. O corao de Spencer batia acelerado. Depois, o telefone de Spencer fez um
barulhinho, pingo Quando ela o pegou, seu corao bateu mais forte, preocupada que fosse uma
mensagem de A. Mas o e-mail tinha o ttulo Notcias Sobre Sua Possvel Me!
         -- Oh, meu Deus -- sussurrou Spencer.
         Andrew se inclinou para ver.
         -- Eu estava para perguntar a voc se havia alguma novidade sobre essa histria.
         Na semana anterior a av de Spencer, Nana Hastings, deixara em testamento para cada
um de seus "netos legtimos", Melissa e os primos de Spencer, a quantia de dois milhes de
dlares. Para Spencer, no entanto, ela no deixara nada.
         Melissa tinha uma teoria sobre o motivo: talvez Spencer tivesse sido adotada.
         Por mais que Spencer quisesse acreditar que esse fosse mais um dos truques de Melissa
para humilh-la -- elas estavam constantemente tentando superar uma  outra, com Melissa
ganhando na maioria dos casos -- a ideia a incomodava. Era por isso que seus pais tratavam
Spencer como lixo e Melissa como ouro, mal reconhecendo as realizaes de Spencer,
descumprindo a promessa de deix-la morar no celeiro durante o ensino mdio, e at mesmo
cancelando os cartes de crdito dela? Era por isso que Melissa parecia um clone de sua me e
Spencer no?
         Ela confessara a teoria a Andrew, e ele contara a Spencer sobre o servio de busca da
me biolgica que uma amiga havia usado. Curiosa, Spencer registrou suas informaes pes-
soais, dados como data de nascimento, o hospital onde nasceu, a cor dos olhos, coisas assim. No
sbado, ao receber um e-mail na festa beneficente de Rosewood Day que dizia que o site havia
combinado sua data de nascimento com a da me em potencial, ela no soubera o que pensar.
Tinha que ser um erro. Certamente eles entrariam em contato com a mulher e ela diria que
Spencer no poderia ser sua filha.
       Com as mos trmulas, Spencer abriu o e-mail.
        Ol, Spencer.
        Meu nome  Olivia Caldwell.
        Eu estou to empolgada.
        Acredito que possamos ser me e filha.
        Se voc estiver disposta, adoraria conhec-la.
        Com sincero afeto, O.
        Spencer olhou para o e-mail por um longo tempo, depois levou a mo  boca. Olivia
Caldwell. Este poderia ser o nome verdadeiro da sua me biolgica?
        Andrew deu uma sacudidela nela.
        --Voc vai responder?
        -- No sei -- disse Spencer inquieta, retraindo-se enquanto um carro da polcia do lado
de fora ligava sua sirene penetrante e aguda. Ela olhou tanto para a tela de seu celular Sidekick
que as letras comearam a embaar. -- Quero dizer...  difcil acreditar at que isto  real. Como
meus pais poderiam esconder isso de mim? Significa que minha vida inteira foi uma... mentira.
        Nos ltimos tempos, ela descobrira que muito da sua vida, especialmente as
experincias que tivera com Ali, havia sido construdo em cima de mentiras. Spencer no tinha
certeza se poderia aguentar mais decepes.
        -- Por que no tentamos tirar isso a limpo? -- Andrew levantou e ofereceu a mo. --
Talvez haja algo nesta casa que nos ajude a descobrir a verdade.
        Spencer ponderou por um instante.
        -- Tudo bem -- ela cedeu hesitante. Era provavelmente uma boa hora para bisbilhotar.
Seus pais e sua irm demorariam muito a voltar.
        Ela pegou a mo de Andrew e o guiou at o escritrio de seu pai. O lugar cheirava a
conhaque e charutos -- seu pai s vezes recebia seus clientes do escritrio de advocacia em casa
-- e quando ela tocou no interruptor na parede, vrias luzes fracas acenderam sobre a pintura
monumental de uma banana de Warhol.
        Ela afundou na cadeira que ficava na frente da mesa de madeira de bordo e olhou para a
tela do computador. Uma srie de fotos da famlia servia de descanso de tela no computador. A
primeira era uma foto da formatura de Melissa na Universidade da Pensilvnia, o cabelo quase
cobrindo os olhos dela. Depois havia uma foto de Melissa de p na escada que dava acesso 
casa nova que os pais haviam comprado para ela quando entrou na Wharton School. Depois,
uma foto de Spencer surgiu na tela. Era uma foto instantnea de Spencer, Ali e as outras
amontoadas em uma boia enorme no meio de um lago. O irmo de Ali, Jason, nadava prximo a
elas, seu cabelo longo ensopado. Essa foto havia sido tirada no lago da casa da famlia de Ali
nas montanhas Poconos. Pela aparncia de todas elas, to jovens, devia ter sido tirada em uma
das primeiras vezes que Ali as convidara para ir at l, poucas semanas depois que elas se
tornaram amigas.
        Spencer recuou, surpresa de se ver em uma srie de fotos da famlia. Depois que
Spencer admitira ter trapaceado para ganhar o prmio Orqudea Dourada, seus pais a vinham
tratando de forma muito, muito distante. E era estranho ver uma foto antiga de Ali. Nada de
ruim havia acontecido entre Spencer, Ali e as meninas ainda -- nem A Coisa com Jenna, nem a
relao secreta de Ali com Ian, nem os segredos que Spencer e as outras tentavam esconder de
Ali, nem os segredos que Ali escondia delas. Ah, se a amizade delas tivesse continuado daquela
forma para sempre... Spencer tremeu, tentando afastar todos aqueles pensamentos incmodos.
        -- Meu pai costumava manter todas as coisas dele em um arquivo -- explicou ela,
mexendo no mouse para fazer o descanso de tela desaparecer. -- Mas minha me  louca por
limpeza e odeia pilhas de papis, e por isso ela o obrigou a escanear tudo. Se h algo sobre o
fato de eu ser adotada, est neste computador.
        Seu pai tinha algumas janelas do Internet Explorer abertas desde a ltima vez que
estivera no computador. Uma delas era a pgina principal do Philadelphia Sentinel. A manchete
dizia Contnua a busca pelo corpo de Ian. Logo abaixo, havia um editorial O departamento de
polcia de Rosewood deveria ser punido por negligncia. E depois, uma matria com o ttulo
Adolescente do Kansas recebe uma mensagem de A.
        Spencer franziu a testa e minimizou a tela. Ela olhou os cones de pastas no lado
esquerdo da tela do computador.
        -- Impostos -- leu em voz alta. -- Textos antigos. Trabalho. Coisas. -- grunhiu ela. --
Minha me o mataria se soubesse que ele organizou os arquivos desse jeito.
        -- E aquele? -- Andrew apontou para a tela. -- Spencer, faculdade.
        Spencer clicou nele. Havia apenas um arquivo em PDF dentro da pasta. O pequeno
cone da ampulheta girou enquanto o PDF lentamente carregava na tela. Ela e Andrew se
inclinaram. Era um demonstrativo recente de uma conta poupana.
        -- Uau! --Andrew apontou para o total.
        Havia um dois e mais do que alguns zeros. Spencer olhou o nome na conta. Spencer
Hastings. Ela arregalou os olhos. Talvez seus pais no a tivessem excludo completamente. Ela
fechou o PDF e continuou olhando. Os dois abriram mais alguns documentos, mas a maioria
dos arquivos eram planilhas que Spencer no entendia. Havia milhes de pastas que no
possuam classificao alguma. Spencer mexeu na pena de escrever que o pai havia comprado
em um leilo com peas da Revoluo Americana na Christie's.
        -- Ler isso tudo vai demorar um tempo.
        -- Copie os arquivos e leia depois com calma -- sugeriu Andrew.
        Ele abriu uma caixa de CDs na prateleira do pai de Spencer e colocou um no
computador. Spencer olhou para ele aflita. Ela no queria adicionar "invaso de privacidade" 
enorme lista de queixas que os pais tinham contra ela.
        -- Seu pai nunca saber -- disse Andrew, percebendo seu nervosismo. -- Eu prometo.
-- Ele apertou alguns botes no computador. -- S mais alguns minutos.
        Spencer olhou para a ampulheta rodando no monitor, arrepiada de tanto nervosismo. Era
bem possvel que a verdade sobre seu passado estivesse naquele computador. Tinha prova-
velmente estado sob seu nariz durante anos, e ela nunca fizera a menor ideia.
        Ela pegou o celular e abriu o e-mail de Olivia Caldwell outra vez. Eu adoraria conhecer
voc. Com sincero afeto. De repente, sua mente clareou: quais eram as chances de uma mulher
ter abandonado um beb no mesmo dia que Spencer nasceu, no mesmo hospital? Uma mulher
com olhos verde-esmeralda e cabelo louro-escuro? E se aquilo tudo no fosse uma teoria... mas
a verdade?
        Spencer olhou para Andrew.
        -- Acho que no faria mal se eu fosse encontr-la.
        Andrew deu um sorriso surpreso. Spencer voltou os olhos para seu Sidekick e clicou em
responder, enquanto uma sensao vertiginosa tomava conta de seu corpo. Apertando a mo de
Andrew, ela respirou fundo, escreveu uma mensagem e clicou em enviar. Em um piscar de
olhos, o e-mail foi enviado.
                                             6
                             ACHO QUE ESSE  O NOSSO TREM
Na manh seguinte, o irmo de Aria, Mike, aumentou o volume do rdio no Subaru Outback da
famlia. Aria se encolheu enquanto "Black Dog", do Led Zeppelin, rosnava nos alto-falantes.
          --Voc pode abaixar um pouco o volume? -- ela se queixou.
          Mike continuou balanando a cabea:
          --  melhor ouvir Zeppelin no volume mximo.  o que Noel e eu fazemos.Voc sabia
que os caras da banda eram muito irados? Jimmy Page andava de moto pelos corredores dos
hotis! Robert Plant atirava televises pela janela na Sunset Strip!
          -- No, no posso dizer que sabia disso -- disse Aria, sria. Naquele dia, Aria tinha a
triste tarefa de levar o irmo para a escola. Mike geralmente pegava carona com seu mentor, um
Tpico Garoto de Rosewood, Noel Kahn, mas o Range Rover de Noel estava na loja para a
instalao de um som ainda mais potente. E Deus no permitia que Mike andasse de nibus.
          Mike estava distrado mexendo em sua pulseira amarela de borracha do time de lacrosse
de Rosewood Day.
          -- Quer dizer que voc est morando com o papai outra vez?
          --Achei que deveria passar um tempo igual com Ella e com Byron -- resmungou Aria.
Ela fez uma curva  esquerda na rua que levava  escola e quase atropelou um esquilo gorducho
que atravessava a pista. -- E ns deveramos conhecer Meredith melhor, voc no acha?
          -- Mas ela  uma mquina de vmito. -- Mike fez uma careta.
          -- Ela no  to ruim assim. E eles esto mudando para uma casa maior hoje. -- Por
acaso, Aria havia escutado Byron contar a novidade para Ella ao telefone na noite anterior e
sups que Ella tivesse contado a Mike e Xavier. -- Eu vou ter um andar inteiro para mim.
          Mike olhou desconfiado para a irm, mas Aria no pareceu se abalar.
          O telefone de Aria, que estava guardado dentro de sua bolsa de pelo de iaque, tocou. Ela
olhou para ele, nervosa. No tinha recebido uma mensagem de quem quer fosse essa nova A
desde que descobrira o corpo de Ian na noite de sbado, mas, como Emily dissera no outro dia,
Aria tinha a sensao de que iria receber uma a qualquer momento.
          Respirando fundo, ela pegou a bolsa. A mensagem era de Emily.
        Entre pelos fundos. A escola est lotada de vans da im-
        prensa.
         Aria grunhiu. As vans haviam se amontoado em frente  escola no dia anterior tambm.
Reprteres de todas as redes de televiso de pelos menos trs estados diferentes haviam fincado
seus dentes na histria do corpo de Ian. No noticirio das sete da manh, reprteres
entrevistaram mes que esperavam seus filhos nos pontos de nibus e pessoas que esperavam o
trem, perguntando se eles achavam que a polcia havia sido negligente naquele caso. A maioria
dos entrevistados dizia que sim. Muitos deles estavam indignados com a possibilidade de a
policia estar escondendo algo a respeito do assassinato de Ali.
        Alguns jornais mais sensacionalistas elaboravam teorias conspiratrias, dizendo que Ian
usara um dubl na floresta, ou que Ali tinha um primo distante transformista que era respon-
svel no s pelo assassinato dela, como tambm por uma srie de mortes em Connecticut. Aria
esticou o pescoo para ver por cima da fila de Audis e BMWs que se apinhavam na entrada de
veculos da escola. E claro, havia quatro caminhonetes de emissoras de televiso na faixa de
nibus, bloqueando o trnsito.
        -- Legal! -- disse Mike, olhando as caminhonetes. -- Me deixe aqui. Aquela Cynthia
Hewley  muito gostosa. Voc acha que ela ficaria comigo?
        Cynthia Hewley era a reprter loura supersexy que cobria implacavelmente o
julgamento de Ian. Todo garoto de Rosewood Day tinha fantasias com ela.
        Aria no parou o carro.
        -- E se Savannah soubesse disso? -- Ela cutucou o brao de Mike. -- Ou voc
esqueceu que tem namorada?
        Mike mexeu em um broche preso a seu casaco azul-marinho.
        -- Eu meio que no tenho mais.
        -- O qu? -- Aria havia conhecido Savannah na festa beneficente de Rosewood Day e
se surpreendera ao constatar que ela era normal e gentil. Aria sempre se preocupara que a
primeira namorada real de Mike fosse uma Barbie depravada, sem crebro e a funcionria do
ms do Turbulence, o clube de striptease local.
        Mike deu de ombros.
        -- Se voc quer mesmo saber, ela terminou comigo.
        -- O que voc fez? -- perguntou Aria. Em seguida, ela ergueu a mo, para faz-lo ficar
quieto. -- Pensando bem, no me conte.
        Provavelmente Mike havia sugerido que Savannah comeasse a vestir roupas vulgares
ou implorado que ela ficasse com uma garota e o deixasse ver.
        Aria dirigiu em direo  parte de trs da escola, onde ficavam o campo de futebol e o
galpo de arte. Quase no fim do terreno da propriedade, ela notou um folheto balanando em um
dos holofotes de metal do terreno que ficavam no alto. As letras garrafais diziam:
       CPSULA DO TEMPO, A EDIO DE INVERNO, COMEA HOJE!
       AQUI EST SUA CHANCE DE SER IMORTALIZADO!
         -- Esto brincando comigo -- sussurrou Aria.
         A escola promovia a competio da Cpsula do Tempo todo ano, embora Aria tivesse
perdido as trs ltimas edies porque sua famlia estava morando em Reykjavk, na Islndia. O
jogo geralmente acontecia no outono, mas Rosewood Day fora hbil o bastante para suspender
este ano, depois que alguns operrios encontraram o corpo de Ali DiLaurentis em um buraco
cavado em seu antigo quintal. Mas Rosewood no ousaria simplesmente cancelar sua tradio
mais venervel. O que os doadores pensariam?
         Mike se endireitou para ler o aviso.
         -- Legal. Eu tenho a ideia perfeita para decor-la. -- Ele esfregou as mos, todo
animado.
         Aria revirou os olhos.
         --Voc vai desenhar unicrnios nela? Escrever um poema sobre sua relao amorosa
com Noel?
         Mike balanou a cabea.
         --  muito melhor. Mas se eu contasse a voc, teria que mat-la.
         Ele acenou para Noel Kahn, que estava saindo do Hummer de James Freed, e saiu do
carro sem dizer tchau.Aria suspirou, olhando mais uma vez para o anncio da Cpsula do
Tempo. No sexto ano, o primeiro ano em que ela pudera participar do jogo, a Cpsula do
Tempo havia sido um acontecimento. Mas quando Aria, Spencer e as outras entraram
sorrateiramente no jardim de Ali, esperando roubar seu pedao da bandeira, tudo dera muito
errado. Aria pensou na caixa de sapato no fundo do seu armrio. Durante todos aqueles anos, ela
no tivera coragem de espiar dentro daquela caixa.Talvez a parte de Ali da bandeira j tivesse se
decomposto, exatamente como seu corpo.
        -- Srta. Montgomery?
        Aria deu um pulo. Uma mulher de cabelos pretos, com um microfone na mo, estava
parada ao lado do carro. Atrs dela, um rapaz segurava uma cmera de televiso.
        Os olhos da mulher se iluminaram quando ela viu o rosto de Aria.
        -- Srta. Montgomery! -- exclamou ela, batendo na janela de Aria. -- Posso fazer
algumas perguntas?
        Aria trincou os dentes, sentindo-se como um macaco no zoolgico. Ela fez um gesto
para a mulher se afastar, ligou o carro outra vez e deu r para sair do terreno. A reprter correu
ao lado dela. O cinegrafista continuou com as lentes de sua cmera voltadas para Aria enquanto
ela seguia em direo  rua principal.
        Ela precisava cair fora dali. Agora.
        Quando Aria chegou  estao de trem de Rosewood, o estacionamento estava
praticamente lotado de Saabs, Volvos e BMWs. Ela finalmente encontrou um espao, enfiou
algumas moedas no parqumetro e foi at a plataforma. Os trilhos do trem passavam sob uma
ponte coberta e enferrujada. Do outro lado da rua havia uma loja de animais, que vendia comida
caseira para ces e roupas para gatos.
        No havia nenhum trem  vista. Aria ficara to desesperada para deixar Rosewood Day
que no passara por sua cabea verificar a escala dos trens. Suspirando, ela foi at uma galeria
onde havia um guich para compra de passagens, um caixa eletrnico e um pequeno balco de
caf que tambm vendia livros sobre a viagem de trem pela histrica regio de Main Line.
Havia algumas pessoas sentadas nos bancos de madeira enfileirados ao longo da plataforma,
olhando sem grande interesse para a televiso no canto, sintonizada no programa Regis & Kelly.
Aria foi at a parede distante onde estavam as escalas de trem e descobriu que a prxima sada
seria em meia hora. Resignada, ela se sentou em um banco. Algumas pessoas a encararam
fixamente. Ela ficou imaginando se a teriam reconhecido da televiso. Afinal de contas, havia
reprteres atrs delas desde domingo.
        -- Ei! -- disse uma voz. -- Eu conheo voc.
        Aria grunhiu, antecipando o que viria. Voc  aquela amiga da garota assassinada!
Voc  aquela garota que estava sendo perseguida! Voc  aquela garota que encontrou o
corpo na floresta!
        Quando procurou pela voz, seu corao parou. Um conhecido rapaz louro estava
sentado em um banco do outro lado do corredor, olhando para ela. Aria reconheceu seus dedos
longos, sua boca curvada, at o pequeno sinal na ma do seu rosto. Ela sentiu calor, depois
frio.
        Aquele era Jason DiLaurentis.
        -- O-oi -- gaguejou Aria.
        Ultimamente, ela passava muito tempo pensando em Jason, especialmente na atrao
que sentira por ele. Era estranho de repente v-lo ali, na frente dela.
        --  Aria, certo? --Jason fechou o livro que estava lendo.
        -- Isso mesmo. -- Aria tremia por dentro. Ela no tinha certeza de ter ouvido Jason
dizer seu nome antes. Ele costumava se referir a ela e s outras simplesmente como "as Alis".
        --Voc  a que fazia filmes. -- Os olhos azuis de Jason estavam fixos nela.
        -- Sim. --Aria sentiu seu rosto enrubescer. Elas costumavam passar os filmes
pseudoartsticos de Aria no quarto de Ali, e s vezes Jason parava no corredor para assistir. Aria
normalmente se sentia muito sem graa na presena dele, mas, ao mesmo tempo, queria muito
que ele dissesse alguma coisa sobre seus filmes. Queria ouvir que eles eram brilhantes, talvez,
ou pelo menos instigantes.
        -- Voc era a nica com contedo -- falou, olhando para ela de forma gentil, sedutora.
Aria achou que fosse desmaiar. Contedo era bom... certo?
        -- Voc est indo para Filadlfia? -- Aria deixou escapar, tentando comear uma
conversa.
        Ela logo teve vontade de bater na prpria testa. D.  claro que ele estava indo para a
Filadlfia. Este trem no ia para outro lugar.
         Jason concordou.
         -- Para Penn. Acabo de pedir transferncia. Eu estudava em Yale.
         Aria se segurou para no dizer Eu sei. No dia em que Ali contou a elas que Jason tinha
entrado para Yale, a primeira opo dele, Aria pensara em mandar um carto de Parabns. Mas
decidiu no fazer, com medo de Ali rir dela.
         --  timo -- prosseguiu Jason. -- Tenho aula apenas s segundas, quartas e quintas-
feiras, e saio cedo o suficiente para pegar o trem das trs da tarde de volta para Yarmouth.
         --Yarmouth? -- repetiu Aria.
         -- Meus pais se mudaram para l para acompanhar o julgamento. -- Jason deu de
ombros e folheou o livro que tinha nas mos. -- Mudei para um apartamento em cima da
garagem. Imaginei que eles precisariam do meu apoio para passar por essas coisas.
         -- Claro. -- O estmago de Aria comeou a doer. Ela no conseguia imaginar como
Jason estava lidando com o assassinato de Ali. No apenas seu antigo colega de turma a matara,
como tambm desaparecera depois.
         Ela passou a lngua sobre os lbios, pensando nas respostas para o que imaginava que
seriam suas prximas perguntas: Como foi ver o corpo de Ian na floresta? Onde voc acha que
ele est agora? Voc acha que algum o tirou de l?
         Mas Jason apenas suspirou.
         -- Geralmente fico em Yarmouth, mas hoje eu tinha uma coisa para fazer em
Rosewood, portanto aqui estou.
         Ao longe, o barulho de um trem-bala da Amtrak indicava que ele vinha em direo 
estao. As outras pessoas que esperavam pelo trem se levantaram e se encaminharam para a
porta que dava para a plataforma. Depois que o trem se afastou, Jason cruzou o corredor e
sentou ao lado de Aria:
         -- H... Hoje voc no tem aula? -- perguntou ele.
         Aria abriu a boca, atrapalhando-se em busca de uma resposta. Jason de repente estava
perto dela, ela conseguia facilmente sentir seu cheiro do sabonete de nozes. Era inebriante.
         -- H... No.  dia de reunio de pais e mestres.
         -- Voc sempre veste seu uniforme em dias que no tem aula? -- Jason apontou para a
bainha da saia xadrez de Rosewood Day de Aria. Ela estava aparecendo embaixo de seu longo
casaco de l. Aria sentiu as bochechas queimarem.
         -- Eu no mato aula com frequncia, juro.
         -- Eu no contarei para ningum -- provocou Jason. Ele se inclinou, fazendo o banco
ranger. --Voc conhece o lugar onde se pode alugar carrinhos de kart na Wembley Road? Uma
vez eu fiquei l o dia inteiro. Dirigi um daqueles carrinhos por horas.
         Aria riu.
         -- O rapaz magro j trabalhava l? O que usa macaco da NASCAR? -- Mike
costumava ser obcecado por aquela pista de kart antes de ficar obcecado por lacrosse e
danarinas de striptease.
         -- Jimmy? -- Os olhos de Jason brilharam. -- Claro.
         -- E ele no perguntou a voc por que no estava na escola? -- quis saber Aria,
colocando a mo sobre o apoio de brao do banco. -- Ele geralmente  muito curioso.
         -- No. -- Jason cutucou seu ombro. -- Mas eu tinha juzo o suficiente para trocar meu
uniforme da escola, para no dar tanto na vista. De qualquer forma, o uniforme das garotas 
muito mais bonito do que o dos garotos.
         Aria de repente se sentiu to envergonhada que virou o rosto e olhou fixamente para a
fileira de batatas fritas e pretzels que estavam na mquina de vender comida. Jason estava fler-
tando com ela?
         Os olhos de Jason brilhavam. Ele inspirou, talvez para dizer outra coisa. Aria esperou
que ele fosse marcar um encontro com ela, ou talvez at pedir o nmero de seu telefone. Mas a
a voz do condutor anunciou pelo alto-falante que o trem que ia no sentido leste, para a
Filadlfia, chegaria em trs minutos.
         -- Acho que  o nosso trem -- disse Aria, fechando o casaco. -- Quer viajar comigo?
         Mas Jason no respondeu. Quando Aria olhou, ele estava encarando a televiso. Estava
plido e sua boca no passava de uma linha, tensa e angustiada.
         -- Eu... ah... acabo de me dar conta. Eu tenho que ir. -- Ele se levantou parecendo
meio confuso, apertando seus livros contra o peito.
         -- O-o qu? Por qu? -- disse Aria.
         Jason deu a volta no banco, sem responder. Depois tropeou em Aria enquanto passava,
derrubando sua bolsa.
         -- Opa -- murmurou ela, quase morrendo de vergonha quando um absorvente
superplus e sua vaquinha de pelcia da sorte caram no pegajoso cho de concreto.
         -- Desculpe -- resmungou Jason, empurrando a porta que dava para o estacionamento.
         Aria olhou para ele, atordoada. O que havia acabado de acontecer? E por que Jason
estava voltando para seu carro... e no indo para a cidade?
         Seu rosto queimou com um pensamento repentino. Jason havia provavelmente
descoberto como Aria se sentia a respeito dele. E talvez, por no ter inteno de lhe dar
esperanas, resolvera que era melhor dirigir at a Filadlfia em vez de ir de trem com ela. Como
Aria pde ser to estpida de pensar que Jason estava flertando com ela? E da se ele dissera que
ela era a nica menina da turma com contedo, ou que ela estava bonita com aquela saia? E da
se anos atrs ele dera a ela o pedao da bandeira que Ali decorara para a Cpsula do Tempo?
Nada daquilo precisava significar alguma coisa. No fim das contas, Aria no era nada mais do
que uma das Alis sem nome.
         Humilhada, Aria se virou lentamente para a televiso. Para sua surpresa, o programa
Regis & Kelly havia sido interrompido pela transmisso do noticirio. Na tela as palavras: A
histria do corpo de Thomas  uma fraude. O sangue sumiu do rosto de Aria. Ela se voltou para
os carros no estacionamento. Ou teria sido esse o motivo pelo qual Jason lembrou to rpido
que tinha outras coisas a fazer?
         Na televiso, o chefe de polcia de Rosewood falava em frente a vrios microfones.
         -- Ns procuramos na floresta por dois dias e no encontramos nenhum vestgio do
corpo do sr. Ian Thomas -- disse ele. -- Talvez precisemos dar um passo atrs e considerar
outras possibilidades.
         Aria franziu a testa. Quais outras possibilidades?
         A me de Ian apareceu na tela. Havia vrios microfones na frente do seu rosto.
         -- Ian nos enviou um e-mail ontem -- disse ela. -- Ele no contou onde estava, s que
estava a salvo... e que no  o responsvel por nada do que aconteceu. -- Ela parou de falar para
limpar os olhos. -- Ns ainda estamos verificando se este e-mail veio realmente dele ou no.
Espero que no seja ningum usando a conta dele para nos enganar.
         Em seguida, o oficial Wilden surgiu na tela.
         -- Eu quis acreditar nas meninas quando elas me contaram que viram Ian na floresta --
disse ele, parecendo arrependido. -- Mas mesmo no comeo, eu no tinha muita certeza. Tive a
sensao terrvel de que poderia ser um truque para conseguir nossa ateno.
         Aria estava boquiaberta.
         -- O qu?
         E finalmente a cmera focou em um homem de barba com culos grossos e suter cinza.
Dr. Henry Warren, Psiquiatra, Hospital de Rosewood, dizia a legenda abaixo.
         -- Ser o centro das atenes  um sentimento que causa dependncia -- explicou o
doutor. -- Se o foco est em algum por muito tempo, eles comeam a... cobi-lo. s vezes, as
pessoas tomam qualquer medida para manter todos os olhos voltados para elas, mesmo que isto
signifique embelezar a verdade. Criar realidades falsas.
         Um ncora do telejornal apareceu para dizer que mais detalhes daquela histria seriam
apresentados dentro de uma hora. Em seguida, um comercial comeou e Aria apoiou as mos
sobre o banco e respirou fundo. QUE DROGA ERA AQUELA?
         O trem leste surgiu na estao e seus freios guincharam. De repente, Aria perdeu a
vontade de ir para Filadlfia. No havia sentido em fazer aquilo. No importava para qual lugar
ela fosse, a bagagem de Rosewood sempre a seguiria.
         Ela andou de volta para o estacionamento, procurando a figura alta e loura de Jason.
No havia nenhuma pessoa  vista. A rodovia em frente  estao estava vazia tambm, as luzes
do trfego se movimentando silenciosamente. Por um instante, Aria sentiu como se fosse o
ltimo humano do mundo. Engoliu em seco, arrepios percorriam todo o seu corpo. Jason
estivera ali agora, no estivera? E elas haviam visto o corpo de Ian na floresta... Certo? Por um
instante,Aria se sentiu como se estivesse realmente ficando louca, como insinuara o psiquiatra.
        Mas ela logo afastou aquele pensamento. Quando o trem deixou a estao, Aria andou
de volta para o seu carro. No tendo nenhum lugar melhor para ir, finalmente dirigiu de volta
para a escola.
                                               7
                                  KATE     I   X   I   HANNA
Hanna colocou seu venti skim latte com acar no balco do Steam, a cafeteria de Rosewood
Day. Era hora do almoo naquela tera-feira, e Kate, Naomi e Riley ainda estavam na fila. Uma
por uma, Hanna as escutou pedir um ch de hortel extragrande. Hanna havia perdido a
revelao, mas, ao que tudo indicava, ch de hortel era a bebida da vez.
         Ela rasgou mais um sach de adoante Splenda com os dentes. Se ao menos tivesse uma
plula de Percocet para tomar com seu leite, ou, melhor ainda, uma arma. At agora, o almoo
tinha sido um desastre. Primeiro, Naomi e Riley haviam se derramado em elogios a respeito das
botas da Frye de Kate, sem dizer nada a respeito de seus sapatos Chanel Chie Mihara, que eram
muito mais bonitos. Depois, elas cochicharam sobre o quanto haviam se divertido no dia
anterior no Rive Gauche. Um dos garons, um universitrio, desviara litros de vinho pinot noir
para as meninas. Depois de beber at dizer chega, elas foram at a loja Sephora, onde Kate
comprou mscaras de gel para os olhos, para diminuir a ressaca de Naomi e Riley.
         As meninas levaram as mscaras para a escola e as usaram na sala de estudos, durante o
longo intervalo do segundo perodo. A nica coisa que levantou o nimo de Hanna foi ver que a
mscara fria havia marcado a regio ao redor dos olhos castanhos de Riley, deixando-a
avermelhada.
         -- Hunf-- Hanna fungou baixinho.
         Ela atirou o sach de Splenda na pequena lixeira de ao, prometendo-se comprar algo
melhor do que aquela mscara estpida para Naomi e Riley.
         Em seguida, voltou sua ateno para a televiso de tela plana sobre a grande jarra de
gua com limo. Geralmente, a televiso ficava sintonizada no canal de circuito fechado de Ro-
sewood Day, que mostrava recapitulaes de eventos esportivos da escola, corais e entrevistas,
mas algum tinha colocado no canal de noticirios. Corpo de Thomas no  encontrado na
floresta, dizia uma legenda na parte de baixo da tela. Seu estmago se contraiu. Aria havia
contado a ela essa histria, mais cedo, na aula de ingls avanado. Como os Thomas podiam ter
recebido uma mensagem de Ian? Como poderia no haver nenhum vestgio de Ian naquela
floresta, nenhum sangue, nenhum cabelo, nada? Isso significava que elas no o viram de
verdade? Isso significava que ele ainda estava... vivo?
         E por que os policiais estavam dizendo que Hanna e as outras meninas tinham inventado
a coisa toda? Wilden no parecera achar que elas tinham inventado aquilo tudo na noite da festa.
Alis, se no tivesse sido to difcil encontrar Wilden naquela noite, elas teriam voltado para a
floresta mais rpido. E talvez assim eles tivessem achado o corpo, antes que Ian desaparecesse
ou fosse arrastado. Mas no, o departamento de polcia de Rosewood no poderia parecer
to incompetente... Por isso, os policiais tinham que fazer Hanna e suas amigas parecerem
loucas. E durante todo esse tempo, ela acreditara que Wilden estava do lado dela.
         Hanna se afastou da televiso, querendo esquecer aquilo tudo. E foi a que algo atrs do
pote de canela chamou sua ateno. Parecia... tecido. E tinha exatamente a mesma cor da
bandeira de Rosewood Day.
         Hanna engoliu em seco, tirou o tecido l de trs, esticou-o e arquejou. Era um pedao de
pano, um quadrado. A ponta do braso de Rosewood Day estava no canto superior direito. Preso
na parte de trs, havia um pedao de papel com o nmero 16 escrito nele. Rosewood Day
sempre numerava cada parte para que eles pudessem refazer a bandeira costurando de volta
todos os pedaos.
         -- O que  isto? -- perguntou algum.
         Hanna saltou, surpresa. Kate havia se esgueirado por trs dela. Hanna levou um segundo
para reagir, sua mente ainda desnorteada com a notcia de Ian.
         --  um negcio daquele jogo idiota -- murmurou ela.
         Kate fez uma careta.
         -- O jogo que comeou hoje? Tnel do Tempo?
         Hanna revirou os olhos com desdm.
         -- Cpsula do Tempo.
         Kate tomou um longo gole de seu ch de hortel.
         -- "Quando todas as vinte partes da bandeira forem encontradas, sero costuradas e a
bandeira ser enterrada na Cpsula do Tempo atrs do campo de futebol" -- recitou, lendo em
um dos psteres pendurados por toda a escola. Deixe que a certinha da Kate memorize as regras
da Cpsula do Tempo, como se fosse responder a um questionrio depois. -- E voc ainda ter
seu nome imortalizado em uma placa de bronze.  uma coisa legal, no ?
         -- Sei l -- murmurou Hanna. A vida tinha um senso de humor cruel: quando ela no
se importava mais com a Cpsula do Tempo, encontrava um pedao da bandeira sem fazer
esforo, sem sequer ler as pistas postadas no saguo da escola.
         No sexto ano, o primeiro ano em que tivera autorizao para participar, Hanna
fantasiara sobre como decoraria seu pedao da bandeira se tivesse sorte o bastante para
encontrar um deles. Algumas pessoas desenhavam coisas sem sentido em suas peas, como uma
flor ou um rosto sorrindo ou -- o mais ridculo de todos -- o braso de Rosewood Day, mas
Hanna achava que uma bandeira da Cpsula do Tempo bem decorada era to importante quanto
carregar a bolsa certa ou fazer luzes no salo Henri Flaubert, no Shopping King James.
         Quando Hanna, Spencer e as outras garotas encararam Ali no quintal no dia seguinte ao
incio do jogo, Ali descrevera em detalhes o que havia desenhado em sua pea roubada. Um
logo da Chanel.As letras da Louis Vuitton. Um sapo de mang. Uma menina jogando hquei.
Assim que Hanna chegou em casa naquele dia, anotou tudo o que Ali disse que tinha usado para
decorar seu pedao de bandeira, para no esquecer. Parecia to elegante, exatamente adequado.
         Depois, no oitavo ano, Hanna e Mona encontraram uma pea da Cpsula do Tempo
juntas. Hanna quis acrescentar os elementos de Ali ao desenho, nus ficou com medo de que
Mona pudesse perguntar o que eles significavam -- ela odiava trazer Ali  tona, j que Mona
havia sido uma das garotas que Ali adorava humilhar. Hanna pensava estar sendo uma boa
amiga. Nem imaginava que Mona estava tramando um jeito de arruinar a sua vida.
         Naomi e Riley se aproximaram e imediatamente notaram a bandeira de Hanna. Os olhos
castanhos de Riley ficaram atnitos. Ela esticou um brao plido e flcido para tocar a pea,
mas Hanna puxou-a para si, protegendo seu pedao de bandeira. Era bem capaz que uma
daquelas vagabundinhas tentasse roubar a bandeira de Hanna quando ela no estivesse olhando.
De repente, ela entendeu o que Ali quis dizer quando falou a Ian que ia defender seu pedao de
bandeira com a prpria vida. E compreendeu, tambm, por que Ali havia ficado furiosa no dia
em que algum a roubara dela. Ficara com raiva, mas no exatamente arrasada. Na verdade, Ali
estivera mais distrada naquele dia do que jamais estivera. Hanna lembrou com detalhes como
Ali no parava de olhar na direo da floresta e para a casa dela, como se achasse que algum
estava ouvindo. Mas depois de lamentar por um tempo sua pea perdida, Ali de repente voltou a
ser indiferente e m como sempre, afastando-se de Hanna e das meninas sem dizer uma palavra,
como se houvesse algo mais importante em sua cabea do que falar com quatro perdedoras.
         Quando ficou claro que Ali no sairia de casa outra vez, Hanna andou at o jardim da
frente e pegou sua bicicleta. A rua de Ali parecia to agradvel. Os Cavanaugh tinham uma casa
da rvore vermelha muito fofa em seu jardim lateral. A famlia de Spencer tinha um moinho nos
fundos da propriedade. Havia uma casa no fim daquela rua que possua uma garagem gigantesca
para seis carros e uma fonte de gua no jardim da frente. Depois, Hanna descobriria que aquela
era a casa de Mona.
         Enquanto se ajeitava na bicicleta, Hanna ouviu um carro sendo ligado. Um carro preto,
antigo e bem cuidado, com vidros escuros, se moveu devagar, fazendo barulho como se esti-
vesse esperando... ou observando. Havia alguma coisa naquele carro que fez com que o cabelo
da nuca de Hanna se arrepiasse. Talvez o ladro do pedao da bandeira de Ali esteja nesse
caro, ela pensou. No que tivesse descoberto depois quem era.
         Hanna olhou para Naomi, que estava colocando Splenda em seu ch de hortel. Naomi e
Riley eram as melhores amigas de Ali no sexto ano, mas logo depois que a Cpsula do Tempo
comeou, Ali as dispensou. Ela nunca explicou a razo. Talvez Naomi e Riley tivessem sido as
pessoas que roubaram a pea de Ali -- talvez elas estivessem dentro do carro preto que Hanna
tinha visto naquele dia. E esse poderia ser o motivo pelo qual Ali as dispensara -- talvez Ali
tivesse pedido que devolvessem a bandeira, e quando elas alegaram que no tinham roubado
nada, ela as dispensara.
         Mas se foi isso o que aconteceu, por que Naomi e Riley no tomaram a bandeira como
delas? Por que a bandeira ficou perdida?
         Houve uma movimentao na frente do Steam, e a multido se dividiu. Oito garotos do
time de lacrosse de Rosewood Day apareceram. Eles formavam um grupo arrogante, insolente e
que parecia muito confiante. Mike Montgomery estava ladeado por Noel Kahn e James Freed.
Riley sacudiu o brao de Kate, e as pulseiras de ouro no pulso de Kate fizeram barulho.
         -- L est ele!
         --Voc super devia ir l falar com ele -- murmurou Naomi, seus olhos azuis
arregalados.
         Ento as trs se levantaram e saram. Naomi deu uma olhada para Noel. Riley balanou
seu longo cabelo ruivo na direo de Mason. Agora que os meninos do time de lacrosse estavam
liberados, o cu era o limite.
         -- Rosewood Day fica toda cheia de coisa com pessoas desenhando coisas imprprias
na bandeira da Cpsula do Tempo -- Mike estava dizendo para seus amigos. -- Mas se o time
de lacrosse encontrasse todas as peas e fizesse um desenho imprprio enorme de, por exemplo,
um pnis, o diretor Appleton no poderia fazer nada. Ele nem saberia que  um pnis at expor
a bandeira na cerimnia.
         Noel Kahn bateu nas costas de Mike.
         -- Legal. Eu mal posso esperar para ver a cara de Appleton.
         Mike imitou o diretor Appleton, que estava envelhecendo, desdobrando a bandeira
recosturada e agitando-a para a escola toda ver.
         -- Agora, o que  isto? -- disse ele com uma voz spera de homem mais velho,
segurando uma lupa invisvel perto dos olhos. -- Isto  o que vocs, seus pequenos vndalos,
chamam de... pnis?
         Kate caiu na gargalhada. Hanna olhou para ela, espantada. No havia a menor
possibilidade de Kate achar que esses idiotas eram minimamente engraados. Mike percebeu
que ela estava rindo e sorriu.
         -- Essa imitao de Appleton est perfeita -- disse Kate.
         Hanna fez uma careta. Como se Kate conhecesse o diretor Appleton. Ela era estudante
de Rosewood Day fazia apenas uma semana.
         --Valeu -- disse Mike, dando uma geral em Kate, observando suas botas e pernas
esguias e erguendo os olhos para seu blazer de Rosewood Day que marcava as formas bem
torneadas de seu corpo. Hanna percebeu, um pouco magoada, que Mike no olhara nenhuma
vez em sua direo.
         -- Eu tambm fao uma boa imitao de Lance, o professor de marcenaria.
         -- Eu adoraria ver um dia desses -- disse Kate.
         Hanna trincou os dentes. Chega. No ia deixar que sua futura meia-irm ficasse de
gracinha com o menino que deveria venerar a ela. Ela marchou at os garotos, empurrou Kate
para o lado e alisou o pedao da bandeira da Cpsula do Tempo que acabara de encontrar.
         -- No consegui deixar de ouvir sua ideia brilhante -- disse Hanna em voz alta. -- Mas
sinto dizer que seu pnis vai ficar incompleto. -- Ela balanou a bandeira sob o nariz de Mike.
         Mike arregalou os olhos. Ele esticou a mo para pegar a bandeira, mas Hanna a afastou.
Mike mordeu o lbio.
         -- Ah, vamos l, Hanna. O que eu preciso fazer para que voc me d esse pedao?
         Hanna tinha que admitir que no faltava presena de esprito naquele menino. A maioria
dos terceiranistas ficava to nervosa com a presena de Hanna que comeava a tremer e
gaguejar. Ela pressionou seu pedao de bandeira contra o peito.
         -- No vou deixar este beb longe da minha vista nem por um segundo.
         -- Tem que haver algo que eu possa fazer por voc -- suplicou Mike. -- Seu dever de
histria? Lavar seus sutis  mo? Acariciar seus mamilos?
         Kate deixou escapar um risinho tolo, tentando voltar ao centro das atenes, mas Hanna
rapidamente pegou o brao de Mike e o empurrou na direo do balco de doces, longe da
multido.
         -- Eu posso dar a voc algo bem melhor do que este pedao de bandeira -- murmurou
ela.
         -- O qu? -- perguntou Mike.
         -- Eu, seu bobo -- disse Hanna de forma galanteadora. --Talvez voc e eu pudssemos
sair um dia desses.
         -- Tudo bem -- disse Mike para Hanna enfaticamente. -- Quando?
         Hanna espiou por sobre o ombro de Mike. Kate estava boquiaberta.
         R!, pensou Hanna, sentindo-se triunfante. Essa foi fcil.
         -- Que tal amanh? -- perguntou ela.
         -- Hum. Meu pai vai dar um ch de beb para a amante dele.
         Mike enfiou as mos no bolso de seu blazer. Hanna se encolheu. Aria havia lhe contado
que seu pai estava saindo com uma aluna dele, mas ela no sabia que o assunto era discutido
com tanta tranquilidade.
         -- Eu cairia fora, mas meu pai me mataria.
         -- Oh, mas eu amo bebs! -- exclamou Hanna, embora meio que os odiasse.
         -- Eu tambm. Amo praticar fazer bebs -- disse Mike, piscando.
         Hanna lutou contra a vontade de revirar os olhos, achando aquilo uma grande bobagem.
Srio, o que Kate via nele? Ela espiou de novo por sobre o ombro de Mike. Agora, Kate, Naomi
e Riley estavam sussurrando com Noel e Mason. Eles provavelmente estavam tramando um
jeito de pegar o pedao da bandeira de Hanna e tir-la da jogada, mas ela no cairia em truque
nenhum.
         -- Bom, se voc realmente quiser ir, timo -- disse Mike, e Hanna se virou para ele. --
Me d o nmero do seu celular e eu mando uma mensagem com os detalhes. Mas se voc for,
saiba que Meredith  ecologicamente correta. Assim, tipo, no compre fraldas descartveis para
ela. E no compre uma bomba de tirar leite, porque j cuidei disso. -- Ele cruzou os braos,
como se estivesse terrivelmente satisfeito com sua ideia.
         -- Entendi -- disse Hanna. Ela deu um passo  frente, at ficar apenas a alguns
centmetros de distncia da boca de Mike. Ele tinha aquele cheiro de garoto suado, depois de
passar a manh na academia. Surpreendentemente, era um pouco sexy. -- Eu vejo voc amanh
-- sussurrou, seus lbios tocando a bochecha dele.
         -- Claro -- suspirou Mike.
         Ele andou de volta at Noel e Mason, que estavam olhando, e fez aquele movimento
com os ombros que os garotos do lacrosse adoravam.
         Hanna estava satisfeita. Misso cumprida. Quando ela virou, Kate estava de p logo
atrs dela.
         -- Oh! -- Hanna sorriu. -- Oi, Kate! Desculpe, eu tinha que perguntar um negcio ao
Mike.
         Kate cruzou os braos.
         -- Hanna! Eu falei para voc que queria ficar com ele.
         Hanna teve vontade de rir do tom de voz magoado de Kate. A Pequena Senhorita
Perfeio nunca lutara por um cara antes?
         -- Hummm -- respondeu Hanna. -- Parece que ele gosta de mim.
         Os olhos plidos de Kate escureceram. Uma expresso serena surgiu em seu rosto.
         -- Bom, eu acho que vamos ter que ver isso -- disse ela.
         -- Eu acho que sim -- cantarolou Hanna, com a voz gelada.
         Elas encararam uma  outra. O som dos alto-falantes do Steam mudaram de uma msica
emo-punk para uma pulsante batida dance africana. Hanna achou que a msica parecia com algo
que uma tribo poderia cantar antes de sair para a batalha. Vamos ver quem  a melhor, sua vaca,
ela gesticulou para Kate. Em seguida, graciosamente, colocou a bolsa sobre o peito e passou por
sua futura meia-irm, seguindo em direo ao corredor principal, balanando os dedos para se
despedir de Mike, Noel e os outros. Mas quando ela estava passando pelo refeitrio, escutou
uma gargalhada escandalosa ecoando nos corredores. Ela parou, arrepiada. A risada no vinha
do Steam, e sim do refeitrio.
         Todas as mesas estavam cheias. Com o canto dos olhos, Hanna viu um vulto atrs da
mquina de pretzel escapar pela porta dos fundos. Era o vulto de algum alto e esbelto, e tinha
cabelo louro encaracolado. O corao de Hanna parou.
         Ian?
         Ah, no. Ian estava morto. A pessoa que tinha enviado as mensagens para os pais dele
nesta manh era uma impostora. Afastando esse pensamento da mente, Hanna colocou seu
blazer sobre os ombros, terminou de beber seu latte e seguiu pelo corredor, tentando ao mximo
agir como a garota destemida, maravilhosa e imperturbvel que ela era.
                                             8
                               SE AS BONECAS FALASSEM...
Assim que Emily terminou o treino de natao na tarde de tera-feira, dirigiu para a casa de
Isaac e estacionou no meio-fio. Isaac abriu a porta da frente, abraou Emily com fora e cheirou
o cabelo dela.
         -- Hummm. Eu adoro quando voc est com cheiro de cloro.
         Emily sorriu. Apesar de lavar duas vezes o cabelo nos chuveiros do vestirio depois do
treino, o inconfundvel cheiro da piscina se impregnava nele.
         Isaac deu um passo para o lado e Emily entrou. A sala cheirava a pot-pourri de ma e
pera. Sobre a lareira, havia uma fotografia que mostrava Isaac, sua me e Minnie Mouse na
Disney. O sof coral estava coberto de almofadas bordadas pela sra. Colbert com mensagens
como Abraar  Saudvel e A Orao Muda Tudo.
         Isaac ajudou Emily a tirar o casaco, primeiro uma manga, depois a outra.
         Quando ele se virou para abrir a porta do armrio, ela ouviu um rangido vindo do
vestbulo. Emily arregalou os olhos e ficou paralisada. Isaac se virou para ela e tocou sua mo.
         -- Por que voc est to assustada? A imprensa no est aqui, juro.
         Emily passou a lngua sobre os lbios. A imprensa vinha correndo sem trgua atrs dela
e de suas amigas e, mais cedo, ela escutara a ltima: que a famlia de Ian Thomas havia recebido
um e-mail dele, e que Emily e as outras garotas inventaram ter visto o corpo de Ian na floresta.
Aquilo obviamente no era verdade. Mas o que era? Para onde Ian tinha ido? Ele estava
realmente vivo... ou algum queria que todos pensassem que estava? Alm disso, Emily no
conseguia parar de pensar no incidente com Jason DiLaurentis na noite de domingo. Ela no
tinha ideia do que teria feito se Isaac no estivesse com ela. Toda vez que considerava a
possibilidade de encarar Jason sozinha, Emily tremia de medo.
         -- Desculpe -- disse ela para Isaac, tentando disfarar. -- Estou bem.
         -- Que bom -- disse Isaac. Ele pegou a mo dela. -- J que temos a casa para ns,
pensei em mostrar meu quarto a voc.
         --Voc tem certeza? -- Emily olhou para a foto de Isaac, sua me e Minnie Mouse
outra vez.
         A sra. Colbert tinha uma poltica de jamais permitir que Isaac levasse meninas para o
quarto.
         -- Claro que tenho certeza -- respondeu Isaac. -- Minha me no vai saber.
         Emily sorriu. A verdade  que ela estava curiosa a respeito do quarto dele. -- Isaac
apertou a mo dela e a levou para o andar de cima. Cada degrau da escada era decorado com
uma boneca diferente. Algumas delas eram bonecas de pano com cabelos de linha de croch e
vestidos de chita, e outras eram bonecas-bebs, com cabeas de borracha e olhos que fechavam
quando estavam deitadas. Emily desviou os olhos delas. Ela nunca fora de brincar com bonecas
como as outras meninas -- elas sempre meio que a assustaram.
         Isaac empurrou uma porta no fim do corredor.
         -- Voil!
         Emily viu um quarto, com uma coberta listrada sobre a cama de casal no canto, trs
guitarras em descansos, e uma pequena mesa com um iMac novo.
        -- Muito legal! -- disse Emily.
        Depois, ela percebeu um objeto branco grande sobre a cmoda.
        -- Voc tem um crnio com um mapa frenolgico! -- Ela andou at a escultura em
formato de crnio e passou os dedos sobre as palavras que estavam escritas na superfcie.
Astcia. Adivinhao. Avareza. Os mdicos da era vitoriana acreditavam que poderiam
determinar o carter de uma pessoa simplesmente pela forma do crnio. Se a pessoa tivesse um
caroo em um canto especfico da cabea, seria boa em poesia. Se o caroo estivesse em outro
lugar, seria muito religiosa. Emily pensou no que as protuberncias de sua cabea diriam a seu
respeito.
        Ela sorriu para Isaac.
        -- Onde voc conseguiu isto?
        Isaac andou at ela.
        -- Lembra a tia que mencionei quando fomos ao restaurante de comida chinesa, semana
passada? A que gosta de horscopo e coisas do gnero? Ela comprou para mim em uma feira.
-- Ele tocou em um canto da cabea de Emily.--Ah...Voc tem muitas protuberncias. -- Ele
olhou para a escultura. -- De acordo com ela, voc  realmente boa em dar afeto... ou voc faz
os outros quererem dar afeto a voc. Eu nunca consigo lembrar qual .
        -- Muito cientfico -- provocou Emily. Ela tocou o topo da cabea dele, buscando uma
protuberncia. -- E voc ... -- Ela se inclinou para trs, procurando na cabea do manequim a
caracterstica certa. O ladro. O mmico. O assassino. O departamento de polcia de Rosewood
precisava de uma dessas cabeas... Eles poderiam massagear todos os crnios da cidade e
descobrir o assassino de Ali. --Voc  esperto -- concluiu ela.
        -- Voc  bonita -- disse Isaac. Devagar, ele a conduziu at a cama e a deitou. Emily
estava sem ar e com calor. Ela no havia pensado em deitar na cama de Isaac, mas no quis
levantar.
        Os dois se beijaram por mais algum tempo, escorregando at alcanarem os
travesseiros. Emily colocou sua mo sob a camisa de Isaac para sentir o calor de seu peito nu.
Depois sorriu, admirada com seu comportamento.
        -- O que foi? -- perguntou Isaac, enquanto se afastava um pouco dela. --Voc quer
parar?
        Emily baixou os olhos. A verdade era que quando ela estava perto de Isaac, uma calma
se apoderava dela. Todas as suas angstias e preocupaes voavam pela janela. Estando com ele
Emily se sentia salva e segura... e apaixonada.
        -- Eu no quero parar -- sussurrou ela, o corao palpitando. --Voc quer?
        Isaac balanou a cabea. Em seguida, ele tirou a camisa. Sua pele era clara e suave.
Isaac desabotoou a camisa de Emily, um boto por vez, at ela se abrir. O nico som era o de
sua respirao. Isaac tocou a ponta do suti cor-de-rosa de renda de Emily. Desde que ele tirara
seu suti dois dias antes no carro, ela sempre usava sutis bonitos para ir  escola. Calcinhas
legais tambm, no os shorts confortveis de menino que costumava usar. Talvez Emily no
admitisse nem para ela mesma, mas talvez, s talvez, aquilo fosse exatamente o que ela queria
que acontecesse.
Quando o relgio digital da mesa de cabeceira de Isaac passou de 5:59 para 6:00, Emily
levantou e se enrolou com os lenis de flanela. As luzes de cima a baixo no quarteiro de Isaac
estavam acesas agora, e uma mulher na rua estava chamando seus filhos no jardim da frente
para entrar e jantar.
        -- Eu deveria ir embora -- disse Emily, beijando Isaac mais uma vez.
        Os dois sorriram.
        Isaac a colocou de volta na cama e comeou a beij-la outra vez. Finalmente, eles se
levantaram, olhando um para o outro enquanto se vestiam. Muito havia acontecido... mas Emily
se sentia segura a respeito disso. Isaac fora deliciosamente lento, beijando cada centmetro de
seu corpo, admitindo que tambm era a sua primeira vez.
        No poderia ter sido mais perfeito.
         Eles comearam a descer as escadas, ajeitando as roupas. No meio do caminho, Emily
ouviu algum tossir. Os dois congelaram. Emily olhou para Isaac, assustada. No estava
previsto que os pais de Isaac estivessem de volta antes das sete. Um estalido veio da direo da
cozinha. Um chaveiro retiniu, depois caiu em um vaso de cermica.
         O estmago de Emily pareceu afundar. Ela olhou para as bonecas com olhos de vidro e
mudas, acomodadas nos degraus. Elas pareciam estar sorrindo para ela com desprezo.
         Emily e Isaac desceram as escadas correndo e se jogaram no sof. Assim que seus
traseiros se encostaram s almofadas a sra. Colbert entrou na sala. Vestia uma saia comprida de
1 e um suter branco de tric. Devido  forma com que a luz refletia em seus culos, Emily
no conseguia distinguir para onde ela estava olhando. Havia um olhar inflexvel e
desaprovador em seu rosto. Por um segundo agonizante, Emily temeu que a sra. Colbert tivesse
escutado tudo o que havia acontecido. Depois, ela se virou e colocou a mo sobre o corao.
         -- Crianas! Eu no vi vocs a!
         Isaac saltou, derrubando de um jeito estranho a pilha de lbuns de fotografia sobre a
mesa de centro.
         -- Me, voc se lembra da Emily; no ?
         Emily ficou de p, esperanosa de que seu cabelo no estivesse uma baguna completa
e que ela no tivesse um chupo no pescoo.
         -- O-oi -- gaguejou ela. -- Prazer em v-la novamente.
         -- Ol, Emily. -- Havia um sorriso agradvel no rosto da sra. Colbert, mas o corao de
Emily continuava disparado. Ela estava realmente surpresa de v-los ou estava s esperando
Emily ir embora para gritar com Isaac?
         Ela olhou para Isaac, que parecia incomodado. Ele ajeitou o cabelo bagunado.
         -- Ah, Emily, voc quer ficar para jantar? -- perguntou Isaac. -- Est tudo bem, no ,
me?
         A sra. Colbert hesitou, apertando os lbios com tanta fora que sua boca praticamente
desapareceu.
         -- Eu... H, eu no deveria -- gaguejou Emily, antes que a sra. Colbert pudesse
responder. -- Minha me est me esperando em casa.
         A sra. Colbert suspirou. Emily podia jurar que ela parecia aliviada.
         -- Bem, talvez outra hora -- disse ela.
         -- Que tal amanh? -- pressionou Isaac.
         Emily olhou para Isaac incomodada, desejando que ele esquecesse essa histria de
jantar. Mas a sra. Colbert esfregou as mos e disse:
         -- Amanh seria timo. Quarta-feira  dia de carne assada.
         -- H, bom, tudo bem -- respondeu Emily. -- Eu acho que posso vir. Obrigada.
         -- timo. -- A sra. Colbert deu um sorriso. -- Traga seu apetite!
         Ela voltou para a cozinha.
         Emily afundou de volta no sof e cobriu o rosto com as mos.
         -- Me mate agora -- sussurrou ela.
         Isaac tocou o brao dela.
         -- Ns estamos salvos. Ela no sabe que estvamos l em cima.
         Mas quando Emily olhou pela porta em arco da cozinha, viu a me de Isaac de p em
frente  pia, lavando a loua do caf da manh. Ainda que suas mos continuassem a esfregar
freneticamente os pratos, os olhos escuros da sra. Colbert no desgrudavam deles. Seus lbios
estavam enrugados, seu rosto vermelho e as veias do pescoo estavam inchadas de raiva. Emily
se encolheu, apavorada.
         A sra. Colbert percebeu que Emily estava observando, mas sua expresso no se alterou.
Ela olhava para Emily sem piscar, como se soubesse exatamente o que Isaac havia feito.
         E talvez, at mesmo culpando Emily -- e apenas Emily -- pelo que havia acontecido.
                                              9
                             SURPRESA! ELE AINDA EST AQUI...
Enquanto o sol mergulhava no horizonte, fazendo toda a cidade de Rosewood escurecer,
Spencer olhava, pela janela de seu quarto, os carros do departamento de polcia de Rosewood e
as vans dos noticirios deixarem a sua rua. Os policiais haviam suspendido abruptamente a
busca pelo corpo de Ian, sem encontrar nada na floresta. E muitas pessoas aceitaram a teoria de
que as garotas inventaram ter visto o corpo de Ian, permitindo, assim, que ele escapasse de
Rosewood para sempre.
         Quanta bobagem! E parecia impossvel que os policiais no tivessem conseguido
encontrar nenhuma simples evidncia do corpo de Ian na floresta. Tinha que haver algo ali.
Uma pegada, casca de rvore arrancada pela unha de algum.
         A mesa de computador no canto do quarto zumbiu com raiva. Spencer olhou naquela
direo, seus olhos pousando sobre o CD que ela e Andrew haviam carregado no disco rgido de
seu pai no dia anterior. Fora ali que ela o havia deixado, depois que eles terminaram de carregar
na noite passada, dentro de uma capa de papel sobre seu antigo risque-e-rabisque da Tiffany.
Ela ainda no tinha olhado os arquivos, mas aquele seria um timo momento. Foi at sua mesa e
inseriu o CD no computador. Instantaneamente, o computador fez um barulho de flatulncia, e
todos os cones no monitor de Spencer se transformaram em uma interrogao. Ela tentou
reiniciar, mas ele no ligava.
         -- Droga! -- sussurrou ela, retirando o CD. Ela tinha backups de tudo em seu disco
rgido, como seus antigos trabalhos de escola, milhes de fotos e vdeos, e de seu dirio, que ela
escrevia desde antes de Ali desaparecer. Mas, sem um computador que funcionasse direito, ela
no conseguiria mexer nos arquivos do pai para procurar evidncias.
         Uma porta bateu no andar de baixo. Ela ouviu a voz abafada do pai falando com algum
e depois a da me. Spencer tirou os olhos da tela, seu estmago borbulhando. Ela no falava
direito com eles desde que todos haviam voltado do funeral de Nana. Spencer olhou para o
computador outra vez, depois se levantou e desceu. O ar tinha cheiro de queijo brie assado que
os pais sempre compravam na delicatssen Fresh Fields, e os dois labradoodles da famlia,
Rufus e Beatrice, estavam descansando no grande tapete redondo perto da mesa de caf da
manh. A irm de Spencer, Melissa, estava zanzando pela cozinha tambm, amontoando em
uma bolsa de compra as revistas de design e os livros que ela havia espalhado pelo aposento. A
me de Spencer vasculhava a gaveta onde guardava as agendas e papeizinhos soltos com os
nmeros de telefone das vrias pessoas que ajudavam na manuteno da casa -- jardineiros, pe-
dreiros, eletricistas. O sr. Hastings estava indo da cozinha para a sala de jantar, com seu telefone
no ouvido.
         -- H... Meu computador est com vrus -- disse Spencer.
         Seu pai parou de andar. Melissa olhou para cima. Sua me se assustou e virou de costas.
Ela estava sria.Voltou para a gaveta.
         -- Me...? -- Spencer tentou mais uma vez. -- Meu computador. Ele no est
funcionando.
         A sra. Hastings no se virou para encarar Spencer.
         --E...?
         Spencer passou os dedos pelo enfeite de flores levemente murchas no balco at
perceber onde as havia visto pela ltima vez -- no caixo da av. Ela rapidamente afastou as
mos.
         -- Bem, preciso dele para fazer meus deveres. Posso ligar para o Geek Squad?
         Sua me por fim se virou e examinou Spencer por alguns longos instantes. Quando
Spencer olhou de volta, perdida, a sra. Hastings comeou a rir.
         -- O que foi? -- perguntou Spencer, confusa. Beatrice ergueu a cabea, depois abaixou
outra vez.
         -- Por que eu deveria pagar para algum vir consertar seu computador quando o que
deveria  fazer com que voc pague pelo que aconteceu com a garagem? -- ralhou a sra.
Hastings.
         Spencer piscou.
         --A... garagem?
         Sua me bufou.
         -- No me diga que voc no viu.
         Spencer olhou de um lado para o outro, para o pai e a me, sem entender. Em seguida,
correu at a porta da frente e, ainda de meias, foi ao jardim, embora estivesse frio e o cho
encharcado. Uma luz havia sido acesa na garagem. Quando Spencer viu o que havia acontecido
ali, levou a mo  boca.
         Ocupando os dois portes da garagem, com tinta vermelho-sangue, estava escrita a
palavra ASSASSINA.
         Aquilo no estava ali quando ela voltou da escola. Spencer olhou ao redor, com a ntida
sensao de que algum estava observando da floresta. Um galho de rvore acabara de se me-
xer? Algum se agachara atrs de um arbusto? Seria... A?
         Ela olhou para a me, que havia marchado at ela e estava ao seu lado.
         --Voc ligou para a polcia?
         A sra. Hastings soltou mais uma gargalhada.
         --Voc acha que a polcia realmente quer falar conosco agora? Voc acha que eles vo
se importar com o que algum fez com a nossa casa?
         Spencer arregalou os olhos.
         -- Espere, voc acredita no que os policiais disseram?
         A me de Spencer soluou.
         -- Ns duas sabemos que nunca houve nada naquela floresta.
         O mundo comeou a girar. A boca de Spencer ficou seca.
         -- Me, eu vi Ian. Eu realmente vi.
         O rosto da sra. Hastings estava a centmetros do rosto de Spencer.
         --Voc sabe o quanto vai custar para refazer esses portes? Eles so rarssimos, foram
comprados em um mercado de pulgas que funcionava num celeiro antigo em Maine.
         Os olhos de Spencer se encheram de lgrimas.
         -- Me desculpe por ser um estorvo to grande.
         Ela deu as costas para a me, marchou at a varanda e subiu as escadas sem se
incomodar em limpar suas meias enlameadas no capacho. Seus olhos ardiam com as lgrimas
quentes quando ela subiu e escancarou a porta do seu quarto. Por que a surpreendia o fato de sua
me estar do lado dos policiais? Por que ela deveria ter esperado algo diferente?
         -- Spence?
         Melissa enfiou o rosto dentro do quarto. Ela estava vestindo um twinset de caxemira
amarelo-claro e jeans de corte reto. Seu cabelo estava preso com um lao de veludo e seus olhos
pareciam cansados e inchados, como se estivesse chorando.
         --V embora -- murmurou Spencer.
         Melissa suspirou:
         -- Eu s queria dizer que voc pode usar meu laptop antigo, se precisar. Est no celeiro.
Eu tenho um computador novo no meu apartamento. Estou mudando para l esta noite.
         Spencer virou levemente, franzindo a testa:
         -- A reforma j acabou?
         A reforma do apartamento de Melissa na Filadlfia parecia no ter fim. Toda hora ela
pedia um detalhe novo. Melissa estava com os olhos fixos no tapete creme que se estendia pelo
cho do quarto de Spencer.
         -- Eu tenho que sair daqui. -- A voz dela falhou.
         -- Est tudo... bem? -- perguntou Spencer.
         Melissa puxou as mangas sobre as mos.
         -- Sim. Bem.
         Spencer se ajeitou em seu lugar. Ela havia tentado falar com Melissa a respeito do corpo
de Ian, durante o funeral da av no domingo, mas Melissa a evitara. Ela queria saber o que a
irm achava sobre aquilo tudo. Quando Ian foi liberado para priso domiciliar, Melissa parecera
solidria a ele. Ela at tentara convencer Spencer da inocncia de Ian. Talvez, como a polcia,
ela acreditasse que o corpo dele nunca tivesse aparecido na floresta. Seria a cara de Melissa
acreditar em um monte de policiais possivelmente trapaceiros em vez de na sua irm, tudo
porque ela no queria aceitar que seu amado pudesse estar morto.
         -- Srio, estou bem -- disse Melissa, como se pudesse ler os pensamentos de Spencer.
-- Eu s no quero ficar aqui se vai haver grupos de busca e vans de noticirios rondando a
nossa casa.
         -- Mas os policiais no esto mais procurando nada por aqui -- disse Spencer. -- Eles
acabaram de suspender as buscas.
         Um olhar surpreso cruzou o rosto de Melissa. Depois ela deu de ombros e saiu sem
responder. Spencer ouviu enquanto ela descia a escada.
         A porta da frente bateu e Spencer conseguiu ouvir a sra. Hastings murmurando baixinho
e gentilmente com Melissa no saguo. Sua filha verdadeira. Spencer fez uma careta, juntou seus
livros, vestiu o casaco e as botas, e andou at a porta dos fundos na direo do celeiro. Quando
cruzou o jardim grande e gelado, percebeu algo  esquerda e parou. Algum havia escrito com
spray MENTIROSA no moinho de vento, com a mesma tinta vermelha do grafite na garagem.
Uma gota de tinta vermelha escorria do M at a grama congelada no cho. Parecia que a parede
estava sangrando.
         Spencer olhou de volta para a casa, pensando, depois pressionou os livros contra o peito
e se apressou. Seus pais logo veriam isso. Ela certamente no queria ser a pessoa a dar a notcia.
Melissa havia deixado o galpo apressadamente. Havia uma garrafa de vinho pela metade no
balco e um copo com gua que, dessa vez, pelo jeito, sua irm supercertinha no tinha lavado,
enxugado e guardado. Muitas de suas roupas ainda estavam no armrio, e havia um livro grande
chamado Os princpios de fuso e aquisio jogado sobre a cama, com um marcador de livro da
Universidade da Pensilvnia preso entre as pginas.
        Spencer colocou sua sacola Mulberry creme no sof de couro marrom, pegou o CD com
os arquivos de seu pai na parte da frente, sentou  mesa de Melissa e inseriu o CD no disco
rgido do laptop da irm. O disco levou um tempo para carregar, e Spencer resolveu checar seus
e-mails enquanto esperava. No topo de sua caixa de entrada havia uma mensagem de Olivia
Caldwell. Sua possvel me. Spencer colocou a mo na boca e abriu a mensagem. Era um link
para uma passagem pr-paga para o trem-bala da Amtrak Acela, o trem para a cidade de Nova
York. A mensagem dizia:
        Spencer, estou emocionada por voc ter concordado em
        me conhecer!
        Voc pode vir a Nova York amanh  noite?
        Ns temos muito sobre o que conversar.
        Com muito amor, Olivia.
       Ela espiou a casa principal da janela do celeiro, incerta do que deveria fazer. As luzes na
cozinha ainda estavam acesas, e sua me passava da geladeira para a mesa, conversando com
Melissa. Apesar de ter ficado muito brava momentos antes, sua me agora sorria de forma doce
e reconfortante. Quando havia sido a ltima vez que sorrira daquele jeito para Spencer? Os
olhos de Spencer se encheram de lgrimas. Ela tentara agradar aos pais desde... ah, desde
sempre. E... para qu? Ela voltou os olhos para o computador. A passagem estava marcada para
as quatro da tarde do dia seguinte.
        Parece timo, escreveu ela de volta. Vejo voc em breve.
        Ela apertou enviar.
        Quase imediatamente, o computador emitiu um som, bloop. Spencer fechou a caixa de
entrada e verificou se o CD tinha acabado de carregar, mas o programa ainda estava rodando.
Em seguida, ela notou uma janela piscando. O programa de mensagem instantnea de Melissa
havia iniciado automaticamente quando Spencer ligou o computador.
        Ei, Mel, dizia uma nova mensagem. Voc est a?
        Spencer estava pronta para escrever, Desculpe, no  a Melissa, quando uma segunda
mensagem entrou.
       Sou eu. Ian.
      O estmago de Spencer deu um n. Certo. Quem quer que tivesse escrito isso no tinha
um bom senso de humor. Outro bloop.
       Voc est a?
        Spencer olhou para o nome incomum na tela do MSN. USCMidfielderRoxx. Ian havia
ido para USC, e jogava como meio-campo no futebol. Mas isso no queria dizer nada. Certo?
Os bloops continuavam chegando.
       Desculpe por ter ido embora sem falar com voc... Mas
       eles me odiavam. Voc sabe disso. Eles descobriram que
       eu sei. Entende por que eu tive que fugir? Eles me odia-
       vam. Voc sabe disso.
        As mos de Spencer comearam a tremer. Algum estava brincando com ela, do mesmo
jeito que eles haviam brincado com os pais de Ian. Ian no podia fugir. Ele estava morto. Mas
por que no havia nenhum vestgio de seus restos mortais na floresta? Por que os policias no
haviam encontrado nada?
        Spencer passou os dedos sobre as teclas.
        Prove que  realmente voc, ela digitou, sem se incomodar em explicar que no era
Melissa. Fechou os olhos, tentando pensar em algo pessoal. Algo que Melissa e Spencer
saberiam. Algo que no estivesse tambm no dirio de Ali. A imprensa havia mostrado tudo o
que Ali havia escrito em seu dirio sobre Ian, por exemplo, como eles tinham ficado juntos
depois do jogo de futebol no outono do stimo ano, como Ian havia estudado de maneira insana
para o SAT, depois de tomar Ritalina que um amigo havia lhe dado, e que ele no tinha certeza
se merecia ser nomeado o melhor jogador do time de futebol de Rosewood Day -- o irmo de
Ali, Jason, era muito mais talentoso. Quem estava fingindo ser Ian saberia disso. Se ao menos
ela pudesse pensar em algo que fosse um segredo. Foi quando conseguiu se lembrar de algo
perfeito. Algo que ela tinha certeza de que nem Ali sabia.
        Ela perguntou:
        Qual  o seu nome do meio?
        Houve uma pausa. Spencer se inclinou para trs, esperando. Quando Melissa estava no
ltimo ano do ensino mdio, ela havia ficado bbada de eggnog no Natal, e confessado que os
pais de Ian queriam que ele fosse menina. Quando a sra. Thomas teve um menino, decidiu que
seu nome do meio seria o que eles haviam escolhido para ele, se fosse menina. Ian nunca,
jamais usava aquele nome. Nos antigos anurios de Rosewood Day que Melissa havia folheado
quando era a editora do Livro do Ano, ele no havia colocado nem a inicial do nome do meio.
        Houve um bloop.
        Elizabeth.
        Spencer piscou com fora. No era possvel. A luz na cozinha da casa principal apagou
e o quintal ficou escuro. Lentamente, um carro fez a volta no fim da rua sem sada, fazendo um
barulho de chiado sobre o asfalto molhado. Spencer comeou a ouvir barulhos. Um suspiro. Um
ronco. Uma risada. Ela deu um salto e pressionou a testa na vidraa fria. A varanda estava vazia.
No havia sombras perto da piscina, na banheira de hidromassagem ou no deque. No havia
ningum rastejando para perto do moinho, ainda que a palavra MENTIROSA recm-pintada
parecesse brilhar.
        Seu Sidekick vibrou. Spencer se assustou, o corao disparado. Ela olhou para o
computador outra vez. Ian havia sado do programa de mensagem instantnea.
        Uma nova mensagem.
        Com as mos trmulas, Spencer pressionou Ler.
        Querida Spence, quando eu disse a voc que ele tinha
        que ir, eu no quis dizer que ele tinha que morrer.
        Ainda assim, realmente falta alguma coisa neste caso... e
        depende de voc descobrir o que .
        Por isso,  melhor comear a procurar, ou o prximo "de-
        saparecido" ser voc.
        Au revoir!  A
                                          10
                               FALTA ALGUMA COISA... SEM
                                  SOMBRA DE DVIDA
Na manh seguinte, Emily cobriu a cabea com o capuz de sua parca azul-clara, enquanto
caminhava pela passagem coberta de gelo at os balanos da Escola Elementar de Rosewood
Day, o lugar de encontro dela e de suas amigas. Pela primeira vez em toda a semana, a rua
estava livre das vans dos noticirios. J que todo mundo agora achava que Emily e as outras
meninas haviam inventado ter visto o corpo de Ian na floresta, a imprensa no tinha motivos
para entrevistar os alunos. No ptio, as amigas de Emily estavam reunidas ao redor de Spencer,
olhando para uma folha de papel e para o celular dela. Na noite anterior, Spencer ligara para
Emily para contar sobre as mensagens que recebera de Ian pela internet e que A mandara uma
mensagem. Depois disso, Emily no conseguiu dormir um segundo. Quer dizer que A estava de
volta. E Ian... talvez... no estivesse morto.
         Algo duro atingiu seu ombro e Emily virou, o corao na boca. Era apenas um garoto da
escola elementar que a empurrara em sua corrida na direo do campo. Ela apertou as mos
tentando parar de tremer. Suas mos estavam tremendo loucamente a manh inteira.
         -- Como Ian poderia ter forjado a prpria morte? -- disse Emily assim que se
aproximou das amigas. -- Ns o vimos. Ele estava... azul.
         Hanna, protegida por um casaco branco de l e por uma echarpe de pele falsa, deu de
ombros. A nica cor em seu rosto vinha de suas olheiras. Parecia que ela tambm no dormira
na noite anterior. Aria, usando uma jaqueta de couro cinza e luvas verdes abertas nos dedos,
balanou a cabea sem dizer uma palavra. Ela no estava usando sua costumeira maquiagem
chamativa, cheia de brilhos. Mesmo a sempre arrumadinha Spencer parecia desleixada -- o
cabelo preso em um rabo de cavalo oleoso e embaraado.
         -- Bem, faz sentido -- Spencer grasnou. -- Ian fingiu estar morto e nos chamou at a
floresta porque sabia que iramos at a polcia e contaramos para eles que o vimos.
         Aria afundou em um dos balanos.
         -- Mas por que Ian simplesmente no fugiu? Por que resolveu se mostrar para ns?
         -- Quando os policiais descobriram que ele tinha desaparecido, comearam a procurar
por ele imediatamente -- explicou Spencer. -- Mas depois que vimos o corpo dele, voltaram
toda a ateno para a floresta. Ns os distramos por alguns dias, tempo suficiente para que Ian
fugisse.  provvel que tenhamos feito exatamente o que ele queria. -- Ela olhou para as
nuvens, uma expresso desamparada no rosto.
         Hanna deslocou seu peso para a perna esquerda.
         -- O que voc acha que A quer com isso? A nos atraiu at o bosque para que vssemos
Ian. Os dois esto obviamente agindo juntos.
         -- Essa mensagem deixa bem claro que Ian e A eram cmplices -- disse Spencer,
mostrando o visor de seu celular para elas.
         Emily leu outra vez as duas primeiras linhas. Quando eu disse a voc que ele tinha que
ir, eu no quis dizer que ele tinha que morrer. Ainda assim, realmente falta alguma coisa neste
caso... e depende de voc descobrir o que . Ela mordeu o lbio com fora, depois olhou para o
escorregador em formato de drago atrs dela. H alguns anos, quando algo ou algum a
assustava, ela se escondia dentro da cabea do drago at se sentir melhor. Emily teve uma
vontade enorme de fazer a mesma coisa agora.
         -- Parece que A ajudou Ian a escapar -- Spencer prosseguiu. -- Eles trabalharam
juntos. Quando Ian me encontrou na varanda, semana passada, A ameaou me machucar se eu
falasse qualquer coisa para os policiais. Se eu tivesse contado, eles teriam prendido Ian outra
vez... e ele no conseguiria escapar.
         -- A ficou preocupada que qualquer uma de ns dissesse alguma coisa.
         Emily falou:
         -- Todas as mensagens que eu recebi falavam que se eu no contasse os segredos de A,
A no contaria os meus.
         Hanna olhou para Emily, um sorriso curioso nos lbios.
         -- Essa A sabe algum segredo seu?
         Emily deu de ombros. Por um momento, A provocou Emily sobre ela ter ocultado de
Isaac questes sobre sua sexualidade.
         -- No mais -- disse ela.
         -- E se Ian for A? -- sugeriu Aria. -- Isso ainda faz muito sentido.
         Emily balanou a cabea.
         -- As mensagens no eram de Ian. Os policiais checaram o telefone dele.
         -- S porque as mensagens de A no saam do telefone de Ian, no quer dizer que no
fossem de Ian -- lembrou Hanna. -- Talvez outra pessoa mandasse as mensagens por ele. Ou
ele poderia ter conseguido um telefone descartvel ou um telefone registrado em outro nome.
         Emily colocou os dedos nos lbios. Ela no havia pensado russo.
         -- E todos aqueles truques que fez na noite em que ns supostamente vimos o cadver
dele so bem fceis se voc sabe usar um computador -- prosseguiu Hanna. -- Ian
provavelmente descobriu como retardar o envio das mensagens para que ns as recebssemos
no momento em que vimos o que parecia ser seu corpo morto. Lembram como Mona enviou
para ela mesma um e-mail de A para nos despistar? Provavelmente no  uma coisa to difcil
de fazer.
         Spencer apontou para o trecho da conversa no computador. Ela havia imprimido a troca
de mensagens entre ela e Ian pela internet.
         -- Olhem s! -- disse ela, apontando para as linhas que diziam: Eles me odiavam. Voc
sabe disso. Eles descobriram que eu sei. Entende por que eu tive que fugir? -- Ian saiu do
MSN antes que eu pudesse perguntar quem eram "eles". Mas e se isso for muito maior do que
um simples plano de fuga de Ian? E se Ian realmente descobriu algo importante sobre o
assassinato de Ali? E se ele achou que, se comparecesse ao julgamento e contasse tudo o que
sabia, seria morto? Forjar a prpria morte no tiraria apenas os policiais de seu caminho, como
tambm afastaria qualquer um que quisesse machuc-lo.
         Aria parou de se balanar.
         --Voc acha que quem estava atrs de Ian poderia vir atrs de ns, se descobrssemos
coisas demais?
         --  o que parece -- disse Spencer. -- Mas h outra coisa.
         Ela apontou para algumas linhas de texto no fim da pgina:
         Era o endereo IP do remetente das mensagens instantneas.
         -- Por esses nmeros  possvel saber que Ian mandou as mensagens de algum lugar de
Rosewood.
         -- Rosewood? -- berrou Aria. --Voc quer dizer que ele ainda est... aqui?
         Hanna empalideceu.
         -- Por que Ian ficaria aqui? Por que no deixou a cidade?
         --Talvez ele no tenha encontrado o que procura -- sugeriu Spencer.
         -- Ou talvez ele no tenha terminado conosco... J que ns o entregamos para a polcia
-- disse Aria.
         Emily ouviu um grito atrs dela e deu um pulo. Aos poucos, o playground estava se
enchendo de gente. Quando ela se voltou para as amigas, viu que estavam com os olhos
arregalados e os lbios brancos. Elas tambm tinham se assustado.
         -- Aria tem toda razo -- disse Hanna, retomando a conversa. -- Se Ian estiver vivo,
no sabemos do que  capaz. Ele ainda pode estar atrs de ns. E ainda pode ser culpado.
         -- Eu no sei... -- protestou Spencer.
         Emily encarou Spencer, confusa.
         -- Mas foi voc quem contou aos policiais que era ele o culpado! E a sua recordao de
ver Ian com Ali na noite em que ela morreu?
         Spencer enfiou as mos nos bolsos do casaco.
         -- Eu no tenho certeza se realmente me lembro disso... Ou se foi apenas o que eu
queria acreditar.
         Emily sentiu-se queimando por dentro. Afinal, o que era verdade e o que no era? Ela
olhou em volta. Um grupo de garotos caminhava na direo do prdio do sexto ano. Outros
meninos passavam na frente da longa fila de janelas das salas de aula, encaminhando-se ao
armrio de casacos. Emily se esquecera de que os alunos do sexto ano no tinham armrios
apropriados. Eles tinham que colocar suas coisas em cubculos naquele armrio minsculo. No
meio da manh, o armrio j cheirava mal, por causa das lancheiras com os almoos guardados
ali.
         -- Quando Ian conversou comigo na varanda, ele me contou que ns estvamos
enganadas, que ele no matou Ali -- prosseguiu Spencer. -- Ele no teria feito mal a um fio de
cabelo dela. Ele e Ali sempre flertavam, mas foi ela quem deu um passo alm. Primeiro, Ian
pensou que ela estava fazendo aquilo para irritar algum. Achei que ela queria me atingir,
porque eu meio que gostava dele. Mas Ian no pareceu acreditar nisso. E na noite em que ela
morreu, ele viu duas louras na floresta. Eram Ali e mais algum. Na hora, pensei que ele se
referia a mim. Mas ele disse que talvez fosse outra pessoa.
         Emily suspirou, frustrada.
         -- L vamos ns, mais uma vez, acreditar nas palavras de Ian.
         --  mesmo, Spence. -- Hanna enrugou o nariz. -- Ian matou Ali. Depois nos
enganou. Ns deveramos mostrar a Wilden a conversa de vocs on-line e deixar que ele resolva
essa confuso.
         Spencer bufou:
         -- Wilden? Ele fez um bom trabalho convencendo toda Rosewood que ns somos
loucas. Mesmo que por algum milagre ele acredite em ns desta vez, ningum mais da polcia
acredita.
         -- E os pais de Ian? -- sugeriu Emily. -- Eles tambm receberam uma mensagem dele.
Eles acreditariam em ns.
         Spencer apontou para outra linha na troca de mensagens.
         -- Sim, mas o que conseguiramos fazendo isso? Os pais dele teriam ainda mais provas
de que ele est vivo, mas poderiam contar aos policiais que as mensagens dele foram enviadas
de um endereo IP em Rosewood. E isso faria os policiais rastrearem as mensagens e prenderem
Ian mais uma vez.
         -- O que seria uma coisa boa -- lembrou Emily.
         Spencer olhou para ela, se sentindo exausta.
         -- E se isso for um teste? Imagine que ns contemos toda essa histria aos policiais ou
aos pais de Ian... e algo acontea com uma de ns? Ou ainda, com Melissa? Ian achou que
estava escrevendo para ela, afinal. -- Ela esfregou as mos enluvadas uma na outra. -- Melissa
e eu no nos damos bem, mas eu no a colocaria em perigo.
         Aria saiu do balano, pegou o telefone de Spencer e olhou para a mensagem de A.
         -- Esta mensagem diz que agora depende de ns descobrir... ou ns seremos as
prximas.
         -- O que isso quer dizer? -- Emily fincou sua bota em um monte de neve.
         -- Quer dizer que ns temos que provar quem  o verdadeiro assassino de Ali --
respondeu Aria de forma franca. -- Ou sofrer as consequncias.
         --Voc acha que o assassino  a quem Ian se refere na mensagem instantnea? --
perguntou Spencer. -- As pessoas que o odiavam? As pessoas que descobriram que ele sabia
demais?
        -- Mas quem odiaria Ian? -- Emily coou a cabea. -- Todo mundo em Rosewood
adorava ele.
        Hanna perdeu a calma.
        -- Meninas, isso  uma estupidez. Eu realmente no estou com a menor pacincia para
brincar de Veronica Mars. -- Ela abriu a bolsa, tirou um iPhone do bolso interno e o ligou. -- A
melhor forma de ficar longe de A  fazer o que eu fiz: comprem um telefone novo, com um
nmero novinho em folha. Voil, A no pode mais nos encontrar.
        Ela comeou a tocar no visor do telefone.
        Emily trocou um olhar preocupado com as outras meninas.
        -- A j entrou em contato conosco de outras formas, Hanna.
        Hanna tirou uma mecha de cabelo da frente dos olhos, ainda digitando uma mensagem.
        -- Essa A nova? No.
        -- S porque ele no fez isso at agora, no quer dizer que no far -- disse Spencer
com firmeza.
        Hanna bateu as mos, parecendo incomodada, como se tivesse chegado a uma
concluso.
        -- Bem, se Ian  A, acho que no teremos que nos preocupar, porque no h como ele
conseguir meu nmero novo.
        Emily olhou para Hanna, estranhando a forma como a amiga parecia ter tanta certeza...
Especialmente se Ian ainda estivesse em Rosewood.
        -- E a, investigamos ou no? -- perguntou Aria depois de um momento.
        As meninas trocaram olhares. Emily no tinha ideia de como elas poderiam procurar o
verdadeiro assassino de Ali. Elas no eram policiais. No tinham experincia forense. Mas ela
entendia o motivo de no poderem ir at a polcia. Depois de toda aquela confuso com o
cadver desaparecido de Ian, os policiais simplesmente ririam para elas e mandariam que pa-
rassem de tentar desperdiar o tempo da polcia com histrias ridculas.
        Ela olhou ao longo do ptio.
        Mais alunos do sexto ano se dirigiam para as salas de aula. Alguns se reuniam ao redor
de um folheto em uma porta, conversando despreocupadamente.
        -- Eu vou encontrar um pedao -- disse uma menina morena com fivelas fluorescentes
no cabelo.
        -- Sim, t bom -- disse sua amiga, uma menina asitica delicada com um rabo de
cavalo alto. --Vocs nunca descobriro o que dizem as pistas.
        Emily apertou os olhos para ler o folheto, que dizia:
       A Cpsula do Tempo est aqui! Voc j comeou a pro-
       curar?
        -- Lembra o quanto todo mundo ficou empolgado por causa da Cpsula do Tempo no
primeiro ano em que ns pudemos participar? -- murmurou Hanna, ouvindo a conversa das
meninas tambm.
        Aria apontou para o bicicletrio perto da entrada do sexto ano.
        -- Foi l que Ali disse que sabia onde estava uma das partes da bandeira.
        -- Aquilo foi to irritante -- grunhiu Spencer, fazendo uma careta. -- Ela trapaceou.
Jason disse a ela onde estava. Ela nem teve que solucionar as pistas. Foi por isso que eu quis
roubar a parte de Ali. Eu no achava que ela merecia ganhar.
        -- Mas voc no chegou a roub-la -- disse Hanna.
        -- Porque algum roubou primeiro. E ns nunca descobriremos quem foi.
        Aria engasgou com a gua que estava bebendo direto da garrafa. As outras meninas se
viraram para olhar para ela.
        -- Eu estou bem -- garantiu, ofegando.
        O sinal do ensino mdio tocou, e as meninas se dispersaram. Spencer saiu rpido, mal
dizendo tchau. Hanna ainda se demorou um pouco por ali digitando em seu iPhone. Emily saiu
andando com Aria. Por um tempo, o nico som que ouviram vinha de seus sapatos esmagando
as crostas de gelo no ptio.
         Emily imaginou se Aria estaria pensando a mesma coisa que ela. Ser que Ian estava
falando a verdade? Outra pessoa estava por trs da morte de Ali?
         --Voc no vai acreditar em quem eu esbarrei ontem -- disse Aria. --Jason
DiLaurentis.
         Emily parou. Seu corao disparou.
         -- Onde?
         Aria enrolou o cachecol em volta do pescoo com mais firmeza, parecendo
despreocupada.
         -- Matei aula. Jason estava esperando o trem para a Filadlfia.
         Uma rajada de vento passou, fazendo o colarinho da camisa de Emily esvoaar.
         -- Eu tambm vi Jason outro dia -- disse ela, meio estridente. -- Estacionei atrs dele e
ele me acusou de bater em seu carro. Estava meio... irritado.
         Aria olhou para ela com estranheza.
         -- O que voc quer dizer?
         Emily mexeu no ingresso do telefrico da estao de esqui que estava preso ao zper de
sua jaqueta. Ela suspeitava que Aria gostasse de Jason, e ela odiava falar mal das pessoas.
         Mas, bom, Aria precisava saber.
         -- Bem, ele meio que gritou comigo durante um tempo. E depois avanou para cima de
mim, como se fosse me dar um soco.
         --Voc bateu no carro dele?
         -- Mesmo que eu tenha batido... era um arranho minsculo. Definitivamente, no valia
a pena enlouquecer por aquilo.
         Aria ps as mos nos bolsos.
         -- Jason provavelmente est muito sensvel agora. No consigo imaginar como isso
deve ser para ele.
         -- Foi o que eu pensei tambm, mas... -- Emily se interrompeu, olhando para Aria,
preocupada. -- S tome cuidado, est bem? Lembre o que Jenna disse a voc. Ali disse que
tinha "problemas" com Jason. Ele poderia estar abusando de Ali, assim como Toby abusava de
Jenna.
         -- Ns no sabemos se isso  verdade -- retrucou Aria, seus olhos escurecendo. -- Ali
quis descobrir o segredo de Jenna a respeito de Toby. Ela diria qualquer coisa para fazer com
que Jenna falasse. Jason no era nada alm de meigo com Ali.
         Emily desviou o olhar e encarou sem expresso o mastro de bandeira do outro lado do
ptio. Ela no tinha certeza de que a relao entre os irmos fosse assim. Lembrava-se dos gritos
vindo de dentro da casa de Ali no dia em que elas foram at seu jardim para roubar o pedao da
bandeira da Cpsula do Tempo. Algum ficara imitando a voz de Ali. E, em seguida, houve um
som estridente e um baque, como se algum tivesse sido empurrado. Jason saiu furioso da casa
momentos depois, o rosto todo vermelho.
         Na verdade, agora que ela pensou nisso, a primeira vez que Emily viu Ali, Jason a
estivera provocando. Foi poucos dias antes de elas comearem o terceiro ano. Emily e sua me
estavam na mercearia escolhendo caixas de suco e minipacotes de Doritos para os lanches da
escola. Uma menina loura, linda, mais ou menos da mesma idade de Emily, passou atrs delas,
saltitando at o corredor de cereais. Havia algo inebriante nela, provavelmente porque ela era
to descomplicada... coisa que a introvertida Emily no era.
         Elas viram a menina outra vez na seo de congelados, verificando todas as caixas,
tentando escolher o que queria. Sua me vinha logo atrs, empurrando o carrinho de compras, e
um garoto, provavelmente em seus catorze anos, andava atrs das duas, absorto em seu Game
Boy.
         -- Me, ns podemos comprar Eggos? -- pediu a menina, abrindo a porta de um
congelador, seu sorriso largo revelava que ela perdera um dente de leite. O adolescente virou os
olhos, sem pacincia.
         -- Me, podemos comprar Eggos? -- imitou ele, sua voz aguda e malvada.
        E em um estalo de dedos, a menina murchou. Seu lbio inferior tremia e ela fechou a
porta do congelador com um baque. A me pegou o brao do garoto.
        -- No faa isso!
        O garoto deu de ombros e baixou a cabea, mas Emily achou que ele merecia levar uma
bronca. Ele arruinou a diverso da menina, simplesmente porque podia. Alguns dias depois,
quando o terceiro ano comeou, Emily percebeu que a menina na loja era Ali. Ela era nova em
Rosewood Day, mas era to bonita e cheia de brilho que todo mundo logo quis sentar ao lado
dela no tapete durante o mostre-e-conte. Era difcil acreditar que alguma coisa a deixaria triste.
        Emily chutou uma bola de neve na calada, perguntando-se em silncio se deveria
contar isso a Aria. Mas, antes que chegasse a alguma concluso, Aria murmurou um tchau
rpido e apertou o passo na direo dos laboratrios de cincias, fazendo os protetores de orelha
de seu gorro sacudirem.
        Suspirando, Emily subiu lentamente as escadas at seu armrio, desviando-se de um
monte de garotos mais novos do time de luta livre que desciam as escadas em sua direo. Sim,
ela sabia que Ali tinha um jeito de manipular as pessoas para descobrir seus segredos. E, sim,
admitia que Ali sabia ser m. Emily tambm tinha sido vtima da sua maldade, especialmente
quando Ali provocava Emily na frente das outras sobre a vez que a beijou na casa da rvore.
Mas Jenna no era popular, no era amiga de Ali e no tinha nada que Ali pudesse querer. 
claro que Ali era perversa, mas geralmente havia uma pitada de verdade no que dizia.
        Emily parou na frente do seu armrio. Enquanto estava pendurando seu casaco, ouviu
um pequeno riso abafado atrs dela. Ela se virou, olhando para o fluxo de estudantes que se-
guiam para suas salas de aula. Uma garota familiar surgiu em seu campo de viso. No era
ningum mais, ningum menos do que Jenna Cavanaugh. Ela estava de p na porta da sala de
Qumica II, seu co-guia ao lado. Emily se arrepiou. Era como se apenas por pensar em Jenna,
Emily a tivesse conjurado.
        Uma sombra se mexeu atrs de Jenna, e a ex-namorada de Emily, Maya St. German,
apareceu na porta tambm. Emily mal falara com Maya desde que elas terminaram, quando
Maya a pegou beijando Trista, uma garota que conhecera quando seus pais a enviaram para
viver com os tios, em Iowa. Pelo olhar lvido no rosto de Maya, no parecia que ela havia
perdoado Emily.
        Maya sussurrou algo no ouvido de Jenna antes de olhar para Emily no corredor cheio.
Sua boca se transformou em um sorriso maldoso. Os olhos de Jenna estavam escondidos atrs
de seus culos escuros Gucci, mas seu rosto estava srio.
        Batendo a porta de seu armrio com fora, Emily seguiu pelo corredor sem nem mesmo
pegar os livros dos quais precisava para as aulas da manh. Quando olhou para trs, Maya
balanava os dedos.
        Tchau, Maya gesticulou de um jeito sarcstico, seus olhos brilhando de maldade e
prazer, como se soubesse precisamente o quanto estava fazendo Emily sofrer.
                                          11
                                O BEB MAIS ARRUMADINHO
                                     DE ROSEWOOD
Na tarde de quarta-feira, Aria entrou no vestbulo da casa nova que Byron e Meredith haviam
acabado de comprar. Ela precisava admitir que o lugar era, de fato, bem charmoso. Um bangal
rstico em um canto afastado da rua, com piso castanho, castiais de bronze pitorescos e
arandelas. Como Meredith prometera, havia um quarto de sto corri excelente luz para pintura.
        O nico problema era que ela conseguia ver, da janela de seu quarto, o cata-vento que
ficava no telhado da casa de Ian. Alm disso, tinha uma viso da clareira onde ela e as amigas
encontraram o cadver dele -- que aparentemente no passava de um embuste. Os carros de
polcia e os equipamentos de busca tinham sido levados embora, mas em certos trechos do solo
ficava claro que a terra havia sido revolvida, e vrias pegadas de bota deixaram suas marcas na
lama. Agora que Aria sabia que Ian provavelmente ainda estava vivo, rondando Rosewood, ela
no conseguia sequer olhar na direo da floresta sem se sentir mal. E quando ficara na varanda
da frente, mais cedo, esperando Meredith destrancar a porta, ela jurara que vira com o canto dos
olhos o vulto de algum desaparecendo atrs de uma casa no fim da rua sem sada. Mas quando
deu um passo para trs para ver melhor, no havia ningum ali.
        Byron enviara o pessoal da mudana  casa de Ella naquela manh para pegar algumas
coisas no quarto de Aria.
        Na noite anterior, Aria havia finalmente ligado para Ella e dado a notcia de que iria
morar com Byron por um tempo, para conhecer Meredith melhor. Ella fizera uma pausa, pro-
vavelmente lembrando-se da ocasio em que Aria pintara um "A", de "adltera", na blusa de
Meredith, e em seguida perguntou se Aria estava chateada com alguma coisa.
        -- Claro que no! -- respondeu Aria rapidamente.
        Ella disse que gostaria muito que Aria ficasse na casa dela e perguntou se havia algo
que poderia fazer para deix-la mais feliz. Sim, voc poderia se livrar de Xavier, Aria queria su-
gerir.
        Por fim, Aria contornou as coisas dizendo que deixaria parte de sua moblia e de suas
roupas no quarto antigo e que alternaria seus dias entre a casa de Ella e a de Byron. No queria
que Ella pensasse que a estava abandonando, porque no era nada disso. De qualquer forma,
quo difcil poderia ser evitar Xavier? Aria ficaria na casa de Ella nos dias em que tivesse cer-
teza de que ele no estaria l, como quando ele estivesse fora da cidade para uma exposio.
        O pessoal da mudana havia deixado as caixas mais leves no vestbulo e Aria estava
levando cada uma delas para o seu quarto. Quando estava se inclinando para pegar uma caixa
marcada como Frgil, Meredith colocou um envelope branco no bolso da cala jeans skinny de
Aria.
        -- Correspondncia para voc! -- cantarolou ela e em seguida saiu saltitando pelo
corredor, com o esfrego nas mos.
        Aria pegou o envelope. Seu nome estava impresso em uma etiqueta verde. E no havia
endereo de remetente. Ela teve um calafrio, pensando no que Emily dissera a Hanna. A entrou
em contato conosco de outras formas. Ela no estava preparada para uma nova rodada de
mensagens ameaadoras.
        Dentro do envelope, encontrou um convite e dois ingressos cor de laranja para uma
festa em um hotel novo chamado Radley. Havia um bilhete anexado.
        Aria, j estou com saudade de voc!
        Quando voc estar de volta  nossa casa?
        Enfim, uma das minhas pinturas foi escolhida para ficar
        em exposio no saguo desse hotel! Aqui esto dois
        convites para a abertura.
        Por favor, encontre comigo e com Xavier l!
        Amor, Ella.
         Aria enfiou os papis de volta no envelope, sentindo seu corao afundar. Pelo jeito,
evitar Xavier seria mais difcil do que imaginara.
         Ela subiu as escadas e entrou em seu quarto pequeno e aconchegante. Aquele era o
quarto que sempre desejara, com claraboias sobre a cama, um assento confortvel junto  janela,
e piso de madeira ligeiramente inclinado. Se ela colocasse um lpis na ponta do quarto, ele
rolaria devagarinho para a outra ponta. Havia caixas com as coisas de seu antigo quarto
empilhadas at o teto, e os bichos de pelcia de Aria estavam espalhados na cama de plataforma
que seus pais haviam comprado para ela em uma loja na Dinamarca. Ela pendurara a maioria de
suas roupas em um armrio antigo que Byron tinha comprado no site Craigslist, e arrumara suas
camisas, sutis, calcinhas e meias na gaveta de baixo. Ainda tinha que encontrar um lugar para
arrumar seus novelos de l, cobertores, sapatos pequenos demais, e jogos de tabuleiro de seu
armrio antigo.
         Mas no estava com vontade de fazer nada disso agora. Tudo o que queria era se jogar
na cama e pensar no encontro do dia anterior com Jason DiLaurentis. Ser que ele realmente
flertara com ela? Por que seu humor havia mudado to rapidamente? Foi por causa da
reportagem do corpo de Ian na televiso?
         Aria se perguntou se Jason tinha amigos na cidade. No ensino mdio, ele costumava
passar muito tempo sozinho, ouvindo msica, lendo ou divagando. Ali havia partido, perdendo
o ltimo ano de Jason, e Aria mal o vira desde ento. Depois do vero, Jason se mudou para
Yale o mais rpido possvel e, se ele voltou  cidade para visitar os pais depois disso, ela no
ficou sabendo.
         Como ser que ele estava lidando com toda essa histria sobre Ali? Ele teria algum
com quem pudesse conversar a respeito? Pensou no que Emily contara quando estavam nos
balanos, que Jason gritara com ela por causa de uma batida em seu carro. Emily parecia
preocupada, mas Aria no conseguia imaginar o que seria capaz de fazer se algum matasse
Mike. Era provvel que ela tambm ficasse furiosa por causa de um para-choque amassado.
Ento uma familiar caixa de tnis Puma no cho chamou sua ateno. Antigos relatrios de
livros, dizia a etiqueta. Aria respirou fundo. A caixa estava amassada, as letras nas laterais j
estavam sumindo. A ltima vez que Aria olhara dentro da caixa fora no sbado em que ela e as
outras garotas foram at o jardim de Ali para roubar o pedao da bandeira que ela encontrara.
         Aria havia enterrado a lembrana do que aconteceu naquele dia por tanto tempo... Mas
agora que se permitia pensar no assunto, cada detalhe sensorial estava voltando, e era tudo
muito ntido. Lembrou-se de Ali dando as costas para ela e entrando em casa, o cheiro de seu
sabonete de baunilha flutuando atrs dela. Ela se lembrou de ter sado correndo pela floresta
para chegar  sua casa, o gramado ainda molhado por causa das chuvas de poucos dias antes.
Lembrou-se de como as folhas nas rvores ainda estavam verdes, e da sombra que projetavam
para proteg-la do sol de fim de vero. A floresta tinha cheiro de pinho e outras coisas... Talvez
cigarro. Ao longe, podia ouvir um cortador de grama sendo usado. Galhos quebraram. Arbustos
farfalharam. Aria viu a camisa preta de Jason e o cabelo louro, e prendeu a respirao. Ela
fantasiara ver Jason naquele dia... E l estava ele. No sabia o que fizera seus olhos irem at o
pedao de bandeira pendurado em seu bolso. Quando Jason viu o que ela estava olhando, pegou
a bandeira e estendeu para ela, sem dizer uma palavra.
         Em um minuto, estava em minha bolsa, no outro, tinha desaparecido, Ali contara a elas.
Por que Jason pegara a bandeira de Ali? Aria quis pensar que fora por uma questo prtica e
tica, no apenas para ser cruel. No havia possibilidade de Jason abusar de Ali, como Jenna
havia sugerido, como Emily parecia acreditar. Na verdade, Jason sempre parecera um protetor
feroz de Ali. Ele havia surgido do nada para intervir quando Ali e Ian estavam conversando no
ptio, no dia em que a Cpsula do Tempo foi anunciada. No dia que elas iriam tentar roubar a
bandeira de Ali, Emily as fizera ficar em silncio para que ouvissem os gritos que vinham de
dentro da casa de Ali. Pouco depois, Jason saiu da casa, aparentando estar muito irritado com
alguma coisa. Quando Ali finalmente saiu para falar com elas, parecia preocupada, olhando
nervosa na direo da casa. Se ela tivesse problemas com Jason, no deveria ter ficado aliviada
por ele ter sado?
         Naquela manh, Spencer dissera que queria roubar o pedao da bandeira de Ali porque
achava que ela havia trapaceado para vencer. Talvez Jason tivesse se sentido culpado por
tambm trapacear. Talvez tivesse pedido a Ali para ficar de boca fechada sobre ele ter revelado
o esconderijo do pedao da bandeira e, ao ver a irm se gabar para todo mundo no ptio, tivesse
ficado louco da vida.
         Aria se abaixou perto da caixa, sentindo todo seu corpo formigar. Tanto tempo se
passara desde que ela olhara para aquele pedao de bandeira que quase se esquecera de como
Ali a havia decorado. A tampa da caixa quase se desfez quando ela a pegou. Uma nuvem de
poeira se dispersou no ar.
         -- Aria? -- A voz de Byron veio l de baixo. -- Desa para o ch de beb de Meredith!
         Aria ficou paralisada. A ponta da bandeira azul-brilhante era visvel debaixo de um
monte de papis.
         -- Estou indo -- gritou ela, aliviada por ter sido interrompida.
         Na sala de estar, ela viu Meredith, Byron, um grupo de homens desmazelados que Aria
reconhecera como colegas de Byron na universidade de Hollis, e algumas garotas de vinte e
poucos anos, vestindo calas de ioga ou jeans rasgados. Uma cafeteira francesa, garrafas de
vinho e gua com gs, e um prato grande de sanduches de homus de pepino estavam sobre a
mesa, e havia uma pilha grande de presentes prxima ao sof. Em seguida, algum  esquerda
de Aria tossiu. Mike estava sentado no canto do sof com uma morena muito bonita ao seu lado.
Aria piscou, paralisada por um instante. Aquela era a futura meia-irm de Hanna, Kate.
         -- Hum, oi? -- disse Aria, cautelosa. Kate sorriu de maneira presunosa. a sorriso de
Mike era ainda mais presunoso.
         Ele colocou a mo sobre a perna de Kate, e ela permitiu. Aria franziu a testa, pensando
que, talvez, seu crebro tivesse sido danificado pela nuvem de poeira que acabara de enfrentar.
         Um som de saltos altos veio do vestbulo, e Aria virou em tempo de ver Hanna entrar.
Ela usava um vestido de seda verde decotado e seu pedao da bandeira da Cpsula do Tempo
envolvia sua cintura como se fosse um cinto. Carregava uma caixa embrulhada em um papel
estampado com cegonha. Aria ia dizer ol, mas Hanna no estava olhando em sua direo. Ela
estava olhando para Kate.
         Hanna estava boquiaberta.
         --Oh.
         -- Oi, Hanna! -- acenou Kate. -- Que legal que voc veio.
         --Voc no foi convidada -- disse Hanna.
         -- Sim, fui. -- a sorriso de Kate no cedeu nenhum milmetro.
         Um msculo sob o olho direito de Hanna tremeu. Uma onda de rubor subiu de seu
pescoo at as bochechas. Aria olhava de uma menina para a outra, perplexa e um pouco
confusa.
         Meredith pareceu espantada.
         -- Mike, voc trouxe duas garotas?
         -- Ei,  uma festa -- disse Mike, dando de ombros. -- Quanto mais, melhor, certo?
         --  o que eu sempre digo! -- gralhou Kate.
        Quando a supermagra Kate sorria daquele jeito, ela fazia Aria se lembrar da foto de um
gibo-fmea gritando de um pster da National Geographic que ainda estava pendurado na
porta de seu quarto. Hanna definitivamente era a mais bonita das duas.
        Hanna deu meia-volta, andou na direo de Meredith e estendeu a mo.
        -- Hanna Marin. Sou uma antiga amiga da famlia.
        Ela entregou seu presente para Meredith, que o colocou sobre a pilha com as outras
coisas. Hanna encarou Kate e depois sentou ao lado de Mike, espremendo-se para que eles pu-
dessem ocupar uma mesma almofada.
        Kate olhou para a bandeira em volta da cintura de Hanna.
        -- O que  isso? -- Ela apontou para o borro preto que Hanna havia desenhado.
        Hanna lanou-lhe um olhar arrogante.
        --  um sapo de mang. D.
        Aria se sentou na cadeira de balano, sentindo-se muito esquisita.
        Ela captou o olhar de Hanna, apontou para seu telefone e comeou a digitar uma
mensagem para ela. Durante a manh, um tanto relutante, Hanna dera a ela e s outras meninas
o nmero de seu iPhone.
       O que vc t fazendo aqui?
        O telefone de Hanna tocou. Ela leu a mensagem, olhou para Aria e digitou. Segundos
depois, o telefone de Aria tremeu.
       Pq vc no nos contou que estava se mudando para 4
       portas da casa de Ian?
       Aria leu e respondeu. Hanna no conseguiria se desviar daquela pergunta to fcil.
       Tambm acabei de descobrir. E a, vc gosta de Mike?
       Hanna respondeu:
       Talvez. Esse cara voc no pode roubar de mim.
          Aria cerrou os dentes. Hanna estava se referindo ao ltimo outono, quando ela ficou
com o ex de Hanna, Sean Ackard. Hanna ainda achava que Aria roubara Sean dela.
          Meredith comeou a abrir sua grande pilha de presentes, expondo todos na mesa de
centro. At aquele momento, ela recebera um monte de brinquedos, uma manta e uma bomba de
tirar leite, de Mike. Quando pegou um pacote embrulhado com papel listrado, Kate se endireitou
no sof.
          -- Oh, esse  meu! -- Ela esfregou as mos, alegre. Hanna franziu a testa.
          Meredith sentou no sof e abriu a caixa.
          -- Oh, meu Deus -- suspirou ela, erguendo um body cor de creme de uma camada de
papel de seda rosa.
          --  caxemira orgnica da Monglia -- disse Kate. --  totalmente ecolgico.
          -- Muito obrigada. -- Meredith passou o body no rosto. Byron o sentiu com os dedos,
concentrado e solene, como se fosse grande conhecedor de caxemira. Camisas de algodo ve-
lhas e calas de pijama de flanela eram mais seu tipo.
         Hanna ficou de p abruptamente, deixando escapar um pequeno grunhido.
         --Voc xeretou no meu quarto?
         -- Perdo? -- disse Kate, arregalando os olhos.
         --Voc sabia!! -- berrou Hanna. -- Passei horas procurando pelo presente perfeito.
         -- Eu no sei do que voc est falando. -- Kate deu de ombros.
         Naquele momento, Meredith estava abrindo o presente com estampa de cegonha que
Hanna havia comprado. Dentro dele, havia outra caixa da Sunshine.
         -- Ah! -- disse Meredith toda simptica, erguendo um body de caxemira idntico, em
um papel de seda rosa tambm idntico. --  lindo. De novo.
         -- Bodies de caxemira nunca so demais! -- Tate, um dos colegas de Byron em Hollis,
gargalhou, enquanto um pouco de homus pingava em sua barba desleixada.
         Kate riu, como se tambm achasse aquilo muito engraado.
         -- Mentes incrveis pensam da mesma forma, eu acho -- disse ela, o que fez o rosto de
Hanna se contorcer de raiva. Mike virava a cabea de uma para a outra. Ele estava obviamente
adorando todo aquele drama  sua volta.
         De repente, Aria percebeu um vulto escuro se mexendo do lado de fora da janela da
frente. Calafrios percorreram seus braos. Algum estava no jardim, observando a festa.
         Ela olhou ao redor da sala, mas ningum alm dela pareceu perceber. Disfarando,
levantou e seguiu pelo corredor. Seu corao batia acelerado quando ela virou a maaneta e
saiu. A vizinhana estava funebremente calma, e o ar cheirava  lenha queimada.
         O cu estava ficando escuro, e a lmpada no fim da nova rua de Aria formava um tnue
crculo dourado no gramado. Quando ela viu o vulto outra vez, perto da caixa de correio, pulou
para trs.
         Ainda bem, no era Ian. Era...
         -- Jenna? -- disse ela cuidadosamente.
         Jenna Cavanaugh estava vestindo um pesado e escuro casaco acolchoado, luvas tambm
escuras, e um chapu cinza com protetores de orelhas. A lngua de seu golden retriever estava
para fora. Ela inclinou a cabea na direo do som da voz de Aria e abriu a boca.
         --  Aria -- explicou ela. -- Eu me mudei para a casa do meu pai ontem.
         Jenna acenou com a cabea de maneira discreta.
         -- Eu sei. -- Ela no se mexeu. Havia uma expresso de culpa em seu rosto.
         -- Voc est... bem? -- perguntou Aria depois de um momento, com o corao
disparado. -- Precisa de alguma coisa?
         Jenna ajeitou seus enormes culos Gucci sobre o nariz. Era estranho ver algum usando
culos escuros  noite. Parecia que ela ia dizer alguma coisa, mas ento ela se virou, acenando.
         --No..
         -- Espere! --Aria gritou, mas Jenna continuou andando.
         Os pingentes na coleira do co tilintavam. Seus sapatos no fizeram barulho. Depois de
um momento, tudo que Aria conseguia ver de Jenna era sua bengala branca brilhando, tateando
lentamente de um lado para o outro at o fim da rua.
                                          12
                                  CORTEM-LHE A CABEA!
Na noite de quarta-feira, Emily arrumou quatro pratos bege sobre a mesa quadrada na sala de
jantar dos Colbert. Quando chegou  prataria, parou, intrigada. As facas iam ao lado dos garfos,
ou das colheres? Os jantares de sua famlia eram casuais, sem nenhuma formalidade. Alis, era
comum que sua irm, Carolyn, e ela, jantassem depois dos pais por causa dos treinos de
natao.
         Isaac apareceu, vindo da cozinha, os olhos parecendo mais azuis em seu suter de gola
em V apertado e calas jeans. Ele pegou a mo de Emily e pressionou algo macio contra ela.
Emily olhou a palma de sua mo. Era um anel de cermica azul-petrleo.
         -- Por que est me dando isso?
         Os olhos de Isaac estavam brilhantes.
         -- Por nada. Porque eu amo voc.
         Emily apertou os lbios, toda derretida. Ningum que ela tivesse namorado antes havia
lhe dado um presente.
         -- Eu amo voc tambm -- disse ela, colocando o anel em seu dedo indicador, onde
encaixava melhor.
         Ela no conseguia parar de pensar no que havia acontecido entre eles no dia anterior.
Parecia surreal, mas maravilhoso tambm. Uma distrao excelente para faz-la esquecer o re-
torno de A. Durante todo o dia na escola, Emily tinha dado escapadelas at o banheiro feminino
para se olhar no espelho procurando mudanas. Toda vez era a mesma Emily de sempre que a
olhava de volta no espelho, com as mesmas sardas, os mesmos olhos castanhos grandes, o
mesmo nariz arrebitado. Ela continuava esperando ver em si mesma um brilho especial ou um
sorriso mais adulto, algo que indicasse uma transformao. Gostaria de poder agarrar Isaac,
beij-lo com fora e sussurrar que ela gostaria de fazer aquilo de novo. Logo.
         Um estrondo vindo da cozinha quebrou os devaneios de Emily em um milho de
pedaos. No que ela ousasse dizer aquilo para Isaac naquele momento, claro. No com os pais
dele por perto.
         Isaac pegou os talheres das mos de Emily e comeou a arrum-los perto dos pratos,
colheres perto das facas  direita. Garfos sozinhos  esquerda.
         -- Voc parece um pouco nervosa -- disse ele. -- No se preocupe. Eu disse aos meus
pais para no trazer o assunto da Ali  tona.
         -- Obrigada -- respondeu Emily, tentando sorrir.
         Responder perguntas sobre Ali era o menor de seus problemas nesta noite. Emily estava
mais preocupada com o que, exatamente, a sra. Colbert havia escutado na noite anterior. A me
de Isaac a cumprimentara de forma fria quando ela chegou para o jantar. E h poucos instantes,
ao sair do lavabo, Emily jurou que a sra. Colbert olhava para ela como se a estivesse julgando,
como se pensasse que Emily se esquecera de lavar as mos.
         Emily escapou at a cozinha para ajudar a me de Isaac a levar a carne assada, a
caarola de brcolis e o pur de batatas com alho e pezinhos para a mesa.
          O sr. Colbert entrou na sala de jantar, afrouxando a gravata. Depois que a famlia fez as
preces, a sra. Colbert colocou a carne assada na frente de Emily, olhando-a diretamente pela
primeira vez naquela noite.
          -- Aqui est, querida. -- disse a sra. Colbert, dando um sorriso esquisito. --Voc gosta
de carne, no gosta?
          Emily piscou. Era impresso dela, ou a me de Isaac parecia um pouco... irnica? Ela
olhou para o namorado para ver se ele tambm achava aquilo meio estranho, mas ele estava
inocentemente escolhendo um pozinho na cesta de vime.
          -- H... Obrigada -- disse Emily, estendo o prato para a sra. Colbert. Ela gostava de
carne. Do tipo, h, que se come.
          -- Bem, Emily -- disse sr. Colbert enfiando uma grande colher na tigela do pur --,
andei perguntando sobre voc a alguns de meus funcionrios do bule. Aparentemente, voc tem
uma reputao.
          A sra. Colbert fez um barulho discreto. O garfo de Emily tilintou no prato. O nico
barulho vinha do exaustor sobre o fogo.
          -- E-eu tenho?
          -- Todo mundo disse que voc  uma tima nadadora -- concluiu o sr. Colbert. -- Est
bem classificada no ranking nacional em nado borboleta. Isso  incrvel. No  uma categoria
fcil, ?
          -- Ah! --Tremendo, Emily tomou um enorme gole de gua. -- , pois . -- O que ela
esperava? Que o sr. Colbert fosse perguntar a ela como era sair com garotas? -- Sim,  uma
categoria difcil, mas por alguma razo sou naturalmente rpida nela.
          A sra. Colbert murmurou outra coisa entre os dentes. Emily poderia ter jurado que foi,
"Voc  naturalmente esperta, com certeza".
          Emily abaixou o copo d'gua. A me de Isaac mastigava com calma, observando Emily.
Parecia que seus olhos estavam tentando atravessar a cabea de Emily.
          -- O que foi que voc disse, me? -- perguntou Isaac.
          A expresso da sra. Colbert mudou, e ela deu um sorriso agradvel.
          -- Eu disse que Emily  naturalmente modesta.Tenho certeza de que ela trabalhou duro
para se tornar uma boa nadadora.
          -- Muito. -- Isaac sorriu.
          Emily fitou seu monte de pur achando que iria enlouquecer.
          Fora mesmo aquilo que a sra. Colbert dissera?
          Como sobremesa, a sra. Colbert trouxe para a mesa uma torta de ma e uma jarra de
caf.
          O sr. Colbert olhou para a esposa.
          -- A propsito, tudo certo para a festa neste sbado. Pensei que no fssemos ter
pessoas suficientes para trabalhar, j que a festa ser muito grande, mas ns conseguimos.
          -- timo -- disse a sra. Colbert.
          -- Essa festa vai ser tima -- disse Isaac.
          Emily pegou um pedao de torta de ma.
          -- Festa?
          -- Meu pai est fazendo o bule da inaugurao de um hotel novo, que fica fora da
cidade -- explicou Isaac. Ele pegou a mo de Emily sob a mesa.
          -- Era uma escola ou coisa do tipo, no era?
          -- Uma instituio psiquitrica -- interveio a sra. Colbert, enrugando o nariz.
          -- No exatamente -- corrigiu o sr. Colbert. -- Era um lugar para crianas
desajustadas, chamado The Radley. O hotel tambm vai ter esse nome. Os donos esto loucos
da vida por terem marcado a inaugurao para este fim de semana. As reformas ainda no
acabaram! Mas os quartos que eles ainda no conseguiram terminar ficam nos andares
superiores. Os convidados nem vo perceber. Mas vocs conhecem pessoal de hotelaria. Eles
querem tudo perfeito.
          -- O hotel  realmente lindo -- disse Isaac a Emily. --  como um castelo antigo. Tem
at um labirinto no jardim. Eu adoraria que voc fosse comigo.
          -- Claro -- disse Emily, sorrindo. Ela colocou um pedao de torta na boca.
         --Vai ser um jantar -- disse Isaac. -- Mas tambm haver bebidas e dana.
         -- Mas eles serviro apenas bebidas virgens para voc, Emily Voc sabe, sem lcool --
esclareceu a sra. Colbert.
         A pele de Emily queimava. Bebidas virgens?
         Ela olhou para Isaac, quase explodindo.
         Ela sabe!, pensou Emily. Ela definitivamente sabe.
         Isaac sorriu.
         -- No se preocupe. Ns no bebemos.
         -- timo -- disse a sra. Colbert. -- Eu me preocupo com vocs, crianas, indo a essas
festas de adulto. Muitos dos garons nem pedem identidade. -- Ela suspirou de maneira dra-
mtica. -- Pensei que voc ficaria mais empolgado com a viagem da igreja para Boston na
semana que vem do que com a inaugurao do Radley, Isaac. Voc nunca se interessou por
festas de adulto antes.
         A sra. Colbert olhou para Emily, como que dizendo que eram os modos pouco srios e a
natureza libertina dela que estavam corrompendo seu menino.
         -- Ei, eu sempre gostei de festas -- se defendeu Isaac o mais rpido que pde.
         -- Oh, deixe os meninos se divertirem, Margaret -- disse o sr. Colbert de um jeito
gentil. -- Eles ficaro bem.
         O telefone tocou e o pai de Isaac pulou para atend-lo.
         Isaac pediu licena para ir ao banheiro e o sr. Colbert desapareceu no escritrio.
         Emily cortou sua torta em pedaos cada vez menores, suas mos geis e seu rosto
quente. O que estava acontecendo com ela? Ser que estaria vendo coisas que no existiam?
Aquilo tudo tinha que ser coisa de sua cabea. A sra. Colbert no queria seu mal nem a estava
provocando de forma alguma. Ela no era A.
         Emily empilhou os pratos e levou tudo para a pia, esperando ser til. Depois de alguns
minutos de limpeza, sentiu o volume do telefone em seu bolso. Aquela seria uma hora oportuna
para A escrever uma mensagem provocativa sobre o comportamento da Mamezinha Querida
de Isaac. Na verdade, talvez a sra. Colbert no soubesse o que Emily e Isaac fizeram no dia
anterior... Mas A poderia t-la avisado bem a tempo para o jantar daquela noite. Afinal de
contas, como a antiga A, essa nova verso parecia saber de tudo, todo o tempo.
         Mas no havia mensagem nenhuma no visor do Nokia de Emily. De repente, ela
percebeu que, na verdade, desejava uma mensagem de A. Se A estivesse por trs daquilo tudo,
pelo menos a me de Isaac seria uma vtima da sua ira manipuladora, em vez de ser uma ogra
passivo-agressiva.
         Ao ouvir a me de Isaac rir l na sala, Emily olhou em volta. A sra. Colbert colecionava
utenslios com tema de vaca assim como a me de Emily colecionava coisas de galinha. Elas
tinham exatamente os mesmos ms de geladeira: uma casinha de teto de palha francesa, uma
igreja com campanrio alto e uma boulangerie. A sra. Colbert era uma me comum com uma
cozinha comum, assim como a sra. Fields. Talvez Emily estivesse sendo muito dramtica.
         Emily juntou garfos, colheres e facas e secou tudo em um pano de prato, imaginando
onde ficava a gaveta de talheres. Ela experimentou uma perto da pia.
         Uma pilha AA rolou at a parte da frente. Havia tesoura, clipes de papel espalhados,
uma luva de cozinha com estampa de vaca, e vrios cardpios de comida para viagem presos
juntos por um elstico lils. Emily comeou a fechar a gaveta, mas uma foto enfiada bem no
fundo chamou sua ateno.
         Ela a puxou. Isaac estava de p no saguo, vestindo um terno meio largo que pertencia
ao pai. Ele passava o brao em volta de Emily, que usava um vestido de cetim rosa, roubado do
armrio de Carolyn. Aquela fotografia havia sido tirada na semana anterior, quando eles
estavam a caminho do evento beneficente de Rosewood Day. A sra. Colbert orbitava em volta
deles, suas bochechas rosadas, os olhos brilhando.
         --Vocs dois esto to fofos! -- dissera ela. Ela havia ajeitado a flor do vestido de
Emily, refeito o n da gravata de Isaac, e depois oferecido aos dois biscoitos de chocolate
fresquinhos. A foto contava aquela histria feliz... Exceto por uma coisa. Emily no tinha mais
uma cabea. Ela havia sido inteiramente cortada da foto. A tesoura cuidadosamente removera
cada mecha do seu cabelo.
        Emily fechou a gaveta rapidamente. Ela correu os dedos pelo pescoo, depois pelo
maxilar e ao redor das orelhas, mas do rosto e testa. Sua cabea ainda estava ali. Quando
olhou pela janela da cozinha, tentando descobrir o que fazer, seu telefone tocou.
        O corao de Emily afundou. Isso queria dizer que A estava envolvida naquilo tambm.
Ela pegou o telefone com a mo tremendo. Uma nova imagem. Uma foto apareceu na tela.
        Era uma foto antiga do quintal de algum. O quintal de Ali. Emily reconheceu a casa na
rvore no grande carvalho  esquerda. E havia Ali, seu rosto jovem, sorridente e iluminado. Ela
estava vestindo um uniforme de hquei da Liga Juvenil de Rosewood, o que indicava que a foto
era do quinto ou do sexto ano. Depois disso, Ali jogara no time de Rosewood Day. Havia outras
duas garotas na fotografia. Uma delas era loura e estava praticamente escondida por uma rvore.
Tinha que ser Naomi Zeigler, uma das melhores amigas de Ali na poca. A outra garota estava
de perfil. Seu cabelo era escuro, sua pele clara e seus lbios vermelhos.
        Jenna Cavanaugh.
        Emily olhou para o telefone, intrigada. Onde estava a chantagem? Onde estava a
mensagem do tipo "Peguei voc! Mame acha que voc  uma vadia!"
        Por que A no estava se comportando como... A?
        Abaixo da foto, havia uma mensagem. Emily leu quatro vezes, tentando entender.
       Uma dessas coisas no se encaixa.
       Descubra o que  rpido... ou enfrente as consequncias.
       -A
                                         13
                             AQUELA LIGAO TO ESPECIAL
                                  ENTRE ME E FILHA
Naquela mesma tarde de quarta-feira, Spencer tomou o trem-bala da Amtrak Acela na estao
da rua 30, acomodou-se em uma poltrona macia junto  janela, ajustou o cinto de seu vestido de
l cinza e tirou um pedao de grama seca da ponta de uma de suas botas Loeffler Randall.
Passara mais de uma hora escolhendo as roupas, e esperava que o vestido transmitisse as
imagens de jovem fashionista, moa sria, e sou uma filha biolgica maravilhosa! Era um
equilbrio difcil de conseguir.
         O condutor, um homem grisalho de ar bondoso, vestindo o uniforme azul e vistoso da
Amtrak, examinou a passagem de Spencer.
         -- Indo para Nova York?
         -- H-r -- respondeu ela.
         -- A negcios ou diverso?
         Spencer umedeceu os lbios.
         --Vou visitar minha me -- murmurou.
         O condutor sorriu. Uma mulher idosa, do outro lado do corredor, sorriu com aprovao.
Spencer rezou para que nenhuma das amigas de sua me e nenhum dos parceiros de negcios de
seu pai estivessem, por coincidncia, no trem. No era como se quisesse que os pais soubessem
o que ela estava fazendo.
         Ela tentara confrontar sua famlia a respeito de ser adotada mais uma vez, antes de
partir. Seu pai estava trabalhando em casa e Spencer ficou parada na porta do escritrio dele,
observando enquanto ele lia o New York Times pela internet. Quando ela limpou a garganta, o
sr. Hastings se virou. Ele pareceu quase alegre ao v-la.
         -- Spencer? -- disse ele, com certa preocupao na voz. Era como se ele tivesse
temporariamente esquecido que deveria odi-la. Toneladas de palavras passaram pela cabea de
Spencer. Ela queria perguntar ao pai se aquilo poderia mesmo ser verdade. Queria perguntar a
ele por que nunca havia lhe contado. Ela queria perguntar se era por aquele motivo que eles a
tratavam como lixo, boa parte do tempo... Porque ela no pertencia de verdade quela famlia.
Mas perdera a coragem.
         Agora, seu celular estava tocando. Spencer retirou o aparelho do compartimento externo
de sua bolsinha de mo. Era uma mensagem de Andrew.
       Quer passar aqui em casa?
      Um trem da Amtrak que ia na direo oposta passou fazendo um grande barulho.
      Spencer abriu a janelinha de resposta.
      Vou jantar com a minha famlia, sinto muito, digitou ela.
      No era uma completa mentira. Ela queria contar a Andrew sobre Olivia, mas estava
com medo; se lhe contasse, ele ficaria esperando ansiosamente naquela noite, louco para saber
como tinha sido o encontro. Mas e se as coisas fossem mal? E se Spencer e Olivia se odiassem?
Ela j se sentia vulnervel o suficiente.
         O trem continuou a avanar.
         Um homem na frente de Spencer colocou de lado uma parte do jornal que lia e ela
observou que havia mais uma histria sobre Rosewood. Ser que a investigao inicial do
desaparecimento DiLaurentis falhou?, anunciava uma manchete. Estaria a famlia DiLaurentis
escondendo algo?
         Spencer puxou a aba de seu bon Eugenia Kim, bordado  mo, por cima dos olhos e se
afundou ainda mais na poltrona. Aquelas histrias loucas nunca paravam de ser publicadas.
Mesmo assim, e se os policiais que iniciaram a investigao do desaparecimento de Ali, havia
mais de trs anos, tivessem deixado escapar algo importante? Ela pensou nas mensagens de Ian.
        Eles descobriram que eu sei. Entende por que eu tive que
        fugir? Eles me odiavam. Voc sabe disso.
         Era tudo muito confuso. Primeiro, Ian pensara que estava enviando mensagens para
Melissa, no para Spencer. Isso queria dizer que Melissa saberia quem odiava Ian... E por qu?
Teria Ian compartilhado suas suspeitas sobre o assassinato de Ali com ela? Mas se Melissa sabia
de uma histria alternativa sobre o que aconteceu com Ali na noite em que ela morreu, por que
no tinha ido a pblico com a informao?
         A menos que... algum estivesse assustando Melissa, forando-a a se calar, Spencer
havia telefonado vrias vezes para a irm nas ltimas quarenta e oito horas, ansiosa para
perguntar a Melissa se ela sabia de alguma coisa a mais.
         Mas Melissa no retomara nenhuma das ligaes.
         A porta que conectava dois vages do trem se abriu, e uma mulher usando um terninho
azul-escuro atravessou o corredor, carregando uma caixa de papelo contendo copos de caf e
garrafas de gua mineral.
         Spencer encostou a cabea na janela, observando as rvores sem folhas e os velhos
postes de telefone passarem por ela. E o que Ian quisera dizer quando escreveu "Eles me
odiavam"? Aquilo teria alguma coisa a ver com a fotografia que Emily reenviara a Spencer,
cerca de meia hora antes, a antiga foto de Ali, junto a uma parcialmente escondida Naomi
Zeigler e Jenna Cavanaugh, no quintal de Ali?
         A mensagem de texto que acompanhava a foto, enviada por A, dava a entender que era
uma pista... Mas de qu? Tudo bem, era estranho que Ali estivesse na companhia da sem graa
da Jenna Cavanaugh, mas a prpria Jenna contara a Aria que ela e Ali eram amigas, mas que
ningum sabia.
         E o que tudo aquilo teria a ver com Ian?
         Apenas uma lembrana de algum que pudesse odiar Ian veio  mente de Spencer.
Quando ela e as outras invadiram o quintal de Ali para roubar a bandeira da Cpsula do Tempo,
Jason DiLaurentis sara correndo de casa e ficara parado no meio do quintal, olhando com raiva
para Melissa e Ian, que estavam sentados na beirada da banheira de hidromassagem. Eles
tinham comeado a sair juntos havia pouco tempo. Spencer se lembrava de como Melissa tinha
se torturado para escolher a bolsa e o sapato perfeitos para o primeiro dia de aulas, ansiosa para
impressionar o novo namorado.
         Depois que Ali as dispensara e Spencer voltara para casa, ela ouvira o novo casal
cochichando na sala de estar.
         -- Ele vai superar -- dissera Melissa.
         -- No  com ele que eu estou preocupado -- respondera Ian. Em seguida ele
murmurou algo que Spencer no conseguira ouvir.
         Eles estariam falando sobre Jason... Ou sobre outra pessoa?
         Pelo que Spencer havia entendido, Jason e Melissa no eram exatamente amigos. Eles
tinham algumas aulas juntos. s vezes, quando Melissa estava doente, Spencer tinha que ir at a
casa dos vizinhos e pegar as lies de casa com Jason, mas ele nunca fizera parte da turma que
alugava limusines para festas da escola, ou passava as frias de primavera em Cannes, Cabo San
Lucas ou Martha's Vineyard. Jason circulava com alguns garotos do time de futebol -- eles
eram famosos por inspirar o jogo "Esse No" que Ali, Spencer e as outras jogavam --, mas o
irmo de Ali parecia precisar de bastante espao pessoal. Na maior parte do tempo, Jason nem
sequer saa com a famlia. As famlias Hastings e DiLaurentis eram scias do Clube de Campo
de Rosewood, e ambas frequentavam religiosamente os almoos dominicais... Exceto Jason, que
faltava todas as vezes.
         Spencer se lembrava de Ali mencionando que os pais dela deixavam que Jason fosse
sozinho para a sua casa do lago, nas montanhas Poconos, durante os finais de semana; seria para
l que ele ia todos aqueles domingos? Qualquer que fosse a resposta, os DiLaurentis no
pareciam se importar com a ausncia dele, aproveitando o almoo alegremente, saboreando
ovos Benedict, bebericando mimosas e paparicando Ali. Era quase como se eles tivessem
apenas uma filha, e no dois filhos.
         Spencer fechou os olhos, ouvindo enquanto o trem apitava. Estava muito cansada de
pensar sobre tudo aquilo. Talvez quanto mais longe ela estivesse de Rosewood, menos tudo
aquilo importasse.
         Depois de algum tempo, o trem diminuiu de velocidade.
         -- Estao Penn -- anunciou o condutor.
         Spencer apanhou sua bolsa e se levantou, os joelhos tremendo.
         Isto est realmente acontecendo.
         Ela seguiu a fila de passageiros pelo corredor estreito, at chegar  plataforma, e subiu
as escadas rolantes que levavam ao saguo principal.
         A estao cheirava a pretzels, cerveja e perfume. Um locutor annimo anunciou, pelo
sistema de som, que o trem para Boston acabara de encostar no porto 14 Leste. Um grupo de
pessoas correu na direo do 14 Leste ao mesmo tempo, quase derrubando Spencer. Ela olhou
em volta, ansiosamente. Como poderia encontrar Olivia naquela multido? Como Olivia a
reconheceria? Que diabos elas diriam uma para a outra?
         Em algum lugar, em meio ao alvoroo de pessoas, Spencer ouviu uma risadinha alta e
familiar. Foi quando ela considerou a pior das possibilidades: e se Olivia no existisse? E se
aquilo tudo fosse uma brincadeira cruel, criada por A?
         -- Spencer? -- perguntou uma voz.
         Spencer se virou.
         Uma jovem mulher loura, usando um suter de caxemira cinza J. Crew e botas de
montaria marrons, andava em sua direo. Carregava uma pequena bolsa de couro de cobra e
uma grande pasta cheia de documentos. Quando Spencer levantou a mo, a mulher sorriu. O
corao de Spencer parou. A mulher tinha o mesmo sorriso largo que Spencer via sempre que se
olhava no espelho.
         -- Sou Olivia -- declarou a mulher, tomando as mos de Spencer. At mesmo os dedos
dela eram parecidos com os de Spencer, finos e magros. E Olivia tinha os mesmos olhos verdes
e uma voz familiar, de contralto. -- Eu soube que era voc assim que desceu do trem. Eu
simplesmente soube.
         Os olhos de Spencer se encheram de lgrimas de alegria. E assim, simplesmente, todos
os seus medos comearam a desaparecer. Aquilo parecia to... certo.
         --Vamos. -- Olivia guiou Spencer para uma das sadas, desviando de um grupo de
policiais do Departamento de Polcia de Nova York e de um co farejador. -- Tenho muitas
coisas planejadas para ns.
         O rosto de Spencer se iluminou. De repente, parecia que sua vida estava comeando.
Era uma noite de janeiro estranhamente quente, e as ruas estavam cheias de pessoas. Elas
pegaram um txi para o West Village, para onde Olivia acabara de se mudar, e pararam na loja
Diane von Furstenberg, uma das favoritas de Olivia... e de Spencer. Enquanto elas examinavam
as araras, Spencer ficou sabendo que Olivia era diretora de arte de uma nova revista dedicada 
vida noturna nova-iorquina. Ela nascera e fora criada em Nova York, e frequentara a
Universidade de Nova York, NYU.
        -- Eu vou tentar uma vaga na NYU -- anunciou Spencer alegremente. Na verdade,
aquela era sua opo caso-tudo-d-errado, ou tinha sido, quando ela ainda era a primeira aluna
da classe.
        -- Eu adorei estudar l -- disse Olivia com orgulho. E em seguida, deixou escapar um
pequeno oh de deleite, tirando um vestido verde-escuro de um cabide. Spencer riu... Ela acabara
de escolher a mesma coisa.
        Olivia corou.
        -- Eu sempre escolho roupas com este tom de verde -- admitiu ela.
        -- Porque elas combinam com os nossos olhos -- concluiu Spencer.
        -- Exatamente. -- Olivia dirigiu a Spencer um olhar agradecido. Sua expresso parecia
dizer estou to feliz por ter encontrado voc.
        Depois das compras, elas passearam pela Quinta Avenida. Olivia contou a Spencer que
havia se casado recentemente com um homem muito rico, chamado Morgan Frick, em uma
cerimnia privada nos Hamptons.
        -- Estamos partindo para a lua de mel em Paris esta noite, na verdade -- disse ela. --
Preciso pegar um helicptero para ir at o avio dele, mais tarde. Est em um aeroporto
particular em Connecticut.
        -- Esta noite? -- Spencer parou, surpresa. -- Mas onde est a sua bagagem?
        -- O motorista de Morgan vai lev-la para o aeroporto -- explicou Olivia. Spencer
concordou, interessada. Morgan devia ser riqussimo, se tinha um motorista e um avio
particular.
        --  por isso que era to importante que nos encontrssemos hoje -- continuou Olivia.
--Vou viajar por duas semanas, e eu no conseguia suportar a ideia de adiar nosso encontro at
eu voltar.
        Spencer concordou. Ela tambm no tinha certeza se poderia aguentar o suspense por
mais duas semanas. A pasta que estava debaixo do brao de Olivia comeou a escorregar, e ela
levantou o quadril para impedir que casse na calada.
        --Voc no quer que eu carregue isto? -- perguntou Spencer. A pasta caberia
facilmente em sua bolsa enorme.
        --Voc poderia? -- Olivia lhe entregou a pasta, agradecida. -- Obrigada. Isso estava
me deixando louca. Morgan queria que eu trouxesse as informaes sobre o nosso novo
apartamento, para ele poder examin-las.
        Elas entraram em uma ruazinha lateral, passando por uma srie de lindos prdios
antigos. Os andares trreos estavam iluminados com uma luz dourada, e Spencer olhou para um
grande gato que dormia em uma das janelas frontais. Ela e Olivia ficaram em silncio e o nico
som que se ouvia era o dos seus saltos altos contra a calada. Momentos de silncio durante
conversas sempre deixavam Spencer desconfortvel, ela sempre pensava que a culpa fosse sua,
ento comeou a tagarelar sobre suas conquistas. Ela marcara um total de doze gols na ltima
temporada de hquei e conseguira o papel principal em todas as peas da escola, desde o stimo
ano.
        -- E eu tiro dez em quase todas as matrias -- se vangloriou e, em seguida, percebeu
seu erro. Ela franziu o cenho, fechou os olhos e se preparou, certa do que viria.
        Olivia sorriu.
        -- Isto  fantstico, Spencer! Estou muito impressionada.
        Spencer abriu um dos olhos, cuidadosamente. Ela esperava que Olivia reagisse da
mesma forma que sua me reagiria. "Quase todas as matrias?" Ela praticamente podia ouvir a
censura na voz da sra. Hastings. "Em que matrias voc no tirou dez? E por que est tirando
somente dez? Por que no  dez com mrito?" E depois, Spencer se sentiria como lixo pelo resto
do dia.
        Mas Olivia no estava fazendo nada daquilo. Quem sabe, se tivesse ficado com Spencer,
as coisas tivessem sido diferentes. Talvez hoje Spencer no fosse to obsessivo-compulsiva a
respeito de suas notas, nem se sentisse to inferior em relao a outras pessoas, sempre
desesperada para provar que era boa o suficiente, que merecia o suficiente, que era digna de
amor. Ela nunca teria conhecido Ali. O assassinato de Ali seria apenas mais uma notcia de
jornal.
         -- Por que voc desistiu de mim? -- Spencer deixou escapar.
         Olivia parou na faixa de pedestres, olhando com um ar contemplativo para os edifcios
altos do outro lado da rua.
         -- Bem... eu tinha dezoito anos quando tive voc. Era jovem demais para ter um beb,
tinha acabado de comear a faculdade. Eu me torturei a respeito da minha deciso. Quando
descobri que uma famlia rica de um subrbio da Filadlfia estava adotando voc, senti que
tinha feito a escolha certa. Mas sempre imaginei como seria a sua vida.
         A luz do semforo mudou. Spencer desviou de uma mulher que caminhava com um
cachorrinho pug e vestia um suter de tric branco, enquanto elas atravessavam a rua.
         -- Bem, meus pais sabem quem voc ?
         Olivia balanou a cabea.
         -- Eu os investiguei, mas no nos encontramos. Eu queria que tudo fosse annimo, e
eles tambm. Eu chorei muito depois que a tive, pois sabia que teria que entregar voc. -- Ela
sorriu tristemente e tocou o brao de Spencer. -- Eu sei que no posso compensar dezesseis
anos em uma visita, Spencer. Mas pensei em voc durante toda a sua vida. -- Ela desviou os
olhos. -- Me desculpe. Estou sendo sentimental demais, no ?
         Os olhos de Spencer se encheram de lgrimas.
         -- No! -- disse ela rapidamente. -- De jeito nenhum.
         Por quanto tempo Spencer esperara que algum dissesse coisas assim para ela?
         Na esquina da Sexta Avenida com a rua 12, Olivia parou abruptamente.
         -- Ali est o meu apartamento.
         Ela apontou para o ltimo andar de um luxuoso edifcio. No trreo havia um pequeno
mercado e uma loja de acessrios para casa.
         Uma limusine parou na entrada, e uma mulher usando uma estola de mink saiu dela,
atravessando as portas giratrias.
         -- Podemos subir? -- perguntou Spencer. a lugar parecia to glamoroso, mesmo do
lado de fora.
         Olivia checou o Rolex que brilhava em seu pulso.
         -- No sei se temos tempo suficiente antes do horrio da nossa reserva. Da prxima
vez, entretanto. Eu prometo.
         Spencer tentou disfarar a decepo, sem querer que Olivia pensasse que ela era
mimada.
         Olivia levou Spencer a um pequeno e aconchegante restaurante, a alguns quarteires de
distncia.
         O salo cheirava a aafro, alho e frutos do mar, e estava lotado. Spencer e Olivia se
sentaram a uma mesa, com a luz de velas brilhando em seus rostos. Olivia pediu imediatamente
uma garrafa de vinho, instruindo o garom a servir um pouco para Spencer, tambm.
         -- Um brinde! -- disse ela, encostando sua taa erguida na taa de Spencer. -- A
muitas outras visitas como esta.
         O rosto de Spencer se iluminou e ela olhou ao redor.
         Um garoto que se parecia muito com Noel Kahn, mas provavelmente menos idiota,
estava sentado perto do bar. Uma menina usando botas marrons por cima dos jeans se sentava 
frente dele, rindo. Prximo a eles, havia um bonito casal de meia-idade; a mulher vestia um
mant cinza, e o homem, um terno de risca de giz. Uma cano popular francesa tocava no
sistema de som ambiente. Tudo em Nova York lhe parecia um bilho de vezes mais sofisticado
do que em Rosewood.
         -- Eu gostaria de poder morar aqui -- suspirou ela.
         Olivia inclinou a cabea e seus olhos se iluminaram.
         -- Eu sei. Eu tambm gostaria que voc pudesse. Mas deve ser to bom morar na
Pensilvnia. Todo aquele espao, e o ar puro. -- Ela tocou a mo de Spencer.
         -- Rosewood  legal. -- Spencer girou o vinho na taa e pesou suas palavras
cuidadosamente. -- Mas a minha famlia... no .
         Olivia abriu a boca, um ar preocupado no rosto.
         -- Eles no se importam comigo -- esclareceu Spencer. --Eu daria tudo para no ter
mais que viver com eles. Eles nem sentiriam a minha falta. -- Spencer sentiu um ardor familiar
no nariz, que sempre ocorria quando estava prestes a chorar. Ela olhou teimosamente para o
prprio colo, tentando controlar as emoes.
         Olivia acariciou o brao de Spencer.
         -- Eu daria tudo para que voc viesse morar aqui -- disse ela. -- Mas tenho que
confessar uma coisa. Morgan tem dificuldade em confiar nas pessoas. Alguns amigos prximos
j se aproveitaram dele por dinheiro, no passado, e agora ele  muito cuidadoso com pessoas
que no conhece. Eu ainda no contei a ele sobre voc. Ele sabe que eu dei um beb para
adoo quando era jovem, mas no sabe que eu estava procurando por voc. Eu queria me
certificar de que isso era real, primeiro.
         Spencer concordou. Ela certamente compreendia por que Olivia no tinha contado a
Morgan sobre o encontro delas... Ela tambm no contara para ningum.
         --Vou contar a ele sobre voc em Paris -- continuou Olivia. -- E quando a conhecer,
tenho certeza de que ir ador-la.
         Spencer mordeu um pedao de po, considerando suas opes.
         -- Se eu me mudasse para c, no precisaria ir morar com vocs -- sugeriu ela. -- Eu
poderia ter o meu prprio lugar.
         Uma expresso esperanosa iluminou o rosto de Olivia.
         --Voc conseguiria morar sozinha?
         Spencer deu de ombros.
         -- Claro.
         Ela mal via seus pais ultimamente; estava praticamente morando sozinha.
         -- Eu adoraria ter voc por aqui -- admitiu Olivia, seus olhos brilhando.-- Pense
nisso! Voc poderia arrumar um apartamento de um quarto no Village, perto de ns. Tenho
certeza de que o nosso corretor, Michael, poderia encontrar algo realmente especial para voc.
         -- Eu poderia comear a faculdade no ano que vem, um ano mais cedo -- completou
Spencer, sua excitao comeando a aumentar. -- Eu estava mesmo pensando em fazer isso.
         Quando Spencer estava saindo secretamente com Wren, o namorado de Melissa, ela
considerara a hiptese de tentar uma vaga na Universidade Penn mais cedo, para poder sair de
casa e ficar com ele.
         A verdade  que ela j tinha falado com a administrao de Rosewood Day sobre a
possibilidade de se formar um ano antes. Com todas as aulas extras que havia assistido, estava
mais do que qualificada.
         Olivia respirou fundo, como se fosse dizer mais alguma coisa, mas ento se
interrompeu, tomou um grande gole de vinho e ergueu as palmas das mos, como se dissesse
espere um pouco.
         -- Eu no devia ficar to empolgada -- disse ela. -- Eu deveria ser a pessoa
responsvel aqui. Voc deve ficar com a sua famlia, Spencer. Vamos ficar s nas visitas por
enquanto, est bem? -- Ela deu um tapinha na mo de Spencer, provavelmente notando sua
expresso desapontada. -- No se preocupe. Acabei de encontr-la e no quero perd-la
novamente.
         Depois de terminarem a garrafa de vinho e dois pratos de massa puttanesca, elas
caminharam at o heliporto no rio Hudson, agindo muito mais como grandes amigas do que
como me e filha. Quando Spencer viu o helicptero de Olivia esperando, apertou o brao dela.
         --Vou sentir saudades suas.
         O lbio inferior de Olivia tremeu.
         --Voltarei logo. E faremos planos para uma nova visita. Talvez um dia de compras na
avenida Madison, da prxima vez? Voc vai morrer quando vir a loja Louboutin.
         -- Combinado!
         Spencer passou os braos em torno de Olivia. Ela cheirava a Narciso Rodriguez, um dos
perfumes favoritos de Spencer. Olivia soprou um beijo para ela e entrou no helicptero. A
hlice comeou a girar e Spencer se virou para olhar para a cidade. Txis amarelos subiam a
West Side Highway.
         Pessoas corriam pelo calado da West Side, embora j passasse das dez da noite. Luzes
piscavam nas janelas dos apartamentos. Havia uma festa em um dos barcos no rio Hudson, e os
convidados trajando ternos e vestidos elegantes eram claramente visveis no convs.
        Ela estava louca para ir morar ali. E agora tinha uma boa razo para isso.
        O helicptero decolou.
        Olivia colocou os grandes fones de ouvido, inclinou-se pela janela e acenou
entusiasticamente para Spencer.
        -- Bon voyage! -- gritou Spencer.
        Quando ela levantou a bolsa para acomod-la melhor no ombro, algo bateu em seu
brao. A pasta de documentos de Olivia.
        Spencer tirou-a da bolsa e sacudiu-a sobre a cabea.
        --Voc se esqueceu disso!
        Mas Olivia estava dizendo algo ao piloto, seus olhos fixos no horizonte.
        Spencer acenou at que o helicptero se tornou um pontinho distante e finalmente
abaixou os braos e se virou.
        Pelo menos isso serviria de desculpa para Spencer ver Olivia mais uma vez.
                                          14
                                  NO DIA SEGUINTE, NUM
                                  TREM RUMO A OESTE...
Na tarde seguinte, Aria estava de p na plataforma oeste da estao de trens em Yarmouth, uma
cidadezinha a poucos quilmetros de Rosewood. O sol ainda estava alto no cu, mas o ar estava
gelado e seus dedos, entorpecidos.
        Ela esticou o pescoo e olhou para os trilhos.
        O trem estava a algumas paradas de distncia, brilhando ao longe. Seu corao acelerou.
        Depois de ter visto no uma, mas duas meninas lindas dando em cima de Mike no dia
anterior, ela decidira que a vida era curta demais para perder tempo se lamentando. Aria se lem-
brava muito bem de Jason lhe dizendo que saa das aulas de quinta-feira cedo o suficiente para
pegar o trem-bala das trs da tarde de volta a Yarmouth. O que significava que ela sabia
exatamente onde encontr-lo, agora.
        Ela se virou e olhou para as casas do outro lado dos trilhos. Muitas tinham lixo nas
varandas e tinta descascada ao redor das janelas, e nenhuma havia sido transformada em loja de
antiguidades ou spas sofisticados, como as velhas casas perto da estao de Rosewood.
Tampouco havia um supermercado Wawa ou uma cafeteria Starbucks por perto, apenas uma
tabacaria escura que oferecia leituras de mo e "outros servios paranormais", o que quer que
aquilo significasse, e um bar chamado Yee-Haw Saloon, com uma grande placa na frente
anunciando que voc poderia comer tudo o que conseguisse por apenas cinco dlares!
        Nem mesmo as rvores altas por ali pareciam pitorescas. Aria entendia por que os
DiLaurentis no queriam voltar para Rosewood durante o julgamento; mas por que teriam
escolhido Yarmouth?
        Aria ouviu uma risadinha atrs dela. Enquanto se virava, uma sombra deslizou por
detrs da estao, do outro lado dos trilhos. Aria ficou na ponta dos ps, piscando com fora,
mas no conseguiu ver quem era. Pensou em Jenna Cavanaugh, em seu jardim, no dia anterior.
Parecera a Aria que Jenna queria lhe dizer algo... Mas a desistira. Alm disso, Emily havia
reenviado a Aria uma mensagem de A. Era uma foto de Ali e Jenna juntas, que ela nunca havia
visto. A mensagem de Emily dizia:
       Voc viu? Parece que Ali e Jenna eram amigas.
        Mas no seria possvel que Ali estivesse fingindo ser amiga de Jenna para conseguir a
confiana dela? Era bem tpico de Ali atrair algum para seu crculo prximo s para descobrir
todos os seus segredos.
        O trem chegou  estao e parou, fazendo um grande barulho. O condutor abriu a porta
com fora e as pessoas comearam a descer lentamente os degraus de metal. Quando Aria viu os
cabelos louros e a jaqueta cinza de Jason, sua boca ficou seca. Ela correu para ele e tocou seu
cotovelo.
        --Jason?
          Jason se virou com um pulo, parecendo estar na defensiva. Quando ele viu que era Aria,
relaxou.
          -- Ah! -- exclamou ele. -- Oi! -- Ele olhava de um lado para o outro. -- O que voc
est fazendo aqui?
          Aria limpou a garganta, resistindo  vontade de se virar, correr para o carro e voltar para
casa.
          -- Talvez eu esteja fazendo papel de idiota, mas gostei de conversar com voc no outro
dia. E... eu gostaria de saber se podemos sair qualquer dia. Mas se no der, est tudo bem.
          Jason sorriu, parecendo impressionado. Ele saiu do caminho de um grupo de executivos.
          --Voc no est fazendo papel de idiota -- disse ele, olhando nos olhos de Aria.
          -- No estou?
          O corao de Aria deu um salto.
          Jason checou seu relgio exageradamente grande.
          --Voc gostaria de tomar uma bebida agora? Eu tenho algum tempo.
          -- C-claro! -- gaguejou Aria, sua voz falhando..
          -- Eu conheo um lugar perfeito em Hollis -- disse Jason. --Voc pode me seguir at
l, certo?
          Aria concordou, agradecida por ele no ter sugerido o Yee-Haw Saloon, no final da rua.
Jason a deixou subir primeiro as escadas estreitas que davam para a estao. Enquanto caminha-
vam em direo aos carros, algo apareceu em sua viso perifrica. a mesmo vulto que ela vira
mais cedo estava parado ao lado da janela da estao, olhando para fora. Quem quer que fosse,
usava grandes culos escuros e um casaco com o capuz puxado por sobre a cabea,
obscurecendo suas feies. Mesmo assim, Aria tinha a sensao distinta de que a pessoa estava
olhando diretamente para ela.
Aria seguiu o BMW preto de Jason at Hollis. Fez questo de checar o para-choque traseiro do
carro dele, procurando por amassados, lembrando-se do que Emily lhe dissera sobre a discusso
com Jason no outro dia. Mas at onde ela conseguiu ver, o para-choque estava intacto, sem
qualquer amassado ou arranho.
         Depois que ambos encontraram lugares para estacionar, Jason a levou por uma ruazinha
estreita e eles subiram as escadas de uma velha casa vitoriana, com a palavra "Bates" escrita em
uma placa que pendia do prtico. Havia uma cadeira de balano velha e preta  direita, que
parecia um esqueleto.
         -- Isto  um bar? -- Aria olhou ao redor. ~      Os bares em Hollis que ela conhecia,
como o Snooker's e o Victory Brewery, eram lugares escuros e malcheirosos, sem decorao
alguma, com exceo de algumas placas de neon das cervejas Budweiser e Guinness. O Bates,
por outro lado, tinha janelas de vitral, uma argola de bronze na porta da frente e algumas plantas
mortas penduradas no teto da varanda. O lugar fazia Aria se lembrar da manso decrpita onde
seu professor de piano de Reykjavk, Brynja, morava.
         A porta se abriu de repente, levando-os a um enorme salo com piso de tbuas. Sofs de
veludo vermelho estavam encostados s paredes, e cortinas exageradamente grandes pendiam
das janelas.
         -- Dizem que este lugar  assombrado -- sussurrou Jason para ela. --  por isso que o
chamam de Bates, como o Bates Motel do filme Psicose. -- Ele foi at o bar e sentou-se num
banquinho.
         Aria desviou o olhar. Antes do corpo de Ali ser encontrado, ela pensara que A era Ali,
ou talvez seu fantasma. As vises de cabelos louros que ela tivera haviam provavelmente sido
de Mona, que perseguira cada uma das meninas em busca de seus segredos mais ntimos. Mas
s vezes, mesmo agora que Mona estava morta, Aria ainda podia jurar que via algum com
cabelos louros, parecidos com os de Ali, escondendo-se por detrs de rvores e aparecendo em
janelas, observando-a de alm-tmulo.
         Um barman de cabelos muito curtos, vestido de preto, anotou os pedidos deles. Aria
pediu uma taa de vinho pinot noir... Ela achava que parecia sofisticado. Jason escolheu um
gimlet. Quando notou a expresso confusa no rosto de Aria, ele explicou:
          --  vodca com suco de lima. Uma namorada de Yale me fez experimentar.
          -- Ah! -- Aria abaixou a cabea ao ouvir a palavra namorada.
          -- Ela no  mais minha namorada -- completou Jason, o que fez Aria corar ainda mais.
          Eles apanharam suas bebidas e Jason estendeu seu gimlet para ela.
          -- Prove.
          Ela tomou um pequeno gole.
          --  gostoso -- disse ela. Tinha gosto de Sprite, mas era muito mais divertido.
          Jason entrelaou os dedos das mos com um sorriso curioso nos lbios.
          -- Voc parece bastante  vontade bebendo em um bar. -- Seu tom de voz desceu para
um sussurro. -- Voc poderia me enganar, se dissesse que tem 21 anos.
          Aria devolveu o copo de gimlet para ele.
          -- Eu passei os ltimos trs anos na Islndia. Eles no so to rgidos a respeito de
bebidas alcolicas e meus pais eram bem liberais. Alm disso, nunca precisei dirigir de volta
para casa, eu morava a poucas quadras de distncia do centro da cidade. A pior coisa que me
aconteceu foi tropear nos paraleleppedos da rua depois de tomar muitos schnapps Brennivin, e
esfolar o joelho.
          -- A Europa parece realmente ter mudado voc. -- Jason se inclinou para frente e olhou
atentamente para ela. -- Eu me lembrava de voc como uma garota esquisita. Agora, voc
est... -- Ele se interrompeu.
          O corao de Aria estava disparado. Ela estava... o qu?
          -- Eu me encaixava melhor na Islndia -- admitiu ela, quando ficou claro que ele no
iria terminar a frase.
          -- Como assim?
          -- Bem... -- Aria olhou para as pinturas a leo espalhadas pelo salo, retratos de
mulheres aristocrticas. Sob cada imagem, estavam gravadas suas datas de nascimento e morte.
-- Garotos, por exemplo. Na Islndia, eles no se importavam se eu era popular. Eles se
importavam com a msica que eu ouvia e com os livros que eu lia. Em Rosewood, os garotos s
gostam de um tipo de garota.
          Jason apoiou os cotovelos na mesa.
          -- Uma garota como a minha irm, voc quer dizer.
          Aria deu de ombros, olhando para longe. Fora aquilo que ela quisera dizer, mas no
quisera dizer o nome de Ali em voz alta. Uma expresso que Aria no conseguiu decifrar passou
pelo rosto de Jason. Ela se perguntou se Jason sabia do efeito que Ali causava nos garotos,
mesmo os mais velhos. Teria Jason sabido sobre o relacionamento secreto de Ali e Ian na poca,
ou aquilo fora uma surpresa, depois que ele fora preso? Como Jason se sentira a respeito daquilo
tudo?
          Jason bebericou o gimlet e sua expresso sria desapareceu.
          -- E a, voc se apaixonou muitas vezes na Islndia?
          Aria balanou a cabea.
          -- Eu tive alguns namorados, mas s me apaixonei uma vez. -- Meio sem jeito, ela
tomou mais um gole de vinho. No tinha comido quase nada naquele dia, e o vinho estava lhe
subindo  cabea rapidamente. -- Foi pelo meu professor de ingls. Talvez voc tenha ouvido
falar.
          Uma ruga se formou entre os olhos de Jason.Talvez ele no tivesse ouvido falar.
          -- J acabou, agora -- disse ela. -- Sinceramente, foi um desastre. Ele foi forado a
deixar seu emprego de professor... por minha causa. Ele saiu da cidade h alguns meses e disse
que manteria contato, mas nunca mais tive notcias dele.
          Jason concordou com simpatia. Aria estava surpresa ao perceber como se sentia
confortvel em lhe contar tudo aquilo. Algo a respeito de Jason a fazia se sentir segura, como se
ele no fosse julg-la.
          --Voc j se apaixonou? -- perguntou ela.
          -- S uma vez. --Jason jogou a cabea para trs e engoliu o resto da bebida. O gelo
bateu contra o copo vazio. -- Ela partiu meu corao.
          -- Quem era ela?
          Jason deu de ombros.
        -- Ningum importante. No agora, pelo menos.
        O barman trouxe outro gimlet para Jason. Em seguida, ele cutucou o brao de Aria.
        -- Sabe, eu pensei que voc fosse dizer que a pessoa por quem tinha se apaixonado era
eu.
        O queixo de Aria caiu. Jason... sabia?
        -- Acho que era realmente bvio.
        Jason sorriu.
        -- No,  que eu sou muito perceptivo.
        Aria fez um sinal para o barman trazer mais vinho para ela, suas bochechas ardendo. Ela
sempre tomara precaues extras para esconder sua paixo por Jason, certa de que morreria se
ele descobrisse. Agora, ela queria se enfiar debaixo do bar.
        -- Eu me lembro de uma vez, quando voc estava esperando do lado de fora da sala de
jornalismo em Rosewood Day -- explicou Jason. -- Eu a notei imediatamente. Voc estava
olhando em volta... e quando me viu, seus olhos se iluminaram.
        Aria agarrou a barra de metal sob o bar. Por um segundo, ela quase pensou que Jason
fosse falar da ocasio em que lhe entregara a bandeira da Cpsula do Tempo de Ali. Mas ele
estava se referindo ao dia em que ela esperara depois da aula de jornalismo, querendo mostrar a
ele a cpia autografada de Matadouro Cinco que pertencia a seu pai. Aquilo acontecera na
sexta-feira antes das meninas invadirem o quintal de Ali.
        Mas talvez Jason no quisesse falar sobre o fato de ter roubado a bandeira de Ali.
Talvez ele se sentisse culpado.
        -- Claro, eu me lembro daquele dia -- Aria conseguiu dizer. -- Eu queria mesmo falar
com voc. Mas a secretria da escola o alcanou primeiro. Ela disse que tinha uma ligao
telefnica para voc, de uma garota.
        Jason franziu a testa, como se tentasse se recordar.
        -- Mesmo?
        Aria concordou. A secretria tomara o brao de Jason e o levara para o escritrio. E
agora que Aria pensava sobre o ocorrido, ela tambm dissera "Ela disse que  sua irm". Mas
Aria no tinha visto Ali mais cedo, naquele mesmo dia, entrando na sala dos armrios no
ginsio? Talvez fosse a namorada secreta de Jason ligando, sabendo que o nico meio de fazer
com que o pessoal de Rosewood Day o avisasse seria dizer que era um membro da famlia.
        -- Eu imaginei que fosse uma garota linda e madura, com quem voc realmente
quisesse falar, e no uma menina maluca do sexto ano -- concluiu Aria, corando.
        Jason concordou lentamente, o reconhecimento claro em seu rosto.
        Ele resmungou alguma coisa por entre os dentes, algo que soara como no exatamente.
        -- Como? -- perguntou Aria.
        -- Nada. --Jason virou o resto do segundo gimlet. Em seguida, olhou para ela, um tanto
timidamente. -- Bem, estou feliz por voc ter deixado seu interesse um pouco mais claro, agora.
        Um arrepio percorreu a espinha de Aria.
        -- Talvez seja mais que interesse -- sussurrou ela.
        -- Espero que sim -- disse Jason.
        Eles sorriram um para o outro. O corao de Aria lhe martelava os ouvidos.
        A porta da frente se abriu, e um grupo de alunos de Hollis entrou.
        Algum no canto do salo acendeu um cigarro, soprando a fumaa no ar. Jason checou
seu relgio e colocou a mo no bolso.
        -- Estou realmente atrasado. -- Ele apanhou a carteira e tirou uma nota de vinte, o
suficiente para pagar pelas bebidas dos dois. Depois, olhou para Aria. -- Bem...
        -- Bem... -- repetiu ela. E a,Aria se inclinou para frente, agarrou a mo dele e beijou-o
da forma que quisera beij-lo anos antes, do lado de fora da sala de jornalismo. Os lbios dele
tinham gosto de suco de lima e vodca, e Jason a puxou para mais perto, enterrando as mos nos
cabelos dela. Depois de um momento, eles se afastaram, sorrindo. Aria achou que fosse
desmaiar.
        -- Bem, vejo voc depois -- disse Jason.
        -- Com certeza -- suspirou Aria. Jason atravessou o salo, abriu a porta e se foi. --
Oh, meu Deus -- murmurou ela, voltando-se para o bar.
         Uma parte sua queria subir no banquinho do bar e gritar para o mundo todo o que
acabara de acontecer. Precisava contar aquilo para algum. Mas Ella estava ocupada com
Xavier. Mike no se importaria. Havia Emily, mas ela poderia ser uma desmancha-prazeres,
determinada a acreditar que Ali era boa, no fundo do corao, e Jason no era.
         Seu telefone tocou. Aria deu um pulo e olhou para o aparelho. Uma nova mensagem de
texto, dizia o visor. O remetente era Desconhecido.
         A excitao de Aria diminuiu imediatamente.
         Ela olhou em volta, para o bar lotado. As pessoas estavam sentadas nos sofs,
conversando. Um garoto com idade para estar na faculdade, com dreadlocks, cochichava com o
barman, olhando de vez em quando na direo de Aria. Uma corrente de vento veio do fundo do
salo, fazendo as chamas das velas se inclinarem para a direita. Era como se uma porta invisvel
tivesse se aberto e fechado.
       Uma nova mensagem de texto.
       Aria correu as mos pelos cabelos. Lentamente, ela pressionou o boto "ler".
       Gostou dos seus gimlets?
       Bem, sinto muito, querida, mas a fantasia acabou.
       O irmo mais velho est escondendo algo de voc.
       E acredite em mim... voc no quer saber o que .  A
                                          15
                                      EN GARDE, KATE!
Uma hora depois, na mesma noite, Hanna estava parada do lado de fora da casa
assustadoramente modernista dos Montgomery, esperando que Mike aparecesse. Mais cedo,
naquele dia, ela telefonara para seu pai no trabalho e lhe perguntara se poderia ir  biblioteca
naquela noite, para estudar para uma prova de francs... sem Kate, por favor?
         Ela precisava ficar sozinha para conseguir decorar a longa lista de verbos irregulares,
explicou ao sr. Marin.
         -- Tudo bem -- concordou seu pai, mal-humorado. Ainda bem que ele estava
afrouxando um pouco a regra de Hanna ir-aonde-Kate-for; no dia anterior, ele deixara Hanna
comprar o presente do ch de beb de Meredith sozinha, tambm. E parecia que ele tambm
permitira que Kate fizesse algumas compras para o beb... na mesma loja.
         Imediatamente depois que Hanna recebera do pai seu passe livre da "priso Kate", ela
enviara uma mensagem de texto para Mike, dizendo que queria que ele a levasse para sair... s
os dois. O que seu pai no sabia no poderia mago-lo.
         Ela olhou pela janela, para as pequenas luzes cbicas do prtico da casa dos
Montgomery. Fazia sculos que Hanna no vinha  casa de Aria e se esquecera de como era
estranha. A frente da casa tinha apenas uma janela, colocada de forma meio torta em cima da
escadaria. A parte de trs da casa, entretanto, era toda de janelas, estendendo-se do primeiro ao
terceiro andar. Uma vez, quando Hanna e as outras estavam na casa de Aria, observando uma
famlia de cervos passear pelo quintal, Ali olhara para as janelas enormes e estalara a lngua.
         --Vocs no se preocupam com pessoas lhes espionando? -- Ela cutucou Aria. -- Mas
acho que os seus pais no tm nenhum segredo que no queiram que os outros descubram, no
? -- Aria enrubescera e sara da sala. Hanna no imaginara por que Aria ficara to aborrecida,
mas agora ela sabia. Ali descobrira que o pai de Aria estava tendo um caso, e estava torturando
Aria com aquela informao, do mesmo modo que costumava torturar Hanna por causa da
mania de comer e vomitar.
         Que vagabunda.
         Mike apareceu na varanda. Ele usava jeans escuros, um casaco comprido de l com a
gola virada para cima, e carregava um enorme buqu de rosas. Hanna sentiu um friozinho no
estmago. No que ela estivesse excitada com aquele encontro, nem nada parecido. Mas era
muito bom receber flores em um dia to cinzento de inverno.
         -- Elas so lindas! -- disse ela, quando Mike abriu a porta. -- Voc no deveria.
         --Tudo bem -- Mike abraou as flores contra o peito, amassando o celofane. --Vou
d-las para a minha outra namorada.
         Hanna agarrou o brao dele.
         -- No se atreva. --Aquilo definitivamente no era engraado, no depois da gracinha
que ele tinha aprontado com Hanna e Kate no ch de beb, no dia anterior. Ela tamborilou os
dedos no volante de seu Prius. -- E ai, para onde vamos?
         --Ao King James -- provocou Mike.
         Hanna olhou para ele, irritada.
         -- Nada de Rive Gauche. -- Com a sorte dela, Lucas seria o garom deles. Muito
esquisito.
         -- Eu sei -- disse Mike. --Vamos fazer compras.
         Hanna torceu o nariz.
         --R.
         -- Estou falando srio. -- Mike levantou as mos. -- Quero que voc faa compras a
noite inteira. Sei que  isso que garotas adoram fazer, e s quero fazer voc feliz.
         A expresso sincera dele no se alterou. Hanna colocou o carro em marcha.
         --  melhor a gente ir, ento, antes que voc mude de ideia.
         Eles pegaram um caminho menos movimentado para o shopping, e Hanna desacelerava
toda vez que via um sinal de travessia de cervos. Aqueles animais eram perigosos, naquela
poca do ano.
         Mike colocou um CD no som do Prius. Uma pesada linha de baixo encheu o carro,
seguido pela voz aguda de um cantor. Mike comeou a cantar imediatamente. Hanna
reconheceu a msica e comeou a cantar baixinho tambm.
         Mike olhou para ela.
         --Voc sabe quem est cantando?
         -- Led Zeppelin -- respondeu Hanna distrada. Sean Ackard, o ex-ex-namorado de
Hanna, havia tentado comear a ouvir a banda no ltimo vero (ao que parecia, aquilo era uma
coisa tpica dos times de futebol e lacrosse de Rosewood Day), mas decidira que a banda era
pesada e depressiva demais para seus ouvidos puros e virginais. Mike franziu a sobrancelha,
incrdulo. -- O que foi? Voc achava que eu ouvia Miley Cyrus? --provocou ela. -- Ou Jonas
Brothers?
         Na verdade, Kate ouvia os Jonas Brothers. E trilhas sonoras dos musicais da Broadway.
         Quando Hanna parou o carro no estacionamento do Shopping King James, ambos
estavam berrando a letra de "Dazed and Confused" a plenos pulmes. Mike sabia cada verso de
cor, e fez uma imitao dramtica do solo de guitarra no ar, o que causou uma crise de riso em
Hanna.
         O estacionamento do shopping estava lotado. Havia uma loja Home Depot  esquerda,
as portas da Bloomingdale's ao centro, e o setor de luxo, com lojas como Louis Vuitton e Jimmy
Choo, ficava  direita. Quando eles saram para o ar frio da noite, Hanna ouviu algum grunhir.
         Um homem estava ao lado de um carro branco no setor  frente do Home Depot,
lutando para colocar um galo pesado, de algo que se parecia com propano, no porta-malas.
Quando ele saiu da frente de Hanna, ela notou a pintura nas portas do carro. Departamento de
Policia de Rosewood. O homem tinha um queixo anguloso e um nariz pontudo. Uma cabeleira
negra escapava por sob seu gorro de l preta. Wilden?
         Hanna observou enquanto ele erguia o segundo galo de propano, lutando para que
coubesse no porta-malas junto ao outro. A casa dele no tinha um aquecedor normal? Ela pen-
sou em acenar, mas se virou. Wilden tinha dito  imprensa que elas haviam inventado a histria
sobre ver o corpo de Ian na floresta. Ele virara a cidade de Rosewood inteira contra elas.
         Babaca.
         --Vamos -- disse ela a Mike, lanando um ltimo olhar para Wilden.
         Ele havia fechado o porta-malas e agora segurava o celular contra o ouvido, com a
postura rgida e os ombros duros. Hanna se lembrou de uma ocasio alguns meses antes, quando
Wilden e sua me estavam saindo juntos. Ele passara a noite em sua casa e, logo pela manh,
Hanna ouvira sussurros no corredor. Quando ela espiara, vira Wilden de p na frente da janela,
olhando para o quintal, seu corpo rgido, a voz rouca e spera. Com quem diabos ele estaria
falando? Seria sonmbulo? Hanna voltou correndo para a cama antes que Wilden a notasse.
Honestamente, o que sua me vira naquele cara? Wilden era bonito, mas no to bonito.
Quando Hanna o flagrara saindo do chuveiro, alguns meses antes, ele nem parecera to fabuloso
seminu. No que ela estivesse interessada nele nem nada, mas Hanna tinha a sensao de que o
fantico por lacrosse Mike seria muito mais gostoso.
Otter, a butique favorita de Hanna, ficava entre as lojas Cartier e LouisVuitton. Ela entrou,
inalando o perfume das velas aromticas. Uma msica da Fergie tocava nos alto-falantes, e
araras cheias de modelos Catherine Malandrino, Nanette Lepore e Moschino se estendiam 
frente dela. Ela suspirou, feliz. As jaquetas de couro eram brilhantes e luxuosas. Os vestidos de
seda e as echarpes difanas pareciam tecidos em ouro. Sasha, uma das vendedoras, viu Hanna e
acenou. Hanna era uma das melhores clientes da Otter.
        Ela imediatamente selecionou alguns vestidos, deliciando-se com o som que os cabides
de madeira faziam quando colocados juntos.
        --Voc gostaria que eu colocasse estes vestidos no trocador? -- perguntou uma falsa
voz feminina. Hanna se virou e Mike estava parado bem a seu lado.
        -- Eu j preparei uma sala para voc com algumas das minhas escolhas favoritas --
completou ele.
        Hanna deu um passo para trs.
        --Voc escolheu roupas para mim?
        Aquilo era algo que ela precisava ver. Ela se dirigiu at o nico trocador que tinha a
cortina de veludo amarrada do lado. Algumas roupas pendiam do cabide prximo ao espelho.
Primeiro, um par de calas de couro pretas, justas e de cintura alta. Depois, uma tnica prateada,
com um decote profundo em V na frente, e aberturas laterais. Por debaixo, havia trs biqunis,
com sutis de bojo e calcinhas fio-dental.
        Hanna se virou para Mike e revirou os olhos.
        -- Boa tentativa, mas o inferno vai congelar antes que voc me convena a vestir
qualquer uma dessas peas. -- Ela olhou para as calas de couro novamente. Interessante, Mike
achava que ela vestia 36.
        Mike fez uma cara decepcionada.
        --Voc no vai nem experimentar os biqunis?
        -- No para voc -- provocou Hanna. --Voc vai ter que usar a imaginao.
        Fechando as cortinas, ela no pde evitar um sorriso. Mike merecia alguns pontos por
ser to criativo. Ela colocou sua bolsa de veludo cor de ameixa num banquinho de couro e
desamarrou seu pedao da bandeira da Cpsula do Tempo, que havia amarrado na ala. Depois
de pensar um pouco, Hanna decidira decorar a pea em homenagem a Ali, incorporando os
desenhos originais de Ali no sexto ano. O logotipo Chanel estava ao lado do sapinho de mang.
Uma jogadora de hquei arremessava uma bola na direo das iniciais da Louis Vuitton. Hanna
ficara muito satisfeita com o resultado.
        Virando-se, ela tirou o suter, desabotoou o suti e abaixou o zper das calas,
chutando-as para o lado. Quando estava estendendo a mo para apanhar o primeiro vestido, a
cortina do trocador se abriu e a cabea de Mike apareceu.
        Hanna soltou um grito e cobriu os seios.
        -- Que diabos  isso? -- guinchou ela.
        -- Opa! -- Mike praticamente relinchou. -- Droga. Desculpe, Hanna. Pensei que esta
fosse a porta do banheiro. Esse lugar parece um labirinto! -- Os olhos dele pararam no colo de
Hanna. Em seguida, se moveram para a lingerie de renda que ela usava.
        -- Sai daqui! -- rugiu Hanna, dando um chute em Mike com o p descalo.
        Alguns minutos depois, ela saiu do trocador com um dos vestidos pendurado no brao.
Mike estava empoleirado na cadeira, perto dos espelhos triplos. Ele parecia um cachorrinho
travesso que acabara de destruir as botas novas do dono.
        --Voc est zangada? -- perguntou ele.
        -- Estou -- respondeu Hanna, num tom glido. Na verdade, ela no estava to
aborrecida. Era at um tanto lisonjeiro que Mike estivesse to ansioso para ver o corpo dela.
Mas ela queria se vingar.
        Hanna pagou pelo vestido e Mike lhe perguntou se ela queria jantar.
        -- No no Rive Gauche -- lembrou a ele.
        -- Eu sei, eu sei -- disse Mike. -- Mas eu conheo um lugar ainda melhor.
        Ele a levou ao Ano do Coelho, um restaurante chins perto da Prada. Hanna torceu o
nariz. Ela podia praticamente sentir seu quadril se expandindo, s de estar perto de todo aquele
leo, gordura e molho que os restaurantes chineses costumavam usar em seus pratos. Mike
percebeu a expresso de nojo no rosto dela.
        -- No se preocupe -- garantiu ele. --Vou cuidar de voc.
        Uma moa asitica magrrima, com um coque preso com pauzinhos, os acompanhou at
uma mesa discreta, e lhes serviu xcaras de ch verde escaldante. Havia um gongo no canto da
parede, e um grande Buda de jade olhando para eles de cima de uma prateleira. Um garom
chins idoso apareceu e lhes entregou os cardpios. Para o assombro de Hanna, Mike lhe disse
algumas palavras em mandarim. Ele apontou para ela e o garom concordou, antes de sair. Mike
se recostou no assento, batendo no centro do gongo com o polegar e o indicador, com uma
expresso satisfeita.
        Hanna estava surpresa.
        -- O que foi que voc disse a ele?
        -- Eu disse a ele que voc era uma modelo de lingerie e precisava manter seu corpo em
perfeita forma, e gostaramos de ver o cardpio especial de baixas calorias -- explicou Mike
com displicncia. -- Eles odeiam dar esse cardpio aos fregueses. Voc tem que saber como
pedir.
        --Voc sabe dizer modelo de lingerie em chins? -- balbuciou Hanna.
        Mike passou o brao pelas costas do banco de couro.
        -- Eu aprendi algumas coisas durante aquele tempo entediante que passei na Europa. O
termo modelo de lingerie  a primeira coisa que eu aprendo em qualquer lngua.
        Hanna balanou a cabea, fascinada.
        --Uau.
        -- E a, voc no se importa que o garom pense que voc  uma modelo de lingerie?
-- perguntou Mike.
        Hanna deu de ombros.
        -- Na verdade, no.
        Modelos de lingerie eram bonitas, afinal de contas. E magrrimas.
        O rosto de Mike se iluminou.
        -- timo. Eu trouxe a minha ltima namorada aqui, mas ela no achou essa histria de
cardpio especial engraada. Ela achou que eu a estava tratando como objeto, ou alguma boba-
gem parecida.
        Hanna tomou um golinho de ch; ela no sabia que Mike tinha tido outras namoradas.
        -- Foi... uma namorada recente?
        O garom lhes entregou os cardpios, o regular para Mike, o de baixa caloria para
Hanna.
        Depois que ele se afastou, Mike concordou.
        -- Ns acabamos de terminar. Ela ficava reclamando o tempo todo de como eu estava
preocupado demais em ser popular.
        -- Lucas dizia isso tambm -- disse Hanna, antes que pudesse se controlar. -- Ele no
gostou de eu ter dito a todos que Kate tinha herpes. -- Ela franziu a testa, irritada por ter dito o
nome de Kate em voz alta. Mike provavelmente iria defend-la. Mas ele apenas deu de ombros.
        -- Eu tive que fazer aquilo -- continuou Hanna. -- Pensei que ela fosse...-- ela se
interrompeu.
        -- Pensou que ela fosse o qu? -- perguntou Mike.
        Hanna balanou a cabea.
        -- Eu pensei que ela fosse dizer alguma coisa cruel sobre mim.
        Hanna pensara que Kate iria contar a todos que ela costumava forar o vmito, algo que
infelizmente admitira para Kate em um momento de fraqueza. E tinha certeza de que Kate teria
contado, se Hanna no tivesse revelado sobre o herpes primeiro.
        Mike sorriu com simpatia.
        --s vezes, voc precisa jogar sujo.
        -- Um brinde a isso. -- Hanna ergueu seu copo d'gua e tocou-o no de Mike,
agradecida por ele no ter pressionado para saber o que era a coisa cruel que Kate iria revelar.
Eles terminaram de jantar e comeram os bombons de laranja que vieram com a conta. Mike
cumprimentou Hanna sugestivamente pelas suas habilidades em chupar o bombom, e a
aconselhou a reservar um pouco daquela energia para mais tarde. Em seguida, pediu licena
para ir ao banheiro.
         Hanna observou-o andar por entre as mesas, percebendo que aquela seria sua chance de
se vingar. Lentamente, ela se levantou, colocou o guardanapo no prato e esgueirou-se pelo
corredor. Ela esperou at a porta do banheiro masculino se fechar, contou at dez e entrou
correndo.
         -- Opa! -- gritou ela. Sua voz ecoou pelo banheiro vazio.
         Havia uma fila de urinis, mas Mike no estava junto a nenhum deles, e ela tambm no
viu seus sapatos Tod's por debaixo das portas das cabines. Hanna ouviu um pequeno som que
vinha da rea onde ficavam as pias e foi at l.
         Mike estava de p ao lado de uma das pias, com um pente, uma lata de desodorante e
um tubo de pasta de dentes no balco  sua frente. Ele tinha uma escova de dente na mo.
Quando Mike viu Hanna no espelho, a cor desapareceu de seu rosto.
         Hanna deu uma gargalhada.
         --Voc est se arrumando?
         -- O-o que voc est fazendo aqui? -- gaguejou ele.
         -- Me desculpe, achei que este era o trocador -- disse Hanna. Mas aquilo no teve o
efeito que ela esperava. Mike piscou e colocou suas coisas rapidamente na bolsa estilo carteiro
Jack Spade. Hanna se sentiu um pouco mal, ele no precisava parar. Ela se afastou da pia.
         -- Estou esperando l fora -- balbuciou ela.
         Hanna saiu do banheiro e voltou para a mesa, sorrindo para si mesma. Mike estava
escovando os dentes. Aquilo significava que ele queria beij-la?
         No caminho de volta para a casa de Mike, eles ouviram "Whole Lotta Love",
novamente berrando a letra a plenos pulmes. Ela estacionou o carro junto da entrada e desligou
o motor.
         -- Quer me acompanhar at a porta? -- perguntou ele.
         -- Claro -- respondeu Hanna, percebendo que seu corao estava disparado. Ela seguiu
Mike pelos degraus de pedra, at a varanda da casa dos Montgomery. Havia um pequeno jardim
Zen  esquerda da porta, mas estava congelado, com uma crosta fina de gelo sobre a areia.
         Mike olhou para ela. Hanna gostava do fato de ele ser bem mais alto que ela. Lucas era
da sua altura, e Sean, seu ex-ex, era um pouco mais baixo.
         -- Bem, isso foi quase to divertido como quando eu saio com as minhas prostitutas --
anunciou Mike.
         Hanna revirou os olhos.
         -- Talvez voc possa dar um sbado de folga para as suas prostitutas. O que voc acha
de vir comigo  festa de inaugurao do hotel Radley?
         Mike colocou o polegar no queixo, fingindo pensar no assunto.
         -- Acho que isso pode ser providenciado.
         Hanna riu. Mike tocou levemente o brao dela. O hlito dele tinha cheiro de hortel.
Quase inconscientemente, ela se aproximou um pouco mais.
         A porta se abriu de repente. Uma luz brilhante veio do vestbulo da casa dos
Montgomery e Hanna se afastou. Uma morena alta estava de p na porta. No era a me de
Mike, e certamente no era Aria. O corao de Hanna quase parou.
         -- Kate? -- gritou ela.
         -- Oi, Mike! -- gritou Kate, ao mesmo tempo.
         Hanna apontou para ela.
         -- O que voc est fazendo aqui?
         Kate piscou inocentemente.
         -- Eu cheguei aqui cedo, e a me de Mike me deixou entrar. -- Ela olhou para Mike. --
Ela  super legal. E o trabalho dela  incrvel. Ela me disse que tem uma pea que vai estar no
lobby do hotel Radley e que vai haver uma grande inaugurao este sbado. Ns devamos ir
juntos, o que voc acha?
         -- Como assim, voc chegou aqui cedo? -- interrompeu Hanna.
         Kate apertou a mo contra o peito.
         -- Mike no contou? Ns temos um encontro.
        Hanna olhou para Mike.
        -- No, Mike no me contou.
        Mike umedeceu os lbios, parecendo culpado.
        -- Bem, isso  estranho! -- observou Kate. -- Ns combinamos ontem.
        Mike olhou para Kate.
        -- Mas voc me disse para no dizer nad...
        -- Alm disso -- interrompeu Kate, usando seu tom de voz inocente mais uma vez --,
voc no deveria estar na biblioteca, Han? Quando eu no a vi no auditrio durante o ensaio de
Hamlet, eu liguei para o Tom. Ele me disse que voc tinha que estudar para uma prova
importante de francs. -- Ela passou por Hanna e tomou o brao de Mike. -- Tudo pronto? Vou
levar voc em um lugar incrvel para comermos sobremesa.
        Mike concordou e olhou de volta para Hanna, cujo queixo estava praticamente no cho.
Ele levantou os ombros, num sinal de desculpas, como se dissesse "no estamos em um
relacionamento exclusivo, no ?".
        Surpresa, Hanna os observou enquanto desciam as escadas at a rua, onde o Audi que
pertencia a Isabel, me de Kate, estava estacionado. Hanna estivera to distrada, pensando em
como seu encontro com Mike terminaria, que nem tinha percebido. Seria por isso que Mike
estava se arrumando no restaurante? Para ficar pronto para o encontro nmero dois? Depois da
noite fabulosa que eles tiveram, por que ele ainda estava mantendo suas opes em aberto?
Como ele poderia no querer ter um relacionamento exclusivo?
        O motor do Audi roncou e o carro desceu a rua antes de desaparecer. No silncio que se
seguiu, Hanna ouviu um barulho, como se algum estivesse fungando atrs dela. Ela se virou,
com o corpo todo tenso. Outro barulho. Parecia que algum estava se esforando para no rir.
        -- Ol? -- chamou Hanna baixinho, no meio do jardim escuro dos Montgomery.
Ningum respondeu, mas Hanna ainda tinha a sensao distinta de que algum estava ali. A?
Um arrepio a percorreu, chegando at seus ossos, e ela saiu correndo do prtico o mais rpido
que pde.
                                         16
                              SPENCER HASTINGS, FUTURA
                               CAIXA DE SUPERMERCADO
Naquela mesma noite, Spencer estava sentada no sof da sala de televiso, assistindo ao
noticirio. Um reprter estava falando novamente sobre como a polcia havia vasculhado cada
centmetro do trecho da floresta atrs da casa dela, e que estavam agora procurando Ian por
todos os cantos do pas. Naquele dia, algum na fora policial recebera uma pista sobre o
paradeiro dele, mas nenhum novo detalhe seria revelado por enquanto.
         Spencer grunhiu.
         Logo depois do noticirio passou um comercial da Estao de Esqui Elk Ridge -- eles
haviam aberto mais seis pistas, e estavam apresentando a promoo Garotas esquiam de graa
nas quintas-feiras. A campainha tocou e Spencer se levantou rapidamente, ansiosa para
concentrar a ateno em coisas mais positivas. Andrew estava parado  porta, tremendo.
         -- Eu tenho tanta coisa para contar! -- guinchou Spencer.
         --  mesmo? -- Andrew entrou, carregando seu livro de economia debaixo do brao.
Spencer fungou, sem demonstrar simpatia. Como se economia significasse alguma coisa.
         Spencer levou-o pela mo at a sala de televiso, fechou a porta e desligou a tev.
         -- Bem, voc sabe que eu mandei um e-mail para a minha me biolgica na segunda-
feira, no sabe? Ento, ela me respondeu. E ontem mesmo eu fui encontr-la em Nova York.
         Andrew piscou.
         -- Nova York?
         Spencer concordou.
         -- Ela me mandou uma passagem do trem-bala da Amtrak Acela e me pediu que a
encontrasse na Estao Penn. E foi maravilhoso. -- Ela apertou as mos de Andrew. -- Olivia 
jovem, inteligente, e... normal. Ns nos entendemos imediatamente. No  fantstico? -- Ela
pegou o telefone e mostrou a ele a mensagem de texto que Olivia lhe mandara na noite anterior,
j bem tarde, provavelmente quando chegara ao aeroporto.
       Querida Spencer, j estou com saudade! Vejo voc em
       breve! Beijos, O.
        Spencer lhe respondera, dizendo que estava com a pasta dela, e Olivia escrevera de
volta pedindo que ela a guardasse -- e que ela e Morgan dariam uma olhada nela assim que
voltassem.
        Andrew mexia na cutcula de seu polegar.
        -- Quando perguntei a voc o que estava fazendo ontem, voc respondeu que estava
jantando com sua famlia. Quer dizer... Voc mentiu?
        Spencer abaixou os ombros. Por que Andrew estava discutindo semntica?
        -- Eu no queria falar sobre o encontro antes que ele acontecesse. Fiquei com medo de
estragar tudo. Eu ia lhe contar na escola, mas tivemos um dia cheio. -- Ela se recostou. --
Estou pensando seriamente em me mudar para Nova York para ficar com Olivia. Ficamos
separadas por tanto tempo, no quero passar mais um minuto longe dela. Ela e o marido se
mudaram para uma rea tima no Village, e h vrias escolas excelentes na cidade, e... -- Ela
percebeu a expresso tristonha de Andrew e parou de falar. --Voc est bem?
         Andrew estava olhando para o cho.
         -- Claro -- murmurou ele. -- So timas notcias. Estou muito feliz por voc.
         Spencer correu as mos pela nuca, sentindo-se subitamente insegura. Ela esperara que
Andrew ficasse animado com o fato de ela ter encontrado a me biolgica -- ele a incentivara a
se registrar naquele site de mes biolgicas, afinal de contas.
         --Voc no me parece muito feliz -- disse ela, cautelosa.
         -- No, no, eu estou. -- Andrew deu um pulo e bateu o joelho com fora na mesinha
de centro. -- Opa, eu me esqueci de uma coisa! Eu... Eu deixei o livro de clculo na escola.
Acho que devo ir busc-lo. Ns temos todos aqueles problemas de lio de casa. -- Ele juntou
seus livros e foi at a porta.
         Spencer agarrou-o pelo brao. Ele parou, mas no olhou para ela.
         -- O que est acontecendo? -- perguntou ela, seu corao batendo muito rpido.
         Andrew apertou os livros contra o peito.
         -- Bem... Quero dizer... Talvez voc esteja indo rpido demais com essa histria de
Nova York. Voc no deveria discutir o assunto com os seus pais?
         Spencer fez uma careta.
         -- Eles provavelmente ficariam felizes se eu fosse embora.
         -- Voc no tem certeza disso -- argumentou Andrew, olhando para ela com tristeza e
desviando o olhar rapidamente. -- Seus pais esto zangados com voc, mas sei que no a
odeiam. Voc ainda  a filha deles. Eles podem no deixar voc ir para Nova York.
         Spencer abriu a boca e fechou-a rapidamente de novo. Seus pais no ficariam no
caminho daquela oportunidade... Ficariam?
         -- E voc acabou de conhecer a sua me -- disse Andrew, parecendo mais e mais
contrariado. -- Quero dizer, voc mal a conhece. No acha que est indo um pouco depressa
demais?
         -- Sim, mas me parece certo -- insistiu Spencer, desejando que ele pudesse
compreender. -- E se eu estiver mais perto dela, poderei conhec-la melhor.
         Andrew deu de ombros e se virou novamente.
         -- No quero ver voc magoada.
         -- O que voc quer dizer? -- Spencer teimou, frustrada. -- Olivia jamais me magoaria.
         Andrew apertou os lbios. Na cozinha, um dos labradoodles da famlia comeou a
beber gua da tigela. O telefone tocou, mas Spencer no se moveu para atend-lo, esperando
que Andrew se explicasse. Ela olhou para a pilha de livros nos braos dele. Em cima do livro de
economia, havia um pequeno convite, quadrado. Por favor, junte-se a ns para a inaugurao
do Hotel Radley, dizia o carto, impresso de forma elegante.
         -- O que  isso? -- Spencer apontou para o convite.
         Andrew olhou para o pedao de papel, e o colocou dentro do caderno.
         -- Algo que chegou pelo correio. Devo ter pegado por engano.
         Spencer olhou para ele. As bochechas de Andrew estavam vermelhas, como se ele
estivesse tentando no chorar. De repente... Spencer compreendeu. Ela quase podia ver Andrew
recebendo o convite do Radley e correndo para l, ansioso para convid-la para acompanh-lo.
Isto deve compensar pelo Foxy, ele provavelmente planejara dizer, referindo-se ao desastroso
baile de caridade ao qual haviam comparecido juntos no outono. Talvez toda aquela bobagem a
respeito de Spencer ir devagar com as coisas, e de no querer que ela se magoasse, fosse real-
mente porque Andrew no queria que ela partisse.
         Ela tocou o brao dele gentilmente.
         -- Eu vou voltar para visit-lo. E voc pode ir me visitar, tambm.
         Uma expresso de extremo constrangimento passou pelo rosto de Andrew. Ele tentou
disfarar.
         -- Eu... Eu preciso mesmo ir. -- Ele praticamente tropeou para fora da porta e pelo
corredor. --Vejo voc na escola amanh.
         -- Andrew! -- protestou Spencer, mas ele j tinha colocado o casaco e sado. O vento
bateu a porta com tanta fora que a pequena esttua de madeira de um labradoodle, que ficava
em cima da mesa, caiu.
         Spencer foi para a janela ao lado da porta da frente e observou Andrew correndo pela
calada at seu Mini Cooper. Ela colocou a mo na maaneta, pensando em ir atrs dele, mas
uma parte dela no quis fazer isso. Andrew deu a partida rpido e saiu cantando pneus.
         Um n enorme se formou na garganta de Spencer. O que acabara de acontecer? Eles
tinham terminado tudo? Agora que havia a possibilidade de Spencer ir embora, Andrew no
queria mais nada com ela? Por que ele no estava feliz por ela? Por que ele estava pensando
apenas em si mesmo e no que ele queria?
         Instantes depois, a porta de trs bateu e Spencer deu um pulo. Ela ouviu passos e depois
a voz do sr. Hastings. No falava com os pais desde antes de sua viagem a Nova York, mas
sabia que deveria faz-lo. Mas e se Andrew estivesse certo? E se eles a impedissem de se mudar
para l?
         Ela apanhou seu casaco de gola alta de tweed, pendurado nas costas da cadeira da sala
de estar, e as chaves do carro, subitamente amedrontada. No havia chance de Spencer
conversar com eles sobre aquilo naquele momento. Precisava sair um pouco de casa, tomar um
cappuccino e esfriar a cabea. Mas, ao descer os degraus da frente em direo  calada, ela
parou, surpresa. Seu carro desaparecera. O local onde normalmente estacionava o pequeno
Mercedes cup estava vazio. Mas Spencer o deixara ali poucas horas depois da escola. Teria se
esquecido de ligar o alarme? Algum o teria roubado? A?
         Ela correu de volta para a cozinha. A sra. Hastings estava parada junto ao fogo,
colocando alguns legumes em uma grande panela de sopa. O sr. Hastings estava se servindo de
uma taa de Malbec.
         -- Meu carro sumiu -- gritou Spencer. -- Acho que algum o roubou.
         O sr. Hastings continuou a servir o vinho calmamente. A sra. Hastings apanhou uma
tbua de cortar de plstico, sem sequer pestanejar.
         -- Ningum o roubou -- disse ela.
         Spencer ficou paralisada. Ela se apoiou na beirada do balco da cozinha.
         -- Como voc sabe que ningum o roubou?
         A boca de sua me estava torcida, como se estivesse comendo algo azedo. Sua camiseta
preta estava muito apertada sobre os ombros largos e o busto. Ela segurava uma faca com fora
na mo, brandindo-a como uma arma.
         -- Porque seu pai o levou para a concessionria esta tarde.
         Os joelhos de Spencer ficaram fracos e ela se virou para o pai.
         -- O qu? Por qu?
         -- Porque era um bebedor de gasolina -- respondeu a sra. Hastings por ele. -- Temos
que comear a pensar sobre a economia e o meio ambiente. -- Ela deu um sorriso cnico para
Spencer e se voltou novamente para a tbua de cortar.
         -- Mas... -- O corpo de Spencer parecia eletrificado. --Vocs acabaram de herdar
milhes de dlares! E... aquele carro no  um bebedor de gasolina! Ele  muito mais
econmico que o utilitrio de Melissa! -- Ela se virou para o pai. Ele ainda a estava ignorando,
saboreando seu vinho. Ser que ele no se importava?
         Enfurecida, Spencer agarrou o pulso dele.
         --Voc tem algo a dizer?
         -- Spencer -- falou o sr. Hastings com voz firme, soltando a mo, o cheiro de vinho
tinto enchendo as narinas de Spencer --, voc est sendo dramtica. Ns j conversamos sobre
vender o seu carro h algum tempo, lembra-se? Voc no precisa de um carro s seu.
         -- Mas como eu vou fazer para me locomover? -- choramingou Spencer.
         A sra. Hastings continuou a cortar as cenouras em pedaos cada vez menores. A faca
fazia um som abafado contra a tbua de cortar.
         -- Se voc quiser comprar um carro novo, faa o que a maioria dos jovens da sua idade
faz. -- Ela colocou as cenouras na panela. -- Arrume um emprego.
         -- Um emprego? -- Spencer quase engasgou. Seus pais nunca a haviam feito trabalhar
antes. Ela pensou em todas as pessoas em Rosewood Day que tinham empregos. Elas
trabalhavam na Gap ou no King James. Na barraquinha de pretzels da tia Anne. Na Wawa,
fazendo sanduches.
         -- Ou pegue o nosso carro emprestado -- disse a sra. Hastings. -- E eu ouvi falar que
h uma nova e maravilhosa inveno que leva as pessoas para os mesmos lugares que os carros.
-- Ela colocou a faca na tbua de cortar. -- Chama-se nibus.
         Spencer olhou espantada para os dois, seus ouvidos zumbindo. Em seguida, para sua
surpresa, uma sensao de paz a invadiu. Ela tivera sua resposta. Seus pais realmente no a
amavam. Se a amassem, no estariam tentando tirar tudo dela.
         --Tudo bem -- disse ela, dando-lhes as costas. -- No  como se eu fosse continuar
aqui por muito tempo, de qualquer forma. -- Enquanto ela saa da cozinha, ouviu a taa do pai
bater contra o balco de granito.
         -- Spencer! -- chamou o sr. Hastings. Mas era tarde demais.
         Spencer correu para seu quarto, no andar de cima. Normalmente, depois que seus pais
lhe repreendiam ou rejeitavam, lgrimas lhe escorriam pelas faces e ela se atirava na cama,
imaginando o que havia feito de errado. Mas no desta vez. Ela foi at sua escrivaninha e
apanhou o folder que Olivia estava carregando no dia anterior. Respirando fundo, ela o
examinou. Como Olivia lhe dissera, a pasta estava cheia de papis sobre o apartamento que ela e
o marido tinham comprado, detalhes sobre as dimenses dos quartos, os materiais do piso e dos
armrios, e as facilidades que havia no prdio -- uma pet shop, uma piscina olmpica e um
salo de beleza Elizabeth Arden. Grampeado  capa do folder, havia um carto de visitas.
         Michael Hutchins, corretor de imveis.
         Michael, nosso corretor, pode encontrar algo realmente especial para voc, dissera
Olivia durante o jantar.
         Spencer olhou em volta do quarto, examinando seu contedo. Todos os mveis, desde a
cama de dossel at a escrivaninha antiga, passando pelo armrio de cerejeira e a penteadeira
Chippendale, lhe pertenciam. Ela os havia herdado de sua tia-av Millicent -- aparentemente,
ela no tivera a mesma animosidade a respeito de crianas adotadas. Obviamente, teria que levar
suas roupas, sapatos, bolsas e a coleo de livros, tambm. Provavelmente, tudo caberia em um
trailer de mudanas. Talvez ela mesma pudesse dirigir, se fosse necessrio.
         Seu telefone vibrou e Spencer deu um pulo. Ela apanhou o celular rapidamente,
esperando que Andrew estivesse ligando para fazer as pazes, mas quando viu que era um texto
de um Desconhecido, seu corao quase parou.
       Querida Pequenina Senhorita Spencer-Seja-L-Qual-For-
       O-Seu-Nome, voc j no deveria saber o que acontece
       quando no me ouve?
       Usarei palavras curtas desta vez, para voc entender.
       Ou voc esquece a mamezinha perdida por um tempo e
       continua a investigar o que realmente aconteceu... Ou vai
       pagar o preo.
       O que voc acharia de desaparecer para sempre? - A
                                          17
                             AH, COMO NOS VELHOS TEMPOS!
Mais tarde, naquela noite, depois do treino de natao, Emily sentou-se a sua mesa preferida no
Applebee's, a que ficava abaixo de uma velha bicicleta dupla pendurada no teto e de placas de
carro coloridas nas paredes. Sua irm Caro1yn, Gemma Curran e Lanie Iler -- duas outras
nadadoras de Rosewood Day -- juntaram-se a ela. O salo de jantar cheirava a batatas fritas e
hambrgueres, e uma velha cano dos Beatles tocava nos alto-falantes. Quando Emily abriu o
cardpio, ficou feliz em ver que as entradas especiais eram palitinhos de queijo e asinhas de
frango. A salada de galinha ainda era servida com molho apimentado. Se Emily fechasse os
olhos, podia quase fingir que era a mesma poca no ano passado, quando costumava vir ao
App1ebee's todas as noites de quinta, e quando nada de ruim havia acontecido ainda.
        -- A treinadora Lauren devia estar fumando crack quando elaborou aquela rotina de
quinhentos metros -- reclamou Gemma, examinando o cardpio.
        -- Fala srio! -- ecoou Carolyn, tirando sua jaqueta com o smbolo da Equipe de
Natao Rosewood Day. -- Mal posso levantar meus braos!
        Emily riu com as outras, e a reparou numa cabea loura com o canto dos olhos. Ela
ficou tensa e olhou para o bar, que estava lotado de pessoas assistindo a um jogo dos Eagles na
televiso de tela plana. Havia um garoto louro no canto do bar, conversando animadamente com
sua acompanhante. O corao de Emily voltou ao ritmo normal. Por um segundo, ela pensou ter
visto Jason DiLaurentis.
        Emily no conseguia tirar Jason da cabea. Ela detestava o fato de Aria ter ignorado
seus alertas no ptio, tera-feira, inventando desculpas para o comportamento dele. E realmente
no sabia o que pensar da estranha foto que A lhe enviara no dia anterior: a foto de Ali, Naomi e
Jenna juntas, como se fossem amigas. Se Jenna era amiga de Ali, Ali poderia ter se aberto com
ela sinceramente, certo? Ela poderia ter contado a Jenna algum segredo obscuro sobre seu
irmo, sem fazer ideia de que Jenna revelaria algo parecido.
        H alguns meses, antes de a polcia prender Ian pelo assassinato de Ali, Emily assistira
a uma entrevista de Jason DiLaurentis na televiso. Bem, aquilo era uma espcie de entrevista
-- um reprter o havia descoberto em Yale e lhe perguntara o que ele achava da investigao do
assassinato da irm. Jason o ignorara, dizendo que no queria falar sobre o assunto. Ele ficava
longe da famlia tanto quanto possvel, Jason dissera, porque eles eram perturbados demais. Mas
e se Jason fosse o perturbado? No vero entre o sexto e o stimo anos, Emily estivera na casa de
Ali enquanto os DiLaurentis arrumavam as malas para ir para a casa de campo, em Poconos.
Enquanto a famlia inteira carregava as bagagens para o carro, Jason ficara deitado na
espreguiadeira, zapeando os canais da televiso. E quando Emily perguntara a Ali por que
Jason no estava ajudando, Ali simplesmente dera de ombros.
        -- Ele est num de seus dias Elliott Smith. -- Ela revirou os olhos. -- Eles deveriam
coloc-lo em uma camisa de fora, que  o lugar dele.
        Um arrepio percorreu a espinha de Emily.
        -- Jason precisa ser internado em uma clnica psiquitrica?
        Ali revirou os olhos de novo.
        -- Foi uma brincadeira! -- grunhiu ela. --Voc leva tudo to a srio!
         Mas quando Ali se virou para carregar outra mala para o carro, sua boca tremeu
levemente. Parecia que alguma coisa se escondia sob o exterior calmo de Ali, algo que ela no
queria admitir.
         Emily enviara a foto de A para todas as antigas amigas. Tanto Spencer quanto Hanna
haviam respondido, dizendo que no tinham ideia do que poderia significar, mas Aria nem se
dera ao trabalho de retornar a mensagem. E se elas precisassem mesmo se preocupar com Jason?
Havia muita coisa sobre ele que elas no sabiam.
         Uma garonete loura, usando o uniforme verde do Applebee's e um bon dos Eagles,
veio anotar os pedidos delas. Em seguida, as nadadoras comearam a falar sobre a festa do
Radley.
         -- Topher conseguiu arrumar um convite e quer que eu v com ele -- estava dizendo
Carolyn. -- Mas o que voc veste em uma festa como essa?
         Emily bebericou sua Coca-Cola sabor baunilha.
         Topher era o namorado de Carolyn, mas normalmente os dois preferiam assistir a uma
maratona de Heroes a ir a festas elegantes.
         -- E aquele vestido rosa que eu usei no baile beneficente de Rosewood Day? -- sugeriu
Emily. Em seguida, tamborilou os dedos sobre a mesa. --Voc no precisa mais se preocupar
comigo assaltando o seu armrio. Eu j tenho um vestido.
         Os olhos de Carolyn se iluminaram.
         --Voc vai?
         -- Algum me convidou -- balbuciou Emily. Lanie e Gemma se inclinaram para a
frente, intrigadas. Carolyn apertou o brao de Emily.
         -- Me deixe adivinhar -- sussurrou ela. -- Renee Jeffries, da Tate? Vocs duas
estavam to bonitinhas, conversando antes da prova dos duzentos metros, no ms passado. E
algum me disse que ela ...Voc sabe. -- Carolyn se calou.
         Emily estava brincando com o canudo vermelho em sua Coca-Cola. Ainda no contara a
sua famlia nem s colegas de natao sobre Isaac. Respirando fundo, ela olhou para as outras.
         -- Na verdade... Foi um garoto.
         Carolyn piscou. Lanie e Gemma sorriram, confusas. Na televiso, os Eagles marcaram
um touchdown. O salo inteiro aplaudiu, mas nenhuma delas se virou.
         -- Eu o conheci na igreja -- continuou Emily. -- Ele frequenta a Academia da
Santssima Trindade. O nome dele  Isaac. Ns estamos... namorando. Mais ou menos.
         Carolyn colocou as mos na mesa.
         -- Isaac Colbert? Aquele gato que toca naquela banda, Carpe Diem?
         Emily assentiu, o rubor lhe colorindo o rosto.
         -- Eu o conheo -- disse Emma, babando. -- Ns trabalhamos no mesmo projeto,
Habitat para a Humanidade, no ano passado. Ele  lindo.
         -- Isso  srio? -- Os olhos de Carolyn se arregalavam ainda mais. Emily concordou
novamente, olhando para a irm.
         -- Eu tenho que contar para o papai e a mame. No d a notcia para eles ainda. Eu s
precisava me certificar de que...  para valer.
         Carolyn pegou um pedao de po de alho do prato que acabara de chegar.
         -- Boa, Emily! -- Gemma bateu a mo na de Emily, e Lanie lhe deu um tapinha nas
costas.
         Emily respirou aliviada. Estava preocupada com aquele momento. E temera,
principalmente, que Carolyn fizesse uma cena e lhe perguntasse por que fizera a famlia passar
por todo aquele estresse sobre o lesbianismo, se ela pretendia sair com garotos de novo. Mas
agora que seus pensamentos estavam novamente voltados para Isaac, ela no podia deixar de se
lembrar do que havia acontecido durante o jantar, na noite anterior. Todas aquelas indiretas
horrveis, dolorosas. Todos aqueles olhares amargos. E aquela fotografia na gaveta, de Emily
decapitada. Emily e Isaac poderiam mesmo ir  festa Radley juntos, se a sra. Colbert soubesse o
que eles tinham feito?
         Ela sara da casa de Isaac pouco depois de ter visto a foto na gaveta, sem falar a ele uma
palavra sobre aquilo. Mas ela precisava dizer alguma coisa. Eles eram um casal. Estavam apai-
xonados. Certamente, ele entenderia. Ela poderia dizer algo como, Voc tem certeza de que a
sua me gosta de mim? Sua me costuma humilhar suas novas namoradas? Voc sabia que a
sua me  uma psicopata e me decapitou em uma foto?
         Os pedidos das meninas chegaram e as nadadoras devoraram seus pratos. Quando a
garonete voltou para tirar a mesa, o telefone de Emily tocou. Spencer Hastings, o visor
informava. Emily se sentiu meio enjoada e lanou um olhar de desculpas para suas amigas,
afastando-se da mesa. Ela foi para o corredor onde ficavam os banheiros. A rea do bar estava
barulhenta demais para que tentasse falar ao telefone.
         -- O que foi? -- perguntou Emily para ela, empurrando a porta do banheiro.
         -- Recebi outra mensagem -- respondeu Spencer.
         Emily apoiou a mo trmula na pia de mrmore e olhou para o espelho. Seus olhos
estavam arregalados e seu rosto havia ficado muito plido.
         -- O... O que ela dizia?
         -- Basicamente, que precisamos continuar procurando, ou aguentar as consequncias.
         -- Procurando... pelo assassino? -- sussurrou Emily.
         -- Acho que sim. No sei o que mais poderia ser.
         --Voc acha que tem a ver com aquela foto que eu recebi? Aquela de Ali e Jenna?
         -- Eu no sei. -- Spencer soava desanimada. -- Aquilo tambm no faz muito sentido.
         Ouviu-se o barulho de uma descarga, e um par de sapatos se moveu por detrs de uma
das portas. Emily ficou tensa. Ela no percebera que havia mais algum no banheiro.
         -- Eu preciso ir -- sibilou ela ao telefone.
         --Tudo bem -- disse Spencer. --Tenha cuidado.
         Emily desligou o celular e o colocou de volta na bolsa. Quando a porta da cabine se
abriu e a mulher saiu, o sangue de Emily congelou.
         -- Ora! --A sra. Colbert parou, surpresa. Ela vestia uma blusa de seda e calas pretas,
como se tivesse vindo diretamente do trabalho. Os cantos de seus lbios se curvaram para baixo.
         -- Ol -- disse Emily, sua voz uma oitava mais alta do que o normal. Suas mos
tremiam. -- C-como vai a senhora?
         A sra. Colbert passou por ela e foi at a pia, girando a torneira da gua quente. Ela
colocou as mos sob o jato d'gua, esfregando-as to vigorosamente que era de se espantar que
sua pele no se despregasse. Ela estava bloqueando o toalheiro, mas Emily no se atreveu a lhe
pedir licena.
         -- A senhora e o sr. Colbert esto jantando aqui? -- perguntou Emily, forando um
sorriso. -- Os hambrgueres so timos.
         A sra. Colbert se virou e olhou para ela com raiva.
         -- Pare com esse teatrinho simptico.  insultante.
         Emily achou que fosse desmaiar. Outro grito de comemorao veio do bar.
         -- O qu?
         A sra. Colbert desligou a torneira e arrancou um pedao de papel toalha com um pouco
de fora demais, enxugando as mos.
         -- Eu no quis dizer isso na frente do meu filho, e foi por esse motivo que eu a tolerei
durante o jantar na outra noite. Mas voc desrespeitou a mim e  minha casa. No meu entender,
voc no passa de lixo. No se atreva a colocar os ps na minha casa novamente.
         Emily empalideceu. Todos os outros sons desapareceram. Atordoada, saiu do banheiro
de costas, e correu de volta para a mesa. Ela apanhou o casaco pendurado na cadeira e foi direto
para a porta.
         -- Emily? -- chamou Carolyn, levantando-se. Mas Emily no respondeu. Precisava sair
dali. Precisava fugir da me de Isaac antes que a mulher pudesse dizer mais alguma coisa:
         O vento forte lhe atingia o rosto enquanto ela caminhava em direo ao estacionamento.
Carolyn estava bem atrs dela, puxando-lhe a manga.
         -- O que aconteceu? -- perguntou sua irm. -- O que foi que aconteceu?
         Emily no respondeu. Ela no tinha certeza se podia responder. Voc desrespeitou a
mim e  minha casa. A sra. Colbert havia dito tudo. Emily olhou para o smbolo iluminado do
Applebee's, amaldioando sua terrvel sorte. Por que a sra. Colbert tinha que ir jantar no
Applebee's justamente naquela noite? E eram apenas oito horas, no exatamente o horrio
normal de jantar. Estava um frio terrvel, tambm, aquela era uma noite boa para ficar em casa.
        E a, do fundo de sua bolsa, o telefone de Emily tocou. De repente, ela percebeu tudo.
Talvez no tivesse sido por azar ou coincidncia que a sra. Colbert estivesse jantando no
Applebee's naquela noite. Talvez algum tivesse dito a ela que fosse at l.
        -- S um minuto -- disse ela  irm. Emily caminhou at o meio-fio, prximo da porta
de entregas, e se sentou. O visor esverdeado de seu celular brilhava na escurido. Uma nova
mensagem de foto, estava escrito na tela.
        Uma fotografia apareceu no visor do Nokia. Mas no tinha nada a ver com Emily, Isaac
ou a me dele. Em vez disso, a foto mostrava um grande salo com vitrais pintados, bancos de
madeira polida e tapetes vermelhos espessos. Emily franziu a testa.
        Era a Santssima Trindade, a igreja de sua famlia. L estava o confessionrio do padre
Tyson, a pequena alcova de madeira perto da entrada. Algum estava saindo do confessionrio,
com a cabea abaixada. Emily aproximou o telefone do rosto. O rapaz na foto era alto, com
cabelos curtos e escuros. Um distintivo do departamento de polcia de Rosewood brilhava em
sua jaqueta, e um par de algemas pendia de seu cinto.
        Wilden?
        Em seguida, ela percebeu o texto sob a foto. Ainda que Emily no tivesse muita certeza
do que significava, um arrepio lhe percorreu o corpo, do alto da cabea at as solas dos ps.
       Acho que todos nos sentimos culpados em relao a al-
       guma coisa, no ? - A
                                        18
                                 H ALGO DE PODRE NO
                                 REINO DE ROSEWOOD...
Na sexta-feira de manh, enquanto a cor do cu mudava de azul-escuro para prpura plido,
Hanna fechava sua jaqueta de corrida verde da Puma e fazia uma srie de alongamentos apoiada
no grande bordo do jardim da frente. Em seguida, comeou a correr pela calada, ouvindo
msica em seu iPhone. Fora uma idiota em no comprar um iPhone antes -- protegida por seu
novo nmero no listado, no recebera uma nica mensagem de A.
        A nova A estava certamente bombardeando Emily com mensagens -- Hanna recebera
um torpedo reenviado por Emily naquela manh, uma foto de Darren Wilden se esgueirando por
uma igreja. O que voc acha que isso significa?, escreveu Emily, como se Hanna pudesse saber.
Muita gente ia  igreja. Mas ela no acreditava que A estivesse enviando textos para Emily
contendo pistas importantes. Era mais do que provvel que A estivesse simplesmente brincando
com a cabea j perturbada da pobre Emily.
        Mas Hanna havia recebido vrias mensagens de Mike Montgomery. Como a que
acabara de chegar.
        Vc est acordada?
        Estou, correndo.
        Sexy, devolveu Mike. O q vc est vestindo?
        Hanna sorriu. Spandex. Superjusto.
        Mike depois escrevera: Passe na minha casa!
        S nos seus sonhos, respondeu Hanna, rindo.
          Mike enviara uma mensagem para ela na noite anterior, presumivelmente depois que
voltara de seu encontro com Kate. Hanna pensara em dar um gelo nele por sair com as duas,
mas no queria parecer insegura. Ser que Mike achava Kate mais bonita que ela? Mais magra?
Ser que ele a levara para fazer compras e invadira o trocador tambm? O que Kate faria? Ri-
ria... ou se assustaria? Hanna enviou outra mensagem.
        Q hr vc quer que eu o apanhe para a festa Radley amanh?
        Ela estava virando a esquina de sua rua quando Mike respondeu.
        Vc se importa se levarmos outra pessoa?
        Hanna parou abruptamente. Era bvio que a outra pessoa que Mike queria levar era...
Kate.
         Ela chutou o poste de metal na parada de nibus com fora. O barulho assustou alguns
pssaros que estavam em uma rvore prxima. Seu pai poderia ter pegado mais leve no castigo
Kate-o-tempo-todo, mas ainda estava tentando forar Hanna e Kate a serem melhores amigas.
Como na noite anterior, quando Kate voltara de seu encontro com Mike e encontrara Hanna e o
sr. Marin na cozinha, onde Hanna estava orgulhosamente mostrando ao pai a bandeira decorada
para a Cpsula do Tempo. O sr. Marin olhara para a bandeira, e depois para Kate, e perguntara
gentilmente a Hanna se Kate poderia receber, com ela, o crdito por encontrar a bandeira.
Talvez Hanna pudesse deixar que ela desenhasse algo em um dos cantos?
         Hanna ficara de queixo cado.
         --  a minha bandeira -- disse ela, espantada que o pai estivesse sugerindo uma coisa
daquelas. -- Eu a encontrei. -- Seu pai olhara para ela decepcionado e se afastara. Kate no
dissera uma palavra o tempo todo, provavelmente imaginando que uma filha calada e humilde
era melhor do que uma rebelde e agitada. Mas Hanna sabia que Kate estava felicssima por
assistir a relao de Hanna com seu pai morrer, uma morte lenta e dolorosa.
         Houve um rudo atrs dela e Hanna se virou, com a sbita sensao de que algum a
estava seguindo. Mas a rua estreita estava vazia. Ela soltou um longo suspiro e decidiu no
responder Mike, colocando o iPhone de volta no bolso e aumentando o volume da msica. Ela
correu, desceu uma ladeira, atravessou uma pontezinha estreita entre dois jardins e se viu em um
lugar conhecido. Havia uma antiga casa cinza na esquina, afastada da rua. Dois cavalos cor de
canela e um pnei Shetland malhado estavam parados calmamente ao lado da cerca de madeira.
Aquele era o cruzamento para a casa de Ali. A primeira vez em que Hanna estivera naquele
cruzamento fora quando ela tentara roubar a parte de Ali da bandeira da Cpsula do Tempo.
Hanna se lembrava de olhar nos olhos grandes e suaves do pnei, desejando poder pedir a
opinio dele sobre o que estava para fazer. Quem ela pensava que era, achando que poderia
simplesmente roubar a bandeira de Ali? E se Naomi e Riley estivessem l e todas elas rissem na
cara de Hanna?
         Talvez eu devesse enfrentar o fato de que jamais serei popular, ela quase dissera em voz
alta para o pnei. Um carro passou, bem neste momento, e ela endireitou os ombros e continuou
a pedalar. Agora, ela corria pelo bairro de Ali, respirando com dificuldade. A casa de Mona era
uma das primeiras da rua, com sua grande entrada circular e garagem para seis carros
dolorosamente familiar. Hanna desviou os olhos. A prxima casa era a de Jenna, a vermelha em
estilo colonial com uma grande rvore ao lado, que uma vez abrigara a casa de madeira de
Toby. Em seguida, vinha a manso de Spencer, que ficava detrs de um grande porto de ferro.
Marcas da palavra ASSASSINA pichada no porto ainda eram visveis atravs dos portes da
garagem, embora tivessem sido repintados. A velha casa de Ali era a ltima, no final da rua sem
sada.
         Hanna correu at o memorial de Ali, que ainda estava l, junto ao meio-fio. Algumas
velas haviam sido substitudas, e uma delas estava acesa, tremulando ao vento. Havia algumas
mensagens manuscritas no mural, dizendo coisas como "Ns vamos encontr-lo, Ali, e Ian vai
pagar pelo que fez!".
         Hanna se abaixou e olhou para a fotografia que decorava o memorial desde que fora
inaugurado, quando o corpo de Ali fora encontrado. A foto estava amassada e desbotada, depois
de meses sob a chuva e a neve. Era uma foto de Ali no sexto ano, vestindo uma camiseta azul da
Von Dutch e um par de jeans Seven, de p no grande salo da casa de Spencer. Fora tirada na
noite em que Melissa e Ian foram ao Baile de Inverno de Rosewood Day. Ali insistira em
espion-las, rindo histericamente quando Melissa tropeara nas escadas durante sua entrada
triunfal. Quem sabe, talvez Ali tivesse algo com Ian mesmo naquela poca.
         Hanna franziu a testa, olhando para a foto mais de perto. Por detrs de Ali, a porta da
frente da casa dos Hastings estava levemente aberta, oferecendo uma viso parcial do jardim da
frente. De p, na entrada da casa de Spencer, ao lado da limusine de Ian e Melissa, havia um
vulto solitrio, de jaqueta e jeans. Hanna no podia realmente ver quem era, porque o rosto esta-
va fora de foco. Ainda assim, havia algo intrusivo e voyeurstico na postura daquela pessoa,
como se ela quisesse espionar Ian e Melissa.
        Uma porta bateu. Hanna deu um pulo e olhou para cima. Por um momento, no
conseguiu identificar de onde o barulho tinha vindo. Ento viu Darren Wilden de p na calada
da casa dos Cavanaugh. Quando ele viu Hanna, olhou ao redor.
        -- Hanna? -- disse Wilden. -- O que voc est... fazendo?
        O corao de Hanna comeou a bater mais rpido, como se ela tivesse sido apanhada
roubando em uma loja.
        -- Correndo. O que voc est fazendo?
        Wilden parecia abalado. Ele se virou, fazendo um gesto na direo das rvores que
ficavam atrs da casa de Spencer, do outro lado da rua.
        -- Eu estava, bem, apenas... voc sabe. Checando as coisas l atrs.
        Hanna cruzou os braos. Os policiais haviam encerrado as buscas pelo bosque. E
Wilden viera da casa de Jenna, que era do lado oposto da rua, no da direo que ele apontava.
        --Voc encontrou alguma coisa?
        Wilden esfregou as mos enluvadas.
        --Voc no deveria estar aqui -- balbuciou ele. Hanna o encarou de volta. -- Est
muito frio -- tentou explicar.
        Hanna estendeu a perna esquerda.
        --  para isso que existem polainas. E luvas, e gorros.
        -- Mesmo assim. -- Wilden bateu o punho direito contra a palma da mo esquerda. --
 melhor voc correr em um lugar mais seguro. Como a trilha Marwyn.
        Hanna estremeceu. Estaria Wilden realmente preocupado com ela... ou s queria que ela
sumisse dali? Ele olhou por sobre o ombro novamente, na direo da floresta. Hanna virou o
pescoo, tambm. Haveria alguma coisa ali? Alguma coisa que ele no queria que ela visse?
Mas ele no tinha declarado para a imprensa que nunca acreditara que houvesse algo na
floresta? Ele no achava que Hanna e as outras meninas tinham inventado tudo?
        O texto de A sobre Wilden no confessionrio voltou  mente de Hanna.
       Acho que todos nos sentimos culpados em relao a al-
       guma coisa, no ?
         -- Voc precisa de carona para algum lugar? -- perguntou Wilden em voz alta, fazendo
Hanna pular. -- Eu j acabei aqui.
         Na verdade, os dedos dos ps de Hanna estavam ficando congelados.
         -- Tudo bem -- gaguejou ela, tentando permanecer calma. Deu uma ltima olhada no
memorial de Ali e seguiu Wilden at um carro coberto por uma camada suja de neve e gelo. --
Esse  o seu carro? -- Havia algo familiar nele.
         -- Minha viatura est na oficina, e tive que recorrer a essa lata-velha. -- Ele abriu a
porta do passageiro. O interior do carro cheirava a velhas embalagens de McDonald's. Ele
afastou rapidamente uma pilha de arquivos, caixas de sapatos, CDs, pacotes vazios de cigarros,
cartas lacradas e um par extra de luvas para o banco de trs. -- Desculpe a baguna.
         Um adesivo oval no cho ao lado do banco do passageiro atraiu a ateno de Hanna.
Havia um desenho de um peixe nele, com algumas iniciais e as palavras Passe Dirio. O
adesivo no havia sido descolado da base ainda, e a impresso parecia brilhante e nova.
         --Voc andou pescando no gelo, ultimamente? -- provocou Hanna, apontando para o
adesivo. Quando seu pai ainda era seu amigo, em vez do rob sem alma que s pensava em
fazer a Princesa Kate feliz, eles costumavam ir pescar no lago Keuka, no estado de Nova York.
Eles sempre precisavam comprar um passe semelhante, na loja de iscas local, para poderem usar
o lago sem serem multados.
         Wilden olhou para o adesivo com uma expresso estranha no rosto. Ele pegou o
adesivo, examinou-o e o jogou rapidamente para o banco de trs.
         -- Eu no limpo este carro h anos. -- As palavras saram enroladas e apressadas. --
Essa coisa  velha. -- Ele deu partida no motor e engatou a r com tanta fora que Hanna foi
jogada para trs. Wilden contornou a rua sem sada, quase passando por cima do memorial de
Ali, e o carro passou pelas casas de Spencer, de Jenna e de Mona. Hanna se agarrou no pequeno
apoio acima da janela.
         -- Isso no  uma corrida -- brincou ela, tremendo, cada vez mais assustada. Wilden
olhou para ela pelo canto do olho, sem dizer nada. Hanna percebeu que ele no estava usando a
jaqueta do uniforme da Polcia de Rosewood, e vestia um pulver simples e grande demais, e
jeans pretos. Um pulver, na verdade, que se parecia muito com o que usava aquela pessoa
assustadora que ela encontrara na floresta na noite de sbado. Mas aquilo era apenas uma
coincidncia... No era?
         Hanna passou a mo pela nuca e limpou a garganta.
         -- E a, bem, como anda a investigao sobre Ian?
         Wilden olhou para ela, seu p ainda pressionando o acelerador. Eles fizeram a volta no
alto do morro rapidamente, e os pneus do carro cantaram alto.
         -- Temos uma boa pista de que Ian est na Califrnia.
         Hanna abriu a boca e fechou-a rapidamente. a endereo IP das mensagens de Ian
indicava que ele ainda estava em Rosewood.
         -- E como voc descobriu isso? -- perguntou ela.
         -- Uma denncia -- grunhiu Wilden.
         -- De quem?
         Ele lhe dirigiu um olhar glido.
         --Voc sabe que eu no posso lhe contar.
         Uma Nissan Pathfinder cinza estava na frente deles, subindo lentamente o morro.
Wilden acelerou e mudou para a faixa contrria, aumentando a velocidade para ultrapassar. a
motorista da Pathfinder buzinou. Duas luzes apareceram  distncia, na direo oposta.
         -- O que voc est fazendo? -- gritou Hanna, ficando cada vez mais nervosa. Wilden
no voltou para a faixa correta. -- Pare! -- gritou de novo.
         De repente, Hanna foi jogada de volta para a noite em que estivera no estacionamento
de Rosewood Day, vendo o carro de Mona vir em sua direo. Quando percebera que o carro
no ia desviar, no conseguiu se mover, petrificada e indefesa. Parecia que no havia nada que
ela pudesse fazer para impedir o que aconteceria.
         Hanna fechou os olhos, sentindo a ansiedade domin-la. Ela ouviu uma buzina
ensurdecedora, e o carro de Wilden mudou de direo rapidamente.
         Quando Hanna abriu os olhos de novo, eles estavam de volta  faixa correta.
         -- Qual  o seu problema? -- perguntou Hanna, seu corpo inteiro tremendo.
         Wilden olhou para ela de lado.
         Ele parecia... estar se divertindo.
         -- Fique calma.
         Fique calma? Hanna passou a mo pelo rosto, prestes a vomitar. O incidente lhe passou
pela mente repetidas vezes, em modo acelerado. Desde o acidente que sofrera, ela fazia um
esforo tremendo para no pensar naquela noite, e ali estava Wilden, rindo dela por ter ficado
assustada. Talvez ela no devesse ter se apressado tanto em descartar as mensagens de A sobre
ele, afinal de contas.
         Hanna estava para dizer a ele que encostasse o carro e a deixasse sair, quando percebeu
que Wilden j estava subindo a sua rua. Quando chegaram ao topo, ela rapidamente soltou o
cinto de segurana e saiu do carro. Nunca se sentira to agradecida por ver sua casa.
         Hanna bateu a porta, mas Wilden no pareceu notar. Ele simplesmente engatou a r e
desceu a rua, sem se importar em fazer a manobra para voltar. Parte da neve havia cado do cap
do carro. Hanna podia ver que a frente do carro era alongada, e que os faris pareciam
ameaadores.
         Uma sensao de dj-vu invadiu Hanna de repente. Alguma coisa a respeito do que
acabara de acontecer j acontecera antes -- e no apenas na noite de seu acidente. Ela sentia a
mesma sensao quando no conseguia se lembrar de uma palavra na aula de francs, com o
termo na ponta da lngua.
         Normalmente, ela se lembrava da palavra mais tarde, e nos momentos mais estranhos,
como, por exemplo, quando estava navegando no iTunes ou quando estava passeando com o
cachorro. Logo mais ela perceberia o que, exatamente, aquela situao a fazia se lembrar.
Mas Hanna no estava realmente ansiosa para descobrir.
                                          19
                                SPENCER PERDE E GANHA
Na sexta-feira, depois das aulas, a melhor amiga de Spencer na equipe de hquei, Kirsten
Cullen, estacionou seu carro junto  calada da casa de Spencer e puxou o freio de mo.
         -- Muito obrigada pela carona -- disse Spencer. S porque os pais haviam tirado seu
carro, no significava que ela subiria a bordo do nibus escolar fedorento de Rosewood Day.
         -- Sem problemas -- disse Kirsten. --Voc vai precisar de carona na segunda-feira,
tambm?
         -- Se no for dar muito trabalho -- murmurou Spencer. Ela telefonara para Aria
pedindo uma carona, j que agora a amiga morava em um bairro prximo, mas Aria dissera que
tinha "uma coisa para fazer" naquela tarde, cheia de mistrio, sem explicar que "coisa" era
aquela. E no era como se Spencer pudesse pedir a Andrew. Durante todo o dia, ela pensara que
ele pediria desculpas -- e se ele tivesse feito isso, Spencer teria se desculpado tambm e
prometido que eles continuariam juntos mesmo que ela mudasse de cidade. Mas Andrew
deliberadamente no falara com ela em nenhuma das aulas que tiveram juntos. Para Spencer,
aquilo foi a gota d'gua.
         Kirsten acenou para se despedir e arrancou. Virando-se, Spencer caminhou pela calada.
A vizinhana estava silenciosa, e o cu tinha uma cor cinza-violeta. A pichao ASSASSINA nos
portes da garagem fora apagada com uma nova pintura, mas a nova cor no era adequada, e a
palavra ainda aparecia levemente. Spencer desviou os olhos, no querendo ler de novo. Quem
teria feito aquilo? A? Mas... por qu? Para assust-la ou para alert-la?
         A casa estava vazia, cheirando a produtos de limpeza, o que significava que a faxineira
dos Hastings, Candace, acabara de sair. Spencer correu para o andar de cima, apanhou o folder
de Olivia da escrivaninha em seu quarto e saiu de casa pela porta dos fundos. Embora seus pais
no estivessem, no queria fazer aquilo na casa deles. Ela precisava de privacidade total.
         Spencer destrancou a porta da frente do celeiro e acendeu as luzes da cozinha e da sala
de estar. Tudo estava como ela havia deixado da ltima vez em que estivera ali, at o copo
quase cheio d'gua ao lado do computador. Ela se atirou no sof e apanhou seu Sidekick. A
mensagem de A fora a ltima que recebera. O que voc acharia de desaparecer para sempre?
No comeo, a mensagem a deixara assustada, mas depois de algum tempo ela a via de outro
modo. Desaparecer para sempre parecia bom -- desaparecer de Rosewood, isso sim. E Spencer
sabia exatamente como fazer aquilo.
         Ela colocou o folder de arquivos de Olivia sobre a mesinha de caf, seu contedo
praticamente se derramando sobre o tapete no cho. O carto de visitas do corretor de imveis
estava bem em cima. Com as mos trmulas, Spencer telefonou para o nmero impresso no
carto. O telefone tocou uma vez, duas vezes.
         -- Michael Hutchins -- respondeu uma voz masculina.
         Spencer se sentou e limpou a garganta.
         -- Oi. Meu nome  Spencer Hastings -- disse ela, tentando soar mais velha e
profissional. -- Minha me  cliente sua. Olivia Caldwell?
        --  claro,  claro. -- Michael soava satisfeito. -- Eu no sabia que Olivia tinha uma
filha. Voc j viu a casa nova dela e do marido? Vai ser fotografada para a seo de arquitetura
do New York Times no ms que vem.
        Spencer enrolou uma mecha de cabelo nos dedos.
        --Ainda no. Mas verei... Em breve.
        -- E a, o que posso fazer por voc?
        Ela cruzou e descruzou as pernas. Seu corao batia to forte que ela conseguia ouvir.
        -- Bem... Eu preciso de um apartamento. Em Nova York. De preferncia, perto de
Olivia.  possvel?
        Ela ouviu Michael virando alguns papis.
        -- Acredito que sim. Espere um pouco. Deixe-me acessar o banco de dados e ver o que
tenho disponvel.
        Spencer mordeu a unha do polegar com fora. Aquilo parecia surreal. Ela olhou pela
janela e viu a piscina e a banheira de hidromassagem, o quintal, e dois cachorros brincando
perto da cerca. Em seguida, virou-se e olhou para o moinho. MENTIROSA. A palavra ainda estava
l, sem ter sido coberta por uma nova pintura. Talvez seus pais a tivessem deixado l como um
lembrete para Spencer, o equivalente da letra A no livro A letra escarlate. A antiga casa de Ali,
vizinha  sua, no tinha mais a fita amarela de No Atravesse sobre o buraco meio aberto  os
novos proprietrios haviam finalmente tido o bom senso de retir-las -- mas o buraco no havia
sido fechado ainda. Atrs do celeiro, estava a floresta, espessa e escura, cheia de segredos.
        Olivia dissera a ela para ir devagar, mas se mudar de Rosewood era a coisa mais
inteligente -- e mais segura -- que Spencer poderia fazer.
        -- Voc est a? -- A voz de Michael chamou e Spencer deu um pulo. -- H um
registro novo, de um apartamento na rua Perry, 223. Ainda nem foi colocado no mercado, o
proprietrio est limpando e pintando, mas provavelmente estar no nosso site na segunda-feira.
 um apartamento de um quarto, no trreo de um edifcio antigo. Estou olhando para as fotos
neste momento e o lugar  lindo. Teto alto, piso de madeira, uma cozinha americana, um
pequeno ptio nos fundos e uma banheira de cermica. Voc estaria perto do metr e a uma
quadra da loja Marc Jacobs. Voc parece ser uma garota Marc Jacobs.
        --Voc est certo quanto a isso -- sorriu Spencer.
        --Voc est perto de um computador? -- quis saber Michael. -- Posso lhe enviar
algumas fotos do lugar agora mesmo.
        -- Claro! -- disse Spencer, dando a ele seu e-mail. Ela se levantou e foi at o laptop de
Melissa, que estava fechado sobre a escrivaninha. Em segundos, um novo e-mail apareceu em
sua caixa de entrada. As fotos anexas mostravam um prdio bonito e antigo, com escadas de
ardsia. O apartamento tinha piso de carvalho, duas grandes janelas, tijolos aparentes, balces
de mrmore e at mesmo mquinas de lavar e passar.
        -- Parece lindo mesmo -- suspirou Spencer, quase desmaiando. -- Estou na Filadlfia
agora, mas posso ir at a cidade na segunda-feira  tarde para dar uma olhada?
        Ela ouviu o som de uma buzina, do lado de fora da janela de Michael.
        -- Isso pode ser arranjado, com certeza -- disse ele, a hesitao em sua voz era
praticamente palpvel. -- Mas preciso avisar: apartamentos como esse no aparecem sempre, e
o mercado de imveis em Nova York  insano. Esse  um dos melhores quarteires no Village,
e as pessoas vo pular em cima dele.  provvel que na segunda-feira de manh algum aparea
em nosso escritrio logo que o anncio for publicado, com um cheque, sem nem ter visto o
lugar. Quando voc chegar aqui, o apartamento j pode ter sido alugado. Mas no quero pres-
sionar voc. H outros apartamentos que posso lhe mostrar naquela rea, tambm...
        Os ombros de Spencer ficaram tensos, e a adrenalina corria em suas veias. De repente,
ela se sentiu como se estivesse correndo para a bola em um jogo de hquei, ou lutando pela
aprovao de um professor na sala de aula. Aquele apartamento era dela, e de ningum mais.
Ela imaginou seus mveis no quarto. Imaginou a si mesma vestindo seu mant Chanel nas
manhs de sbado, indo para o Starbucks. Ela podia comprar um cachorro, e contratar um
daqueles passeadores de cachorros que conduziam quinze ces de uma vez s. Mais cedo,
naquele mesmo dia, procurara algumas escolas particulares em Nova York, caso escolhesse no
se formar mais cedo. Quando olhou para o papel em branco junto ao laptop, percebeu que havia
escrito rua Perry, 223 vrias vezes, em letra de forma e cursiva, e com uma caligrafia
caprichada. Nenhum apartamento serviria alm daquele.
         -- Por favor, no o anuncie -- balbuciou Spencer. -- Eu quero esse apartamento. Nem
preciso ir v-lo. E se eu lhe pagar algum dinheiro agora? Seria suficiente?
         Michael fez uma pausa.
         -- Podemos fazer isso. -- Ele parecia surpreso. -- Acredite em mim, voc no vai se
decepcionar.  uma excelente oportunidade. -- Ele estava digitando em seu teclado. -- Certo.
Vamos precisar de um adiantamento, o suficiente para o primeiro ms de aluguel, seguro, e a
taxa da corretora. Assim, acho melhor voc chamar sua me ao telefone. Ela vai ser a sua
fiadora e autorizar a transferncia do depsito, certo?
         Os dedos de Spencer danavam sobre o teclado do laptop. Olivia havia deixado claro
que seu marido, Morgan, desconfiava de pessoas que no conhecia. Se ela pedisse dinheiro a
Olivia e Morgan, estaria correndo o risco de perder a confiana dele. Ela olhou para o
computador. L estava o arquivo, no canto direito da tela. Spencer, Faculdade.
         Ela abriu o arquivo e depois o PDF, lentamente. Todas as informaes de que precisava
estavam ali. A conta estava em seu nome. Olivia havia lhe dito que quando Morgan a conhe-
cesse, ele a amaria. Ele provavelmente reembolsaria dez vezes mais aquela quantia.
         -- No precisamos envolver a minha me -- disse Spencer. --Tenho uma conta em
meu nome e gostaria de us-la.
         -- Certo -- disse Michael, sem hesitar. Ele provavelmente lidava com garotos ricos da
cidade, com suas prprias contas bancrias, o tempo todo. Spencer leu para Michael os nmeros
na tela, com a voz trmula. Michael os repetiu para ela e, em seguida, lhe disse que tudo o que
precisava fazer era telefonar para o proprietrio e o negcio estaria fechado. Eles marcaram um
encontro na frente do prdio s quatro horas da tarde de segunda-feira, para que Spencer
pudesse assinar o contrato e apanhar as chaves. Depois disso, o apartamento seria dela.
         -- timo -- disse Spencer.
         Em seguida, ela desligou o telefone e olhou fixamente para a parede.
         Pronto. Ela havia realmente feito aquilo. Em uma questo de dias, no moraria mais ali.
Seria uma nova-iorquina, longe de Rosewood para sempre. Olivia retomaria de Paris e Spencer
j estaria adaptada  vida na cidade grande. Ela se imaginou encontrando Olivia e Morgan para
jantares casuais no apartamento deles, e jantares mais chiques no Gotham Bar and Grill e no Le
Bernardin. Imaginou o grupo de novos amigos que faria, pessoas que amavam ir a exposies
de arte e eventos beneficentes, e no se importariam com o fato de um dia ela ter sido
perseguida por um bando de perdedores invejosos que chamavam a si mesmos de A. Quando
pensou nos garotos que conheceria, sentiu uma pontada de tristeza -- nenhum deles seria
Andrew. Mas a Spencer pensou em como ele a havia tratado naquele dia e balanou a cabea.
No podia ficar pensando nele, agora. Sua vida estava prestes a mudar.
         Sua cabea estava leve e vazia, como se estivesse bbada. Seus membros estremeceram
de excitao. E quase parecia que ela estava tendo uma alucinao -- quando olhou pela janela
dos fundos, Spencer pensou ter visto feixes brilhantes de luz ricocheteando pelas rvores, como
fogos de artifcio disparados especialmente para ela.
         Espere um momento.
         Spencer se levantou. Os feixes de luz vinham de uma lanterna, refletindo nos troncos
das rvores. Um vulto se abaixou e comeou a se arrastar pelo cho. Quem quer que fosse, exa-
minou um local, parou, e depois se arrastou alguns metros para a esquerda e examinou o outro
canto.
         O estmago dela se revirou. No poderia ser um policial -- eles haviam encerrado a
busca na floresta dias antes. Ela abriu a janela, curiosa para ver se a pessoa estava fazendo
algum barulho. Para seu horror, a janela fez um rudo alto, raspando a moldura. Spencer se
encolheu, franzindo o rosto. O vulto parou, voltando-se na direo do celeiro. A luz da lanterna
brilhava erraticamente, primeiro para a direita, depois para a esquerda, e a, por um momento,
no rosto da pessoa. Spencer viu o branco de dois olhos azuis. Um suter negro, de capuz.
Algumas mechas de cabelos louros que lhe eram familiares. Seria... Melissa?
         O vulto hesitou na escurido, como se Spencer tivesse falado alto. Antes que ela
pudesse determinar se era realmente sua irm, a luz da lanterna se apagou. Alguns galhos se
quebraram. Ao que parecia, quem quer que estivesse l fora estava se afastando. O som de
passos ficou cada vez mais fraco, at que Spencer no conseguia mais distingui-lo do som das
rvores farfalhando.
        Quando Spencer teve certeza de que a pessoa havia ido embora, correu para fora e se
agachou no cho. Sem dvida, a terra estava fofa e solta. Ela examinou o solo por um instante,
encontrando apenas pedrinhas e galhos, mas a terra ainda estava quente, como se as mos de
algum tivessem estado ali. Quando olhou para cima, Spencer ouviu um som fraco ao longe, por
entre as rvores. Seus braos ficaram arrepiados. Parecia quase... uma risada. Mas quando
Spencer inclinou sua cabea para ouvir melhor, o rudo desapareceu, e ela no pde deixar de se
perguntar se no fora apenas o vento.
                                          20
                                  A QUEDA LIVRE DE ARIA
Naquela mesma tarde, Aria se encontrou com Jason em frente ao Rocks and Ropes, um clube de
escalada indoor a alguns quilmetros de distncia de Rosewood.
         -- Primeiro voc -- disse Jason, segurando a porta para ela.
         -- Obrigada -- se derreteu Aria. Ela ajustou a malha de ioga um pouco grande demais
que roubara do armrio de Meredith, esperando que Jason no percebesse o quanto estava
folgada no traseiro. Jason, por outro lado, parecia confortvel e sexy, vestindo uma camiseta
cinza de mangas compridas e calas de moletom da Nike, como se ele escalasse paredes o
tempo todo. Talvez escalasse mesmo.
         Quando eles entraram, a luz era fluorescente e forte. O som de guitarras de rock que
vinha dos alto-falantes era ensurdecedor, e o salo de teto alto, que cheirava a borracha, tinha
milhares de apoios coloridos, que pareciam plstico, nas paredes. Jason convidara Aria para ir
ao Rocks and Ropes naquela manh por uma mensagem de texto, admitindo que no era o tipo
de cara que levava garotas para o cinema e um jantar. Na verdade, Aria teria ficado na fila do
departamento de trnsito ao lado de Jason, se aquela fosse a ideia dele de um encontro.
         Depois de se registrarem, eles foram at a grande parede e olharam em volta. Aria
observou algumas garotas enquanto elas subiam pela lateral da parede, com as cordas de
segurana amarradas ao redor de suas cinturas. Como elas conseguiam subir to alto? S de
esticar o pescoo, Aria j estava com vertigem. Ela estremeceu.
         --Voc est com medo? -- perguntou Jason.
         Aria deu uma risada nervosa.
         -- No sou to ligada a esportes.
         Jason sorriu e pegou na mo dela.
         --  divertido, garanto.
         Aria enrubesceu de prazer, feliz por Jason t-la tocado. Ela ainda precisava se beliscar
para ter certeza de que aquilo estava realmente acontecendo.
         Um dos instrutores, um homem de cabelos escuros e barba por fazer, aproximou-se com
o equipamento deles, que inclua cordas, capacetes e luvas especiais para escalada. Ele
perguntou qual dos dois queria subir primeiro. Jason apontou para Aria.
         -- Madame.
         -- Que cavalheiro! -- provocou Aria.
         -- Minha me me educou bem.
         O instrutor comeou a amarrar uma corda ao redor da cintura de Aria.
         Quando ele se afastou para procurar um gancho diferente, Aria se voltou para Jason.
         -- E a, como vai a sua famlia? -- perguntou ela, da forma mais casual possvel. --
Eles esto... bem?
         Jason olhou para alguns alpinistas do outro lado do salo por um longo tempo.
         -- Eles esto arrasados -- disse ele, depois de alguns instantes. Depois ergueu seus
olhos azuis para ela e sorriu, triste. --Todos ns estamos. Mas o que podemos fazer?
         Aria concordou, sem saber o que dizer. E se lembrou da mensagem de A no dia anterior.
        O irmo mais velho est escondendo algo de voc.
        E acredite em mim... voc no quer saber o que .
         Aria no havia reenviado a mensagem para nenhuma das amigas, com medo que elas
tirassem concluses precipitadas sobre Jason. A tinha que estar brincando com eles -- aquele
era o modus operand da velha e da nova A, afinal de contas.
         Aria presumia que A estivesse querendo dizer que o segredo de Jason tinha a ver com os
"problemas de irmos", como Jenna dizia, entre ele e Ali, mas ela no estava acreditando. No
havia a menor chance de Jason e Ali terem tido qualquer coisa que no fosse um relacionamento
fraternal carinhoso. Aria havia tentado encontrar, em suas lembranas, alguma ocasio em que
Jason tivesse sido cruel com Ali, mas no conseguira se recordar de um nico incidente. Pelo
contrrio, Jason sempre parecera extremamente protetor em relao  irm. Uma vez, no muito
tempo depois de as meninas se tornarem amigas, Aria e as outras tinham passado a noite na casa
de Ali. Elas haviam planejado fazer uma mudana no visual e todas haviam trazido suas maletas
de maquiagem -- exceto Emily, que ainda no tinha permisso para usar. Enquanto admiravam
a paleta de sombras Dior de Hanna, a sra. DiLaurentis entrou no quarto. Havia uma expresso
irritada em seu rosto.
         --Ali, voc deu uma lata inteira de rao com molho para a gata? -- perguntou a me
de Ali. A menina olhara para ela, confusa. A sra. DiLaurentis abaixou os braos, batendo-os
contra os lados do corpo. -- Querida, voc sabe que precisa misturar rao seca, no sabe? E
que deve colocar algumas gotas de remdio contra bolas de pelo na mistura? -- Ali mordeu o
lbio. A sra. DiLaurentis grunhiu e se virou. --Voc se esqueceu disso, tambm? Ela vai cuspir
bolas de pelo por todo o tapete novo!
         Ali jogou o pincel de blush de Hanna na mesa.
         -- Ser que voc pode relaxar? Eu estou no sexto ano agora, e temos muita lio de
casa! Me desculpe se estou um pouco distrada demais para me lembrar de como alimentar a
gata!
         A sra. DiLaurentis balanou a cabea.
         --Ali, voc alimenta essa gata todos os dias, desde o terceiro ano -- disse a sra.
DiLaurentis saindo do quarto, zangada.
         Um minuto depois, Jason apareceu, vindo da cozinha, com um saco de pretzels na mo.
         -- A mame est de mau humor, no ? -- perguntou ele, gentilmente. -- Eu posso
alimentar a gata para voc por alguns dias, se isso ajudar. -- Ele tocou no ombro de Ali, mas ela
se afastou.
         -- Pare com isso. Eu estou bem.
         Jason recuou com uma expresso magoada no rosto. Aria teve vontade de se levantar e
abra-lo. Ali se comportara da mesma forma no dia do anncio da Cpsula do Tempo --Jason
se aproximara de Ali e Ian na frente do bicicletrio, dizendo a Ian que deixasse Ali em paz, e ela
o mandara embora, zombando dele por cuidar tanto dela. Talvez Jason tivesse percebido que os
sentimentos de Ian por Ali no eram exatamente inocentes, e quisesse proteg-la. Talvez Ali
soubesse que Jason havia percebido, e queria que ele largasse do p dela. Se Ali e Jason tinham
"problemas de irmos", talvez fosse Ali quem os estivesse criando, e no o inverso.
         E se Jenna estivesse mentindo? Talvez Jenna tivesse inventado aquela histria sobre Ali
e Jason tendo problemas. Talvez fosse por isso que Jenna estivesse parada  beira do jardim de
Aria dois dias antes, com uma expresso culpada no rosto. Talvez ela quisesse dizer a Aria que
o que havia contado na sala de artes, alguns meses antes, no era exatamente a verdade.
         Mas por que Jenna mentiria? Poderia ela ter algo contra Jason, algum motivo para
querer virar as meninas contra ele? Poderia Jenna ser A?
         --Voc est pronta? -- perguntou o instrutor a Aria, trazendo-a de volta ao presente.
Ele estava de volta, apontando para a enorme corda amarrada no teto e na cintura de Aria. --
Voc precisa de uma aula?
         -- Eu vou ensin-la -- disse Jason. O instrutor concordou e foi buscar os grampos para
as cordas de Jason. Em seguida, Jason se aproximou de Aria e cutucou-a.
         -- No olhe agora -- disse ele em voz baixa. -- Mas acho que a velha enfermeira da
escola est aqui. Eu costumava ter pesadelos com ela.
         Aria olhou por sobre o ombro. Era mesmo verdade; uma mulher robusta, com cara de
buldogue, estava parada no lounge, perto de uma mquina de refrigerantes Mountain Dew deco-
rada com luzes neon.
         --Aquela  a sra. Boot! -- sussurrou Aria.
         Os olhos de Jason se arregalaram.
         -- Ela ainda trabalha l?
         Aria assentiu.
         -- Toda vez que eu a vejo nos corredores, fico arrepiada imediatamente. Eu nunca vou
me esquecer de ficar na fila na sala dela, no ensino fundamental, para exames de piolhos.
         -- Eu odiava aquilo. -- estremeceu Jason. Eles olharam para a sra. Boot. Ela estava
olhando para a parede de escalada com um ar de censura, como se a parede fosse um aluno de
Rosewood Day fingindo estar com febre. Em seguida, um menininho saiu correndo do vestirio,
direto para os braos da sra. Boot. A velha senhora sorriu levemente, e os dois saram juntos do
Rocks and Ropes.
         -- Eu tinha que passar muito tempo na enfermaria -- murmurou Jason. -- E sempre
que eu ia para l, a sra. Boot olhava feio para mim com o olho bom. E corria um boato de que o
olhar dela era como um raio laser, que podia derreter seu crebro.
         Aria riu.
         -- Eu ouvi esse boato, tambm. -- A, ela franziu o rosto. -- Por que voc tinha que
passar tanto tempo na enfermaria? -- Ela no se lembrava de Jason ser particularmente
propenso a doenas; ele era um astro do futebol no outono, e jogava beisebol na primavera.
         -- Eu no estava doente -- disse Jason. Ele brincou com o pequeno zper no bolso de
seu moletom. -- Eu, hum... Eu ia ao psiclogo da escola. O dr. Atkinson, Bem, ele me pediu
para cham-lo de Dave.
         -- Ah... -- disse Aria, tentando dar um sorriso. Psiclogos eram uma coisa boa, no
eram? Na verdade, a prpria Aria havia pedido a seus pais que a levassem a um, quando se mu-
daram para Reykjavk. Ali havia desaparecido apenas alguns meses antes. Ella havia sugerido a
Aria que praticasse hatha ioga, em vez disso.
         -- Foi ideia dos meus pais. -- Jason deu de ombros. -- Eu tive dificuldades para me
adaptar quando nos mudamos para Rosewood e estava no sexto ano. -- Ele revirou os olhos. --
Eu era muito tmido e meus pais acharam que me faria bem conversar com algum com um
ponto de vista objetivo. Dave no era to ruim. E, alm disso, conversar com ele me tirava da
sala de aula.
         -- Eu conheo muitas pessoas que consultavam o Dave -- disse Aria rapidamente,
embora na verdade no conhecesse ningum. Talvez aquele fosse o grande segredo que Jason
estava escondendo. No era algo que merecesse um ataque de pnico.
         O instrutor voltou, ajustou as cordas de Jason e se afastou. Jason voltou-se para Aria e
lhe perguntou com que tipo de escalada ela queria comear, fcil, intermediria, ou difcil. Aria
deu uma risada irnica.
         -- Essa  uma pergunta um tanto tola, voc no acha? -- Ela riu.
         -- S estou checando -- disse Jason, sorrindo. Ele a levou para a parte fcil da parede
e lhe mostrou como colocar o p esquerdo em um apoio e se erguer com a mo direita no outro
apoio, escalando alguns metros para demonstrar. Quando Jason subiu, pareceu fcil. Aria
escalou o primeiro apoio, seus msculos tremendo. Ela colocou a mo no apoio logo acima e se
ergueu. Incrivelmente, no caiu. Jason tinha os olhos grudados nela o tempo todo.
         --Voc est indo muito bem! -- disse ele, sorrindo.
         -- Isso  o que voc diz para todas as garotas -- grunhiu Aria. Mas continuou a subir
por alguns metros. No olhe para baixo, ela repetia para si mesma. Aria costumava ficar tonta
s de ficar parada na plataforma baixa da piscina local.
         -- E a, voc estava me dizendo no outro dia que acabou de se mudar para a casa do seu
pai e da namorada dele -- comentou Jason, acompanhando o ritmo dela. -- O que aconteceu,
afinal?
         Aria alcanou outro apoio.
         -- Meus pais se separaram quando voltei da Islndia -- comeou, pensando em como
dizer aquilo. -- Meu pai teve um caso com uma antiga aluna. Agora, eles vo se casar. E ela
est grvida.
         Jason olhou de lado para ela.
         -- Nossa.
         --  estranho. Ela no  muito mais velha que voc.
         Jason fez uma careta.
         -- Quando eles comearam a sair juntos?
         -- Quando eu estava no stimo ano -- admitiu Aria. Ela examinou os apoios logo
acima, procurando pelo melhor. Era bom que eles estivessem conversando, aquilo desviava sua
mente das dificuldades da escalada. -- Eu os peguei se beijando no carro do meu pai. -- E a,
talvez porque se lembrasse da ocasio em que Ali estourara de forma to insensvel com Jason
por causa da gata, Aria completou: -- E sua, h... sua irm... ela estava comigo. E no parava de
falar sobre o assunto.
         Aria olhou para Jason, perguntando a si mesma se teria ido longe demais. Ele tinha uma
expresso neutra no rosto que ela no conseguia interpretar.
         -- Sinto muito -- disse ela. -- Eu no devia ter dito isso.
         -- No... eu entendo. Minha irm era assim. Ela sabia exatamente qual era o ponto fraco
de uma pessoa.
         Aria se segurou na parede, subitamente cansada demais para se mover.
         --Voc tinha um ponto fraco, tambm?
         -- Uh-huh. Garotas.
         -- Garotas?
         Jason concordou.
         -- s vezes, ela costumava zombar de mim por causa de garotas. Eu era... um pouco
estranho, acho. Ela costumava me provocar por causa disso.
         -- Ela conhecia todas as nossas fraquezas, isso  verdade --disse Aria. Ela olhou para
ele cheia de culpa. -- Ainda me sinto mal falando dela para voc.
         De repente, Jason se afastou da parede, balanando-se na corda.
         -- Vamos descer um pouquinho -- disse ele. -- Escorregue pela corda.
         Aria escorregou como ele ensinou, aterrissando de forma desajeitada no tapete. Jason a
observou muito atentamente, e Aria se perguntou se cometera um erro, falando de Ali.
         Ento ele disse:
         -- Talvez seja bom que conversemos sobre ela. Quero dizer, agora Alison  um assunto
proibido, que ningum quer discutir comigo. Quando estou em casa, meus pais no mencionam
o nome dela. Quando estou com meus amigos, eles no dizem uma palavra. Eu sei que as
pessoas esto falando dela, mas quando esto perto de mim elas se calam. Eu sei que minha
irm tinha defeitos. Eu sei que algumas pessoas no gostavam dela. Algumas pessoas, mais do
que... -- Ele resmungou alguma coisa e se interrompeu, apertando os lbios com fora.
         -- O que foi? -- perguntou Aria, inclinando-se para a frente.
         Jason fez um movimento com a mo, como se quisesse apagar o que acabara de dizer.
         -- Eu gostaria que voc conversasse comigo sobre Ali.
         Aria sorriu, confortada. Falar a respeito de Ali com Jason lhe daria uma perspectiva
totalmente nova sobre quem Ali realmente era. Ela pensou se deveria contar a Jason que Ali
espalhara boatos sobre ele para Jenna Cavanaugh -- e que Jenna havia passado aqueles boatos
adiante, para Aria. Ou que Ian havia se comunicado por mensagens, dizendo que algum o
obrigara a fugir. Ou que a nova A havia ajudado Ian a escapar.
         Outro pensamento lhe ocorreu. Era por isso que A estava tentando convenc-la de que
Jason escondia alguma coisa. A queria que Aria ficasse paranoica, queria assust-la. Se Aria
comeasse a sair com Jason, era bem provvel que contasse a ele no apenas que A estava
enviando mensagens, mas tambm que A estava ajudando no malvolo plano de Ian. Os
policiais podiam no acreditar que A era real... Mas Jason provavelmente acreditaria. Afinal,
aquilo tudo girava em torno do assassinato da irm dele.
         Os dedos dos ps de Aria se contraram com a raiva que sentiu por algum estar
novamente tentando manipul-la. Ian provavelmente era culpado, e agora ele estava pondo em
prtica um joguinho complicado. Ela olhou para Jason, pronta para contar-lhe tudo.
         -- Voc est escalando aqui? -- Um menino interrompeu os pensamentos de Aria,
fazendo-a pular de susto. Ele indicou o local na parede contra o qual ela se apoiava. Aria
balanou a cabea e saiu do caminho dele. Em seguida, trs garotas passaram por ali, olhando
desconfiadas para Jason e Aria, como se os reconhecessem do noticirio. At mesmo a msica
parecia mais baixa, como se todos sentissem que uma conversa importante estava acontecendo.
         Aria calou a boca. Aquele no parecia o lugar certo para falar sobre o assunto Ali e Ian.
Talvez ela pudesse contar tudo a Jason no carro, no caminho para casa, quando estivessem
sozinhos. Em seguida, ela se lembrou do convite que estava guardado no bolso da frente de sua
bolsa de pele, que havia deixado com os casacos, junto  parede. Ainda presa s cordas, ela foi
at a bolsa e o apanhou.
         --Voc tem planos para amanh? -- perguntou ela a Jason.
         -- Acho que no. Por qu?
         -- Minha me vai expor uma de suas pinturas no saguo de um hotel novo. -- Ela
entregou o convite a ele. --Vai haver uma festa chique amanh, para a inaugurao. Minha me
vai estar l com seu novo namorado, e eu no gosto dele. Voc seria uma tima distrao. --
Ela inclinou a cabea de modo sedutor.
         Jason sorriu de volta.
         -- J faz algum tempo que eu no vou a uma festa chique. -- Ele examinou o convite
com mais ateno e o leu. E a, sua expresso mudou. Seu pomo de ado subia e descia rapida-
mente.
         -- H algo errado? -- perguntou Aria.
         -- Isso  algum tipo de brincadeira? -- A voz de Jason estava rouca.
         Aria piscou.
         -- O... O que voc quer dizer?
         -- Porque no  engraado -- disse Jason, com os olhos arregalados. Ele no parecia
exatamente zangado; era mais como se estivesse... assustado.
         -- Qual  o problema? -- perguntou Aria. -- Eu no entendo.
         Jason olhou para ela por algum tempo. Sua expresso mudou, tornando-se fechada e at
mesmo um pouco enojada, como se Aria estivesse coberta por sanguessugas da cabea aos ps.
Em seguida, para o horror dela, Jason desamarrou as cordas, foi at onde eles haviam deixado
suas coisas e colocou o casaco.
         -- Eu... Eu preciso ir.
         -- O qu? -- Aria tentou agarrar o brao dele, mas ainda estava firmemente amarrada e
no conseguia se livrar do equipamento. Jason nem sequer olhava para ela. Colocando as mos
nos bolsos, ele passou correndo pela recepo, quase colidindo com um grupo de adolescentes
que entrava.
         Poucos momentos depois, Aria finalmente conseguiu se livrar das cordas. Ela colocou o
casaco com dificuldade e correu para fora. Havia um grupo de rapazes saindo de uma Range
Rover, e uma me segurava a mo de uma garotinha, ajudando-a a entrar no carro. Aria olhou
para a direita e depois para a esquerda.
         -- Jason! -- chamou ela. Estava frio o suficiente para ela ver sua prpria respirao
condensada. Um utilitrio cantou os pneus, fazendo a curva e entrando no supermercado Wawa,
na esquina. Jason havia partido.
         Aria ficou parada sob o poste de luz na frente do clube, examinando o convite para a
festa Radley. O papel informava a data e a hora. Um homem chamado George Fritz era o
arquiteto da reforma do hotel. Havia uma lista de artistas convidados, e o nome de Ella estava
entre eles. O que poderia ter assustado Jason daquele jeito? O que ele quisera dizer com Isso 
algum tipo de brincadeira? Ele no queria conhecer a me dela? Estaria envergonhado de ser
visto com ela?
         -- Jason! -- chamou ela de novo, desta vez com a voz mais fraca. Naquele momento,
ela ouviu uma gargalhada. Aria olhou em volta, surpresa e assustada. Ela no viu ningum, mas
a risada continuou, como se algum estivesse rindo dela, e somente dela.
                                          21
                                  NADA ALM DA VERDADE
Naquela mesma noite de sexta-feira, Emily esperava junto  calada da casa de Isaac, nervosa,
observando quando ele saiu pela porta da frente e correu at o carro dela.
         -- Oi! -- disse ele, e a olhou para o cu. -- Parece que vai nevar.Voc tem certeza de
que quer dar uma volta de carro?
         Emily acenou rapidamente com a cabea. Isaac havia lhe enviado uma mensagem
depois da aula, perguntando se ela iria v-lo naquela noite. No comeo, Emily pensara que fosse
uma brincadeira. Mas quando ele enviara outra mensagem, querendo saber por que ela no
havia respondido, Emily se perguntou se a sra. Colbert no contara a ele que a havia
confrontado no Applebee's, na noite anterior, e j sabia que eles estavam dormindo juntos.
Talvez Isaac ainda tivesse a impresso de que tudo estava bem.
         Mas no havia chance de Emily colocar os ps na casa dos Colbert, ainda que os pais
dele fossem estar fora, arrumando a festa de inaugurao do Radley, a noite inteira. Emily no
era o tipo de garota que desobedecia s ordens dos adultos, mesmo que elas parecessem cruis,
injustas e sem sentido. No entanto, o que ela deveria fazer? Nunca mais visitar Isaac em sua
casa novamente? Inventar desculpas esfarrapadas sempre que ele quisesse que ela fosse at l?
Na noite anterior, quando Emily e Carolyn estavam se preparando para dormir, no quarto que
dividiam, Carolyn perguntara novamente por que Emily sara do Applebee's chorando. Ento
Emily contou o que a sra. Colbert havia dito. Carolyn se sentara na cama, horrorizada.
         -- Por que ela diria que voc desrespeitou a casa dela? -- perguntou Carolyn. -- Ser
que  por causa daquela histria com Maya?
         Emily balanou a cabea.
         -- Eu duvido. -- Ela se sentiu envergonhada. Se seus pais a apanhassem dormindo com
Isaac em seu quarto, provavelmente o manteriam afastado com uma ordem judicial. -- Talvez
eu tenha merecido -- murmurou.
         As duas ficaram em silncio, ouvindo o barulho das espigas de milho, na plantao que
ficava atrs da casa, farfalhando ao vento. -- Eu no sei o que faria se a me de Topher me
odiasse -- disse Carolyn na escurido. -- No tenho certeza se poderamos continuar juntos.
         -- Eu sei -- respondeu Emily, com um grande n na garganta.
         -- Mas voc tem que conversar com Isaac sobre isso -- disse Carolyn. --Tem que ser
honesta com ele.
         -- Emily?
         Ela piscou. Isaac havia afivelado o cinto de segurana e estava pronto para ir. O corpo
inteiro de Emily tremia. Os cabelos de Isaac estavam penteados para trs, deixando seu rosto 
mostra, e ele usava um cachecol verde-escuro, enrolado vrias vezes ao redor do pescoo.
Quando sorria, seus dentes brancos brilhavam. Ele se inclinou para beij-la, mas ela ficou tensa,
como se estivesse esperando que uma sirene tocasse e a sra. Colbert saltasse de trs de uma
moita, pronta para lev-lo embora.
         Emily virou a cabea, fingindo mexer nas chaves do carro. Isaac recuou. Mesmo no
carro escuro, Emily podia ver a pequena ruga que se formava no canto do olho direito de Isaac,
sempre que ele estava preocupado.
         --Voc est bem? -- perguntou ele.
         Emily olhou para a frente.
         -- Estou. -- Ela engatou a primeira marcha do Volvo e deu partida no carro.
         -- Est animada para a festa do Radley, amanh? -- perguntou Isaac. -- Eu aluguei um
smoking, desta vez. Melhor que o terno velho do meu pai, no acha? -- Ele riu.
         Emily mordeu o lbio inferior, espantada. Ele ainda achava que eles poderiam ir  festa
do Radley?
         -- Claro -- disse ela.
         -- Meu pai est totalmente estressado com o servio de buffet, e fica me censurando
por no ajud-lo de novo, porque tenho um encontro. -- Isaac sorriu e a cutucou nas costelas.
Emily apertou o volante com fora, seus olhos se enchendo de lgrimas. Ela no podia suportar
mais aquilo.
         -- Quer dizer que... seus pais no lhe disseram nada sobre no irmos juntos? --
balbuciou ela.
         Isaac olhou para ela com curiosidade.
         -- Bem, eu mal os vi nos ltimos dias, eles esto muito ocupados. Mas por que no
iriam querer que fssemos juntos? Eles estavam l quando eu a convidei.
         Um carro passou na direo contrria, a luz alta dos faris ofuscando a vista de Emily.
Ela no disse nada.
         -- Voc tem certeza de que est bem? -- perguntou Isaac novamente.
         Emily engoliu em seco. Ela sentiu gosto de manteiga de amendoim na boca, a sensao
que sempre tinha quando se sentia encurralada. Havia um Wawa  direita, e, antes que soubesse
o que estava fazendo, ela j estava entrando no estacionamento e indo para a rea atrs do
supermercado, perto de uma enorme lata de lixo verde. Depois de parar o carro, Emily encostou
a cabea no volante e deixou escapar um soluo.
         -- Emily? -- disse Isaac, preocupado. -- O que foi?
         Lgrimas ofuscavam a vista de Emily. Por mais que ela no quisesse dizer aquilo, sabia
que precisava. Ela girou o anel azul que ele lhe dera no outro dia ao redor do dedo.
         -- ... a sua me.
         Isaac acariciava-lhe as costas, desenhando oitos com os dedos.
         -- O que tem a minha me?
         Emily passou as mos pelas pernas dos jeans, suspirando. Seja honesta, Carolyn lhe
dissera. Ela podia ser honesta com Isaac, no podia?
         -- Ela sabe que... voc sabe. Que dormimos juntos -- gemeu Emily. -- E ela disse
todas aquelas coisas estranhas para mim, no jantar. Como se estivesse insinuando que eu era...
fcil. E a, quando eu estava lavando a loua, naquela noite, encontrei uma foto de ns dois, no
evento beneficente de Rosewood Day, semana passada. E a sua me cortou minha cabea da
foto. S a minha cabea. -- Ela engoliu em seco, sem ter coragem suficiente para olhar para ele.
-- Mesmo assim, achei que talvez estivesse exagerando, e no quis dizer nada. Mas a, na noite
passada, fui ao Applebee's com Carolyn. E... a sua me estava l. Ela veio falar comigo e disse
que eu nunca mais poderia colocar os ps na sua casa novamente. -- A voz dela falhou na
palavra novamente.
         O carro estava silencioso. Emily fechou os olhos com fora. Ela se sentia pssima e
aliviada, ao mesmo tempo. Era como se tivesse tirado um peso dos ombros ao dizer tudo em voz
alta.
         Finalmente, ela olhou para Isaac. Ele franziu o nariz, como se tivesse sentido o cheiro
de algo podre na lata de lixo. Uma nova preocupao a invadiu. E se aquilo arruinasse o
relacionamento de Isaac com a me para sempre?
         Isaac respirou fundo.
         -- Ah, Emily, qual ?
         Emily piscou.
         -- O qu?
         Isaac se moveu no banco do passageiro, virando-se para ela. Ele tinha uma expresso
magoada e decepcionada no rosto.
        -- Minha me nunca cortaria a sua cabea de uma foto. Isso parece coisa de criana. E
ela jamais a confrontaria no Applebee's para lhe dizer essas coisas. Talvez voc tenha entendido
mal.
        O sangue de Emily comeou a pulsar forte nas veias.
        -- Eu no entendi mal.
        Isaac balanou a cabea.
        -- Minha me adora voc. Ela me disse. Ela est feliz por estarmos juntos. E nunca me
disse nada sobre proibi-la de ir  nossa casa.Voc no acha que ela me diria isso?
        Emily deu. uma gargalhada.
        -- Talvez ela no tenha lhe contado porque queria que eu fizesse isso. Ela queria que eu
fosse a vil da histria. E  exatamente o que est acontecendo.
        Isaac ficou em silncio por um longo tempo, olhando para as prprias mos. As pontas
de seus dedos tinham calos, causados por tantos anos tocando violo.
        -- A minha ex-namorada fez exatamente a mesma coisa no ano passado -- disse ele,
devagar. -- Ela disse que a minha famlia estava dizendo a ela para se afastar de mim.
        -- Talvez a sua me estivesse fazendo a mesma coisa com ela! -- gritou Emily.
        Isaac balanou a cabea.
        -- Ela me disse, mais tarde, que tinha inventado tudo. Ela fez aquilo para chamar minha
ateno. -- Ele olhou srio para Emily, como se estivesse esperando que ela entendesse a in-
direta.
        A pele de Emily passou de febril para gelada.
        -- O qu, assim como ver o cadver de Ian no bosque  um modo de chamar a ateno?
-- guinchou ela.
        Isaac levantou as mos, impotente.
        -- No estou dizendo isso.  que... eu queria sair com algum que no fizesse drama. E
pensei que voc quisesse, tambm. A minha namorada tem que gostar da minha famlia, e no
declarar guerra a ela.
        -- No  isso que eu estou fazendo! -- choramingou Emily.
        Isaac abriu a porta do passageiro com fora e saiu do carro. Um ar gelado entrou no
veculo, atingindo a pele nua de Emily.
        -- O que voc est fazendo? -- perguntou ela.
        Ele se inclinou por sobre a porta aberta, com uma expresso solene.
        -- Acho melhor ir para casa.
        -- No! -- gritou Emily. Ela abriu a prpria porta, saiu do carro e o seguiu pelo
estacionamento. -- Isaac, volte!
        Isaac j estava atravessando a pequena trilha de madeira que levava do estacionamento
do Wawa at a rua. Ele olhou por sobre o ombro.
        --  da minha me que voc est falando. Pense no que est dizendo. Pense bem.
        -- Eu pensei sobre isso! -- gritou Emily. Mas Isaac continuou andando, sem responder.
Ela parou na frente do supermercado, esgotada. Sobre sua cabea, o letreiro de neon do Wawa
piscava. Havia uma fila de crianas no balco, comprando caf, refrigerantes e doces. Ela
esperou que Isaac voltasse, mas ele no fez isso. Por fim, Emily voltou para o carro. O interior
do Volvo cheirava ao sabo em p da casa dos Colbert, e o banco do passageiro ainda estava
quente do corpo de Isaac. Pelo menos por dez minutos, ela olhou fixamente para a lata de lixo,
sem saber o que pensar do que acabara de acontecer.
        Um pequeno rudo veio de dentro de sua bolsa. Emily a vasculhou, procurando o
telefone. Talvez fosse Isaac, escrevendo para se desculpar. E talvez ela devesse se desculpar,
tambm. Ele e a me eram prximos, e ela certamente no queria odiar a famlia dele. Talvez
devesse ter encontrado outra forma de lhe dar a notcia, em vez de bombarde-lo com ela.
        Emily abriu a nova mensagem, engolindo o choro. No era de Isaac.
       Distrada demais para decifrar minhas pistas? V at
       a antiga casa do seu primeiro amor e talvez tudo faa
       sentido. - A
         Emily olhou fixamente para o visor. Ela j estava cheia daquelas pistas vagas. O que A
queria, afinal?
         Ela saiu lentamente do estacionamento do Wawa, freando para deixar um jipe cheio de
garotos do ensino mdio passar na frente. V at a antiga casa do seu primeiro amor. A
obviamente se referia a Ali. Ela morderia a isca; o antigo bairro de Ali ficava apenas a alguns
quarteires de distncia. O que mais ela precisava fazer, agora? No era como se pudesse bater
na porta de Isaac, implorando para que ele voltasse.
         Emily entrou em uma rua silenciosa, com hectares de terrenos de fazendas, as lgrimas
ainda lhe ardendo nos olhos. O sinal de entrada para a rua de Ali apareceu rapidamente. Havia
outro sinal, na entrada do bairro, alertando para a presena de crianas. Anos antes, em uma
noite quente e mida de vero, Ali e Emily haviam decorado o sinal com adesivos de rostos
sorridentes que haviam comprado em uma loja especializada em festas. No havia vestgios
deles, agora.
         A antiga casa de Ali ficava no final da rua, e o memorial dela era uma sombra escura
prxima  calada. A famlia de Maya morava na casa, agora. Algumas luzes estavam acesas,
inclusive a do antigo quarto de Ali... O novo quarto de Maya. Enquanto Emily observava, Maya
apareceu, quase como se soubesse que ela estava ali.
         Emily se assustou e se afastou da janela do carro, agarrando o volante e contornando a
rua sem sada. Quando estava na frente da calada da casa de Spencer, ela parou o carro,
abalada demais para continuar dirigindo. Em seguida, ela vislumbrou algo  sua direita.
Algum, vestindo uma camiseta branca, estava parado perto da janela da frente da casa dos
Cavanaugh.
         Emily desligou os faris. Quem quer que estivesse prximo  janela, era alto e largo,
provavelmente um rapaz. Seu rosto estava obscurecido pela luz de uma lmpada grande e
quadrada no cho. De repente, Jenna apareceu ao seu lado. Emily prendeu a respirao. Os
cabelos escuros de Jenna lhe cascateavam pelos ombros. Ela vestia uma camiseta preta e calas
de pijama lisas. Seu cachorro estava sentado junto a ela, coando o pescoo com a pata traseira.
Jenna se virou e disse alguma coisa para o rapaz. Ela falou por um longo tempo, e a ele disse
algo em resposta. Jenna concordou, ouvindo. O rapaz balanou os braos, como se Jenna
pudesse ver seus gestos. Seu rosto ainda estava escondido pelas sombras. A postura de Jenna se
tornou defensiva e o rapaz falou novamente. Ela abaixou a cabea, como se estivesse
envergonhada, e afastou algumas mechas de cabelo dos grandes culos escuros Gucci. Ela disse
mais alguma coisa, seu rosto contorcido com uma expresso que Emily no conseguia
determinar direito. Tristeza? Preocupao? Medo? Logo depois, Jenna se afastou e seu cachorro
a seguiu.
         O rapaz passou as mos pelos cabelos, obviamente frustrado. Em seguida, a luz da sala
de visitas se acendeu. Emily se inclinou para a frente, esforando-se para enxergar melhor, mas
no conseguia ver nada. Ela olhou ao redor, para o jardim da casa de Jenna. Ainda havia blocos
de madeira fixados no tronco da rvore, como se fossem degraus para chegar  velha casa de
Toby. O sr. Cavanaugh havia desmontado a casa da rvore pouco depois que os fogos de
artifcio cegaram Jenna. Era surpreendente que depois de todo aquele tempo os Cavanaugh
ainda culpassem Toby pela cegueira da irm. Na verdade, fora Ali a culpada. E fora Jenna quem
tivera a ideia, para se livrar de Toby de uma vez por todas.
         A porta da frente da casa dos Cavanaugh se abriu e Emily se abaixou de novo. O rapaz
na sala de visitas desceu os degraus da entrada e se dirigiu para a trilha escura que atravessava o
jardim. Quando a luz do sensor de movimento sobre os portes da garagem se acendeu, ele
parou, sobressaltado. Emily o viu de frente, inundado pela luz. Ele usava tnis de corrida e um
casaco pesado. Os punhos das duas mos estavam cerrados com raiva. Quando os olhos de
Emily caram sobre seu rosto, o estmago dela pareceu escorregar at seus ps. Ele estava
olhando diretamente para ela, e ela percebeu imediatamente quem era.
         -- Oh, meu Deus -- sussurrou ela. Aqueles cabelos louros desgrenhados, aqueles lbios
em forma de corao, aqueles olhos incrivelmente azuis, ainda presos aos dela.
         Era Jason DiLaurentis.
        Emily engatou a primeira marcha e disparou pela rua. Somente quando chegou 
esquina, ligou os faris de novo. E a ouviu o bipe do celular. Ela vasculhou a bolsa, encontrou
o telefone e olhou para o visor.
        Uma nova mensagem de texto.
       Por que voc acha que ELE est to zangado?  A
                                          22
                             NADA COMO UM ULTIMATO PARA
                              COMEAR O FIM DE SEMANA
E l estava ela. A grande casa vitoriana, na esquina da rua sem sada, com suas trelias de rosas
ao longo da cerca e o deque de madeira no quintal dos fundos.
        Uma fita amarela da polcia, com o aviso de No ultrapassar, deveria estar cercando o
buraco meio escavado nos fundos da casa... Mas no havia fita em lugar algum. Na verdade, no
havia um buraco em lugar algum. O jardim era um gramado amplo e recm-cortado, intocado
por escavadeiras ou guindastes.
        Hanna olhou para baixo. Estava montada em sua velha mountain bike, a mesma que
nunca mais tinha usado desde que tirara a carteira de motorista. E suas mos estavam inchadas.
Seus jeans estavam apertados no traseiro e suas coxas pareciam enormes. Uma mecha castanho-
escura caa sobre seus olhos. Ela passou a lngua pelos dentes e sentiu o metal duro do aparelho.
Quando olhou para o quintal de Ali, viu Spencer agachada por detrs dos arbustos de framboesa
que marcavam a diviso entre a casa de Ali e a dela. Os cabelos de Spencer estavam mais curtos
e um pouco mais claros, como eram no sexto ano. L estava Emily, magricela, com rostinho de
beb, atrs dos tomateiros, olhando aflita de um lado para o outro. E Aria, com grandes mechas
cor-de-rosa nos cabelos, vestindo uma tnica alem esquisita, estava escondida atrs de um
grande carvalho.
        Hanna estremeceu. Ela sabia por que estavam ali; elas queriam roubar a bandeira de Ali.
Aquele era o sbado seguinte ao incio da temporada da Cpsula do Tempo.
        As quatro garotas marcharam em direo uma  outra, irritadas. Em seguida, elas
ouviram um barulho surdo e a porta dos fundos da casa de Ali foi aberta. Hanna e as outras se
esconderam atrs das rvores, enquanto Jason saa correndo pelo gramado. A porta dos fundos
bateu novamente. Ali estava na varanda, com as mos na cintura, seus cabelos louros
cascateando pelos ombros, os lbios rosados e brilhantes.
        --Vocs podem sair -- gritou ela.
        Suspirando, Ali marchou pelo gramado, seus saltos altos afundando na grama molhada.
Quando se aproximou de Hanna e das outras, colocou a mo no bolso e retirou um pedao de
pano azul brilhante. Aquilo se parecia exatamente com o pedao da bandeira da Cpsula do
Tempo que Hanna encontrara na Steam, alguns dias antes.
        Mas Ali no tinha perdido sua bandeira? Hanna olhou para as outras, confusa, mas suas
antigas amigas no pareciam notar nada estranho.
        -- Bem, foi assim que eu a decorei -- explicou Ali, apontando para os diferentes
desenhos na bandeira. --Aqui est o logotipo da Chanel. E este  o sapinho de mang, e esta a
jogadora de hquei. E vocs no adoraram este padro Louis Vuitton?
        -- A bandeira parece uma bolsa! -- comentou Spencer, admirada. Hanna olhou para
elas com certo desconforto. Algo parecia errado. Aquilo no estava acontecendo do jeito que
deveria. E a, Ali estalou os dedos, e as velhas amigas de Hanna ficaram imveis. A mo de
Aria pendia, sem se mexer, quase tocando a bandeira de Ali. Algumas mechas dos cabelos de
Emily estavam suspensas no ar, apanhadas por uma brisa. Spencer exibia uma estranha
expresso no rosto, algo entre um sorriso falso e uma careta.
        Hanna mexeu os dedos. Ela era a nica que no parecia congelada. Olhou para Ali, seu
corao batendo com fora. Ali sorriu docemente.
        -- Voc parece muito melhor, Hanna. Completamente recuperada, hein?
        Hanna olhou para seus jeans muito apertados e correu as mos pelos cabelos
embaraados. Recuperada no era a palavra que ela teria escolhido. Sua recuperao, de
perdedora para diva, demoraria alguns anos para acontecer.
        Ali balanou a cabea, percebendo a confuso de Hanna.
        -- Do acidente, sua boba. Voc no se lembra de mim, no hospital?
        -- H-hospital?
        Ali aproximou o rosto do de Hanna.
        -- Dizem que as pessoas sempre devem falar com pacientes em coma. Eles podem
ouvir. Voc me ouviu?
        Hanna se sentiu tonta. De repente, estava de volta ao seu quarto de hospital, no
Rosewood Memorial, para onde os paramdicos a haviam levado depois do acidente de carro.
Havia uma lmpada redonda e fluorescente sobre sua cabea. Ela podia ouvir o zumbido das
vrias mquinas que monitoravam seus sinais vitais e a alimentavam por meio intravenoso. No
espao confuso entre o coma e a conscincia, Hanna pensou ter visto algum perto de sua cama.
Algum que se parecia assustadoramente com Ali.
        -- Est tudo bem -- sussurrou a garota, sua voz exatamente a mesma de Ali. -- Eu
estou bem.
        Hanna olhou fixamente para Ali.
        -- Aquilo foi um sonho.
        Ali ergueu uma sobrancelha de modo provocador, como se dissesse, Foi mesmo? Hanna
olhou para suas velhas amigas. Elas ainda estavam imveis. Ela gostaria que as meninas se mo-
vessem -- estava se sentindo sozinha demais com Ali, como se as duas fossem as nicas
pessoas que restavam no mundo inteiro.
        Ali sacudiu a bandeira da Cpsula do Tempo no rosto de Hanna.
        -- Est vendo isto? Voc precisa encontr-la, Hanna.
        Hanna balanou a cabea.
        -- Ali, sua bandeira est perdida para sempre. Lembra?
        -- Ahhhhh, no! -- protestou Ali. -- Ainda est aqui. Se voc a encontrar, vou lhe
contar tudo a respeito.
        Hanna arregalou os olhos.
        -- Tudo a respeito... do qu?
        Ali encostou um dedo nos lbios.
        -- Daqueles dois. -- Ela riu, de forma estranha.
        -- Daqueles dois... o qu?
        -- Eles sabem de tudo.
        Hanna piscou.
        -- O qu? Quem?
        Ali revirou os olhos.
        -- Hanna, voc  to lerda. -- Ela olhou diretamente para Hanna. -- s vezes, no
percebo que estou cantando. Voc se lembra disso?
        -- O que voc quer dizer? -- perguntou Hanna, desesperada. -- Cantar... o qu?
        -- Ora, vamos l, Hanna. -- Ali parecia entediada. Ela olhou para o cu, pensando por
um momento. -- Tudo bem, e quanto ... pescaria?
        -- Pescaria? -- repetiu Hanna. -- A brincadeira?
        Ali grunhiu, frustrada.
        -- No. Pescaria. -- Ela sacudiu os braos, tentando fazer Hanna entender. --
Pescaria!
        -- Do que voc est falando? -- gritou Hanna, desesperadamente.
        -- PESCARIA! -- gritou Ali. -- Pescaria! Pescaria! -- Ela repetia a palavra sem parar,
como se fosse a nica coisa que conseguia dizer. Quando ela tocou o rosto de Hanna com as
pontas dos dedos, a pele de Hanna parecia grudenta e mida. Hanna levou as mos ao rosto,
alarmada. Quando as afastou, elas estavam cobertas de sangue.
        Hanna levantou-se abruptamente, seus olhos se abrindo assustados. Ela estava em seu
quarto. A luz plida da manh atravessava as janelas. Era manh de sbado, mas uma manh de
sbado do ensino mdio, e no do sexto ano. Dot estava sentado no travesseiro de Hanna,
lambendo seu rosto. Ela tocou seu rosto. No havia sangue nele, s baba de cachorro.
        Voc precisa encontr-la, Hanna. Se voc a encontrar, vou lhe contar tudo a respeito.
        Hanna grunhiu, esfregou os olhos e apanhou sua bandeira da Cpsula do Tempo sobre o
criado mudo. Tinha sido apenas um sonho bobo. Fim da histria.
        Ela ouviu vozes no corredor; primeiro o tom brincalho de seu pai, e em seguida a
risada estridente de Kate. Hanna segurou os lenis com fora. J chega. Kate poderia ter
roubado o pai de Hanna, mas no iria roubar Mike tambm.
        De repente, as imagens urgentes do sonho desapareceram. Hanna pulou da cama e
colocou seu vestido justo de caxemira. Na aula de ingls, no dia anterior, ela havia escutado
Noel Kahn dizer a Mason Byers que a equipe de lacrosse se encontraria para um treino no fim
de semana, no Philly Sports Club. Ela estava com a impresso de que onde Noel estivesse, Mike
tambm estaria. Hanna ainda no havia falado com Mike sobre levar Kate para a festa de
inaugurao do hotel Radley, porque no sabia o que dizer. Mas agora sabia. Havia apenas uma
garota com a qual Mike deveria ter um relacionamento exclusivo: Hanna. E j era hora de tirar
Kate da equao de uma vez por todas.
O Philly Sports Club ficava na seo do Shopping King James cujas lojas no eram
consideradas de luxo: lugares que eram como guetos, como a Old Navy e a Charlotte Russe;
Hanna estremeceu: como a JCPenney. Hanna no colocava os ps naquele lugar havia anos; os
tecidos com acrlico, camisetas massificadas e colees de moda assinadas por
pseudocelebridades lhe davam arrepios.
       Ela estacionou o Prius e apertou o boto da trava trs vezes, com fora, observando o
Honda enferrujado que estava parado ali perto. Enquanto caminhava pelo estacionamento, seu
iPhone piscou, indicando que ela havia recebido uma mensagem. Ela apanhou o celular, seu
estmago se revirando. A no poderia t-la encontrado, poderia?
       A mensagem era de Emily.
       Vc est por a? Recebi outra msg. Precisamos conversar.
         Hanna colocou o telefone de novo no bolso, mordendo o lbio com fora. Ela sabia que
deveria ligar para Emily de volta e contar a ela sobre como Wilden havia se comportado
estranhamente, quando a levara para casa no dia anterior... Mas naquele momento estava
ocupada demais. Ainda assim, o sonho que tivera naquela manh ainda a perturbava. O que seu
crebro estava tentando lhe dizer? Ali saberia onde sua bandeira tinha ido parar? Ser que havia
algo na bandeira de Ali que dava alguma pista do que acontecera com ela? E a Ali dissera, s
vezes, no percebo que estou cantando, esperando que Hanna soubesse do que ela estava
falando. Seria aquilo algo que Ali costumava dizer, ou seria algo que algum costumava dizer a
Ali? Hanna no se lembrava de nenhuma das duas coisas. Ela havia examinado cuidadosamente
at mesmo os personagens menos importantes na vida de Ali, como o estudante holands em
intercmbio que dera a Ali um par de tamancos de madeira como prova de sua afeio, e o pi-
loto de jet ski em Poconos, de cabelos ensebados, que sempre dizia a Ali que havia "esquentado
o banco s para ela", ou o sr. Salt, o nico bibliotecrio homem da escola, que sempre dizia a
Ali que traria sua primeira edio de Harry Potter especialmente para ela, se ela quisesse ler.
Eca. Hanna no conseguia se lembrar de ningum dizendo alguma coisa estranha a respeito de
cantar. A frase soava, de algum modo, familiar, mas provavelmente era apenas um trecho idiota
de alguma msica que Kate ouvia, ou algum slogan imbecil em um adesivo para carros,
provavelmente do Coral do Colgio Rosewood Day.
        A msica eletrnica dentro do ginsio chegou aos ouvidos de Hanna antes que ela
pudesse abrir a porta da frente. Uma garota vestindo um top cor-de-rosa e calas pretas de ioga
sorriu para ela por detrs da mesa da recepo.
        -- Bem-vinda ao Philly Sports Club! -- cantarolou ela. --Voc poderia se registrar,
por favor? -- Ela segurava um aparelho que parecia um leitor de cdigo de barras, para checar a
identidade de Hanna.
        -- Eu fui convidada -- respondeu Hanna.
        -- Oh! -- A garota tinha olhos grandes que no piscavam; um rosto redondo e uma
expresso tola. Ela fazia Hanna se lembrar do boneco do personagem Garibaldo que pertencia a
seus vizinhos gmeos de seis anos. -- Voc poderia preencher a ficha de convidada, ento? --
continuou a recepcionista. -- So dez dlares para malhar durante um dia.
        -- No, obrigada! -- respondeu Hanna, passando direto por ela. Como se ela um dia
fosse pagar para usar aquela espelunca! A recepcionista soltou uma pequena exclamao
indignada, mas Hanna no se virou. Seus saltos altos ecoavam pelo cho enquanto ela passava
por uma lojinha que vendia shorts de laicra, protetores de neoprene para iPods e sutis
esportivos, e pelas grandes prateleiras onde ficavam as toalhas. Hanna franziu o nariz. Aquele
buraco no tinha sequer um bar decente onde ela pudesse tomar uma vitamina? As pessoas
provavelmente urinavam nos chuveiros, tambm.
        O som da linha de baixo da msica invadia os ouvidos de Hanna. Do outro lado da sala,
uma garota magra como um palito, com veias aparentes nos braos, exercitava-se
freneticamente em um aparelho de elipse. Um garoto de cabelos cacheados e molhados
higienizava uma esteira. Hanna ouviu o barulho de metal colidindo,  distncia. De fato, a
equipe inteira de lacrosse de Rosewood Day estava em um dos cantos da sala, fazendo
musculao. Noel exercitava os braos na frente de um espelho, admirando a si mesmo. James
Freed fazia caretas enquanto se equilibrava sobre uma bola de pilates. E Mike Montgomery
estava deitado em uma das pranchas de musculao, com as mos em torno de uma barra,
preparando-se para levant-la.
        Bingo.
        Hanna esperou Mike levar a barra  altura do peito, e em seguida caminhou at ele,
enxotando Mason Byers, o treinador.
        -- Posso assumir agora. -- Ela se inclinou sobre Mike e sorriu.
        Os olhos de Mike se arregalaram.
        -- Hanna!
        -- Oi -- disse Hanna com frieza.
        Mike comeou a levantar a barra para coloc-la de volta no apoio, mas Hanna o
interrompeu.
        -- No to depressa -- disse ela. -- Primeiro tenho algo para discutir com voc.
        Algumas gotas de suor brotaram na testa de Mike, e seus braos estremeceram.
        -- O que ?
        Hanna jogou os cabelos por sobre os ombros.
        -- Bem. Se voc quer sair comigo, no pode sair com mais ningum. Inclusive a Kate.
        Mike soltou um grunhido. Seus bceps comearam a tremer. Ele olhou para ela, com
uma expresso suplicante.
        -- Por favor. Vou acabar derrubando isto sobre o peito. -- O rosto dele comeou a ficar
vermelho.
        Hanna deu um muxoxo, em tom de censura.
        -- Pensei que voc fosse mais forte do que isso.
        -- Por favor -- implorou Mike.
        -- Me prometa primeiro -- insistiu Hanna. Ela se inclinou um pouco mais, oferecendo
a ele uma viso melhor de seu decote. Os olhos de Mike se desviaram para a direita. Os tendes
em seu pescoo estavam visveis.
        -- Kate me pediu para ir  festa do hotel Radley antes que eu soubesse que voc queria
um compromisso exclusivo. No posso desconvid-la.
        -- Pode, sim -- rosnou Hanna. --  fcil.
         -- Eu tenho uma ideia -- disse Mike, meio engasgado. -- Me deixe abaixar isto e vou
contar a voc.
         Hanna deu um passo para o lado e deixou que ele colocasse a barra no apoio. Mike
deixou escapar um grande suspiro, sentou-se e se alongou. Hanna ficou surpresa ao ver como
seus braos eram bem definidos. Ela estava certa no outro dia quando imaginara que Mike seria
ainda mais bonito do que o oficial Wilden, depois de uma chuveirada.
         Ela estendeu uma toalha em um banco vazio prximo a ele e sentou-se.
         -- Certo. Fale.
         Mike apanhou uma toalha que estava no cho perto da prancha e enxugou o rosto.
         -- Eu posso ser comprado, se voc estiver interessada. Se voc fizer algo por mim, eu
desconvido Kate.
         -- O que voc quer?
         -- Sua bandeira.
         -- De jeito nenhum. -- Ela balanou a cabea.
         -- Certo, ento v comigo ao baile de formatura -- disse Mike.
         O queixo de Hanna caiu e ela ficou momentaneamente surpresa.
         -- O baile  daqui a quatro meses.
         -- Ora, um cara precisa confirmar sua parceira com antecedncia. -- Mike deu de
ombros. -- E isso me dar tempo de encontrar o par de sapatos perfeito. -- Ele bateu os clios,
como uma garota.
         Hanna correu as mos pela nuca, tentando ignorar os outros garotos do time, que
estavam assobiando para ela da rea de pesos. Se Mike queria que ela fosse com ele ao baile de
formatura, aquilo significava que ele gostava mais de Hanna, certo? E significava que ela
vencera. Um sorriso tomou conta de seus lbios. Tome isso, sua vagabunda. Ela mal podia
esperar para ver a cara de Kate, quando contasse a ela.
         -- Tudo bem -- disse ela. -- Irei com voc ao baile.
         -- timo -- disse Mike. Ele olhou para sua camiseta molhada. -- Eu lhe daria um
abrao para comemorar, mas no quero que fique toda suada.
         -- Gracias -- disse Hanna, revirando os olhos. Ela saiu rebolando do ginsio, fazendo
movimentos exagerados com os quadris. -- Pego voc s oito -- disse, por sobre o ombro. --
Sozinha.
         A garota Garibaldo estava esperando por Hanna perto da lanchonete. Um homem
careca, com bceps tatuados e um bigode reto, estava atrs dela.
         -- Senhorita, se quer usar esta academia, tem que pagar a taxa de convidada -- disse a
garota, hesitando. Suas faces estavam da cor da faixa vermelha em sua testa. -- E se voc no
quiser fazer isso, ento...
         -- Eu j terminei por aqui -- interrompeu Hanna, passando por ambos. A garota e seu
segurana se viraram, observando-a se afastar. Nenhum dos dois se moveu, nem fez meno de
par-la. E, obviamente, aquilo se devia ao fato de ela ser Hanna Marin. E de ser inevitvel e
inacreditavelmente fabulosa.
                                           23
                               LIVRO DO ANO: MEMRIAS QUE
                                   DURAM TODA UMA VIDA
Naquela tarde, um caminho da UPS estacionou junto  calada da nova casa do pai de Aria. O
entregador, vestindo uma camiseta azul de mangas compridas por baixo da camisa marrom de
mangas curtas da UPS, estendeu uma caixa para Aria. Ela lhe agradeceu e olhou para a etiqueta.
Sapatinhos orgnicos de beb. O endereo para devoluo era Santa F, Novo Mxico. Quem
diria que sapatinhos de beb deixariam uma pegada de carbono to grande?
        O telefone dela emitiu um bipe e ela colocou a mo no bolso do suter para apanh-lo.
Era uma mensagem de Ella.
        Voc vai  festa Radley esta noite?
        Outra mensagem chegou em seguida.
        Espero que voc possa ir... Sinto saudades suas!
        E depois mais uma.
        Significaria tanto para mim!
        Aria suspirou. Ella mandara mensagens de texto parecidas a manh inteira, implorando-
lhe por uma resposta. Se Aria dissesse que no queria ir  festa Radley, Ella inevitavelmente
perguntaria o motivo, e o que Aria faria, ento? Diria a ela que no queria estar a menos de dez
metros de seu namorado esquisito? Inventaria uma mentira que poderia fazer sua me pensar
que ela no queria apoiar sua carreira artstica? J era ruim o suficiente que Aria no tivesse ido
 casa de Ella uma vez sequer naquela semana. No havia como escapar, ela teria que se
conformar e lidar com Xavier do melhor modo possvel. Se pelo menos Jason fosse com ela...
        Seu telefone emitiu outro bipe. Aria c1icou no cone da nova mensagem, esperando que
fosse mais um texto de Ella. Em vez disso, era um e-mail. O nome do remetente era Jason
DiLaurentis.
        O corao de Aria deu um pulo. Ela abriu o e-mail rapidamente.
        Escute. Eu andei pensando. Eu exagerei l no Rocks and
        Ropes ontem. Quero me explicar. Voc quer me encontrar
        na minha casa, em uma hora?
        Sob a mensagem estava o endereo dele, em Yarmouth.
        No use a entrada regular, explicou Jason. Estou no an-
        dar de cima, no apartamento sobre a garagem.
         Parece uma boa ideia, respondeu Aria.
         Ela passou os braos em torno de si mesma, feliz e aliviada. Ento havia uma
explicao para tudo aquilo... Talvez Jason no a odiasse.
         Seu telefone tocou mais uma vez. Aria olhou para o visor. Era Emily. Depois de uma
pausa relutante, atendeu.
         -- Preciso falar com voc -- disse Emily, com um tom de voz urgente. --  sobre o
Jason.
         Aria grunhiu.
         --Voc est tirando concluses precipitadas. Ali mentiu para Jenna sobre ele.
         -- No tenha tanta certeza.
         Emily estava para dizer mais alguma coisa, mas Aria a interrompeu.
         -- Eu gostaria de no ter lhe contado o que Jenna disse. Isso no trouxe nada alm de
problemas.
         -- Mas... -- protestou Emily. -- Era a verdade!
         Aria bateu a mo na testa.
         -- Emily, voc colocou a Ali num pedestal. Ela era uma vagabunda mentirosa, falsa e
manipuladora comigo, com Jason, e com voc, tambm. Aceite isso. -- Em seguida, Aria desli-
gou o celular, colocou-o de volta na bolsa e entrou em casa, para apanhar as chaves do Subaru.
Era de enlouquecer, como o julgamento de Emily estava distorcido. Se pelo menos ela
considerasse a ideia de que Ali havia mentido para Jenna sobre seu irmo, s para fazer Jenna
lhe contar seus segredos, Ali no seria mais a garota perfeita dos sonhos de Emily. Era mais
fcil para Emily acreditar que Jason fosse o vilo, mesmo que no houvesse nada. para sustentar
aquela hiptese. Era engraado como o amor podia fazer com que as pessoas acreditassem em
qualquer coisa.
A casa nova dos DiLaurentis ficava em uma rua quieta e bonita, longe da barulhenta estao de
trem Yarmouth. A primeira coisa que Aria notou foi o sino de vento, em forma de folhas,
pendendo da varanda. Esse sino de vento ficava na varanda da velha casa de Ali, tambm.
Enquanto Aria esperava Ali descer, ficava de p no tapete de boas-vindas da varanda fazendo o
sino de vento tocar, tentando compor uma msica.
         A entrada estava deserta e a casa principal parecia escura; as cortinas estavam fechadas
e as luzes, apagadas. A estrutura que abrigava a garagem para trs carros e o apartamento de
Jason no segundo andar era separada da casa principal por um muro baixo de pedras. Do outro
lado, ficava uma alta cerca de ferro. Surpreendentemente, no havia nenhum memorial para Ali
no jardim ou na rua, mas talvez os DiLaurentis tivessem pedido discrio  mdia sobre seu
novo endereo. E talvez, por mais incrvel que parecesse, a mdia tivesse respeitado os desejos
deles.
         Aria caminhou pela entrada na direo da garagem, uma sensao de queimao no
estmago. Em seguida, ela ouviu um rudo metlico e um latido alto. Um rottweiler saiu corren-
do do espao estreito entre a garagem e a cerca, arrastando uma longa corrente de metal que
pendia de seu pescoo.
         Aria deu um pulo para trs. A espuma escorria da boca do cachorro. Seu corpo era largo
e pesado, puro msculo.
         -- Ssshhhh -- ela tentou dizer, mas sua voz no saiu mais alta do que um sussurro. O
cachorro rosnou violentamente, sem dvida capaz de farejar o medo paralisante que ela sentia.
Aria olhou desesperada para o apartamento no segundo andar da garagem. Jason desceria para
ajud-la, no desceria? Mas no havia luz alguma l, tampouco.
        Aria estendeu as mos na frente do corpo, tentando parecer calma, mas aquilo pareceu
apenas irritar o cachorro ainda mais, fazendo-o rosnar e firmar as patas no cho, mostrando seus
dentes longos e afiados. Aria emitiu outro gemido impotente e deu mais um passo para trs. Seu
quadril colidiu com algo duro e ela gritou, assustada. Aria havia ido diretamente de encontro ao
corrimo da escada que dava para o apartamento. Horrorizada, ela percebeu que o cachorro a
havia encurralado: o muro de pedra atrs dela, que separava a garagem da casa principal, era
muito alto para permitir uma escalada rpida, e o co estava bloqueando a trilha estreita que
dava para o jardim, assim como a entrada. a nico caminho possvel e seguro era subir as esca-
das de madeira que davam para o apartamento de Jason.
        Aria engoliu em seco e subiu correndo, seu corao batendo loucamente. a cachorro
correu atrs dela, as patas escorregando nos degraus midos de madeira. Ela bateu na porta.
        --Jason! -- gritou Aria. Sem resposta. Frentica, Aria sacudiu a maaneta da porta.
Estava trancada. -- Mas que droga  essa? --gritou ela, encostando-se contra a porta.
        O cachorro estava apenas a alguns degraus de distncia. Aria viu uma janela aberta,
perto da porta. Lentamente, escorregou os dedos pela parede na direo do parapeito, abrindo a
janela ainda mais. Respirando fundo, ela se virou e se esgueirou para dentro. Suas costas
atingiram algo macio. Um colcho. Ela fechou a janela rapidamente. a cachorro latiu,
arranhando a porta de Jason. a peito de Aria subia e descia, enquanto ela ouvia seu corao
martelar. Em seguida, ela olhou em volta. O quarto estava escuro e deserto. Havia um cabide
perto da porta, mas os ganchos estavam vazios.
        Aria colocou a mo no bolso, apanhou o telefone e discou o nmero de Jason. A
chamada foi imediatamente para a caixa postal. Aria desligou, colocou o telefone na cama e se
levantou. O cachorro ainda estava latindo; ela no ousou tentar sair.
        O apartamento era basicamente um grande estdio, dividido em um quarto, uma rea de
jantar e um cantinho para a televiso. Havia um banheiro no fundo do cmodo e algumas es-
tantes do lado direito. Ela andou pelo apartamento, examinando os livros de Hemingway,
Burroughs e Bukowski nas prateleiras de Jason. Ele tinha uma pequena reproduo de um
desenho de Egon Schiele, um dos artistas favoritos de Aria. Ela se abaixou e correu os dedos
pelas capas dos DVDs de Jason, percebendo que havia muitos filmes estrangeiros. Havia
algumas fotografias no pequeno balco da cozinha, muitas das quais pareciam ter sido tiradas
em Yale. Algumas eram de uma garota baixinha e sorridente, com cabelos escuros e culos de
aros pretos. Em uma das fotos, eles estavam vestindo camisetas idnticas de Yale. Em outra,
estavam no que parecia ser um jogo de futebol, segurando copos vermelhos cheios de cerveja.
Em outra, ela estava beijando Jason na bochecha, seu nariz apertado contra o rosto dele.
        A blis subiu  garganta de Aria. Talvez aquele fosse o segredo sobre o qual A havia lhe
falado. Mas por que Jason a convidara para ir at sua casa? Para deixar claro que s gostava de
Aria como amiga? Ela fechou os olhos, decepcionada.
        Retornando para perto das estantes, ela notou que havia uma pilha de Livros do Ano de
Rosewood Day, organizados por ano. Um se destacava mais do que os outros, como se tivesse
acabado de ser folheado. Aria apanhou o livro e observou a capa. Era de quatro anos atrs, o ano
em que Jason havia se formado. O ano em que Ali havia desaparecido.
        Ela o abriu lentamente. O livro cheirava a p e tinta velha. Ela examinou as fotografias
dos formandos, procurando a de Jason. Ele vestia um terno preto e olhava para um ponto fixo
atrs do fotgrafo. Sua boca estava reta e tensa e seus cabelos louros tocavam seus ombros. Ela
passou os dedos sobre o nariz e os olhos de Jason. Ele parecia to jovem e inocente. Era difcil
acreditar no quanto ele havia enfrentado desde aquela poca.
        Algumas pginas depois, ela encontrou a foto de Melissa Hastings, irm de Spencer,
que estava quase do mesmo jeito de agora. Algum havia escrito algo em tinta vermelha em
cima da foto, mas depois havia riscado com tanta fora que Aria no conseguiu distinguir
nenhuma palavra. A foto de Ian Thomas era uma das ltimas. Seus cabelos ondulados estavam
mais compridos tambm, e seu rosto estava um pouco mais magro. Ele estava sorrindo, aquele
sorriso que era praticamente sua assinatura, e que ele usava para assegurar a todos em
Rosewood que era o cara mais inteligente e lindo da cidade, o cara que sempre teria sorte.
Quando aquela fotografia fora tirada, Ian estava ficando com Ali. Aria fechou os olhos,
estremecendo. A ideia dos dois juntos era muito errada.
         No final da pgina havia outra foto de Ian, uma foto tirada de surpresa, que o mostrava
sentado em uma sala de aula, com a boca levemente aberta e a mo levantada. Algum havia de-
senhado um pnis ao lado de sua boca e chifres de diabo sobre sua cabea. Havia uma
mensagem escrita sob a foto, em tinta preta. A caligrafia era pequena e inclinada.
         Ei, cara. Um brinde s cervejas na casa dos Kahn, ao dia em que quase acabamos com
o carro do Trevor, a dirigir a caminhonete atrs da casa no final de semana, e quela vez no
poro da Yvonne... Voc sabe o que eu quero dizer. Havia uma seta apontada para a cabea de
Ian. Eu no acredito no que esse babaca fez. Minha oferta ainda est de p. At mais, Darren.
         Aria segurou o livro aberto. Darren? Darren Wilden? Lambendo o dedo, ela virou uma
pgina e encontrou a foto dele. Seus cabelos estavam arrepiados e ele tinha a mesma expresso
no rosto que tivera no dia em que Aria o flagrara roubando vinte dlares do armrio de uma
garota.
         Wilden e Jason eram amigos? Aria nunca os vira juntos na escola. E o que Wilden
quisera dizer com "Eu no acredito no que esse babaca fez. Minha oferta ainda est de p"?
         -- Mas o que...?
         O livro do ano escapuliu dos dedos de Aria, fazendo um rudo surdo ao tocar o cho.
Jason estava de p na porta. Ele usava um cachecol bem vermelho e uma jaqueta de couro preta.
Aria estava to intrigada com o livro que no o havia ouvido subir as escadas.
         -- Oh -- balbuciou ela.
         Jason se aproximou de Aria, as narinas inflando.
         -- Como voc entrou aqui?
         -- V-voc no estava... -- guinchou Aria, comeando a tremer. -- Seu cachorro se
soltou... e me encurralou. Eu no podia nem voltar para o carro. O nico modo de fugir dele foi
subir as escadas correndo e entrar pela janela.
         A boca de Jason se abriu.
         -- Que cachorro?
         Aria apontou para a janela.
         -- O... o rottweiler.
         -- Ns no temos um rottweiler.
         Aria olhou para ele. O cachorro estava arrastando uma corrente pesada e ela imaginara
que ele havia se soltado do poste... Mas talvez algum tivesse soltado a corrente, em vez disso.
Pensando melhor, o cachorro no havia latido uma nica vez desde que ela entrara. Um
pensamento horrvel comeou a se formar em sua cabea.
         --Voc no me mandou um e-mail hoje de manh? -- perguntou ela, trmula. --Voc
no me pediu para encontr-lo aqui?
         Os olhos de Jason se estreitaram.
         -- Eu jamais teria lhe pedido que Viesse me encontrar aqui.
         As tbuas do cho rangeram quando Aria deu um passo para trs. Como ela poderia ter
sido to estpida? Era bvio que o e-mail que recebera de manh no era de Jason. Ela ficara
to aliviada em ter notcias dele que no se lembrara de que ele no tinha o e-mail dela, at
aquele exato momento. A mensagem havia sido enviada por... por outra pessoa. Algum que
sabia que Jason no estaria em casa. Algum que talvez tivesse planejado que um cachorro
estranho a perseguisse at o apartamento dele. Ela olhou para Jason, seu corao comeando a
martelar.
         -- Voc s entrou aqui, ou entrou na casa principal, tambm? -- perguntou Jason.
         -- S-s aqui.
         Jason a pressionou, o maxilar contrado.
         --Voc est me dizendo a verdade?
         Aria mordeu o lbio. Por que aquilo importava?
         -- Claro que sim.
         -- Saia! -- gritou Jason. Ele deu um passo para o lado e apontou para a porta.
         Aria no se moveu.
        --Jason -- disse ela. -- Eu sinto muito por ter vindo aqui. Foi um mal-entendido.
Podemos conversar, por favor?
        -- Saia... Saia daqui! --Jason esticou o brao para o lado, derrubando uma pilha de
livros da estante. Uma placa de vidro caiu tambm, partindo-se em pedaos afiados. -- Saia! --
Jason rugiu novamente. Aria se desviou, deixando escapar um gemido aterrorizado. O rosto de
Jason havia se transformado. Seus olhos estavam arregalados, os cantos da boca contrados e at
mesmo sua voz soava diferente. Mais baixa. Mais cruel. Aria no o reconhecia mais.
        Ela saiu correndo pela porta e desceu as escadas rapidamente, escorregando algumas
vezes nos degraus midos. Seu rosto estava lavado por lgrimas. Seus pulmes queimavam com
os soluos. Ela procurou as chaves do carro e se atirou no banco do motorista, como se algum
a estivesse perseguindo.
        Quando ela olhou para o espelho retrovisor, sua respirao ficou presa na garganta.
Longe,  distncia, ela viu duas sombras, de uma pessoa e um cachorro -- um rottweiler? --
escorregando em segurana para dentro da floresta.
                                          24
                               SPENCER, A NOVA-IORQUINA
Spencer se recostou no banco confortvel a bordo do trem-bala da Amtrak Acela para Nova
York, observando o condutor atravessar o vago, inspecionando os bilhetes. Embora ainda fosse
sbado e Michael Hutchins, o corretor de imveis, tivesse dito que o proprietrio estava
aproveitando o fim de semana para limpar seu apartamento novinho na rua Perry, Spencer no
conseguiu esperar at a segunda-feira para v-lo. Ela poderia no ser capaz de entrar no
apartamento naquele mesmo dia, mas no importava. S o fato de sentar nas escadas, checar as
lojas em seu quarteiro e tomar um cappuccino no Starbucks, que logo seria sua cafeteria
habitual, era suficiente. Ela queria ir s lojas de mveis em Chelsea e na Quinta Avenida e
reservar alguns itens. Estava ansiosa para se sentar em um caf e ler a revista The New Yorker,
agora que muito em breve ela mesma seria uma nova-iorquina.
         Talvez fosse aquilo que Ian tivesse sentido quando fugiu de Rosewood, livre dos
problemas. ansioso para comear uma vida nova. Onde estaria Ian agora? Em Rosewood? Ou
teria sido esperto e ido para longe? Ela pensou novamente sobre a pessoa que vira na floresta,
atrs do celeiro, na noite anterior. A pessoa definitivamente se parecia com Melissa... Mas ela
no estava na Filadlfia? Talvez Ian tivesse deixado algo para trs, depois daquela
brincadeirinha na floresta, algo que ele pedira para Melissa apanhar. Mas ento aquilo
significava que Melissa sabia onde ele estava e o que estava fazendo? E talvez ela soubesse a
identidade de A, tambm. Se pelo menos Melissa retomasse as ligaes de Spencer... Ela queria
perguntar para a irm se ela sabia alguma coisa sobre as fotos que Emily havia recebido. O que
uma foto de Ali, Naomi e Jenna tinha a ver com uma foto de Wilden na igreja? E por que Aria
ou Hanna no haviam recebido cartas de A, apenas Spencer e Emily? Ser que A estava se
concentrando nelas primeiro? Ser que elas estavam correndo mais perigo do que as outras? E
se Spencer se mudasse para Nova York, ser que finalmente deixaria aquele pesadelo chamado
A para trs? Ela esperava que sim.
         O trem entrou em um tnel e os passageiros comearam a se levantar.
         -- Prxima parada, estao Penn -- anunciou a voz do condutor pelo alto-falante.
Spencer apanhou sua mochila e entrou na fila junto com os outros. Quando ela emergiu no
grande saguo, olhou em volta. As placas que indicavam o metr, os txis e as sadas eram uma
confuso. Puxando a mochila para mais perto do corpo, ela seguiu a multido para um longo
elevador, e depois para a rua. Txis atravancavam a larga avenida. Luzes piscavam em seu
rosto. Os edifcios cinzentos se elevavam at o cu.
         Spencer chamou um txi.
         -- Rua Perry, 223 -- disse ela ao motorista, ao entrar no carro. O motorista concordou e
conduziu o veculo para o meio do trfego, ligando o rdio na estao de esportes. Spencer es-
tava quase pulando no banco de trs, querendo contar a ele que morava ali, que estava indo para
seu apartamento novinho, praticamente na esquina da casa de sua me.
         O motorista percorreu a Stima Avenida e virou na direo das ruas labirnticas do West
Village. Quando ele tomou a direita, entrando na rua Perry, Spencer se endireitou no banco. Era
mesmo uma linda rua. Edifcios de pedra escura, antigos, mas bem-conservados, se estendiam
por ambos os lados. Uma garota da idade de Spencer, vestindo um casaco de inverno de l bran-
ca e um grande chapu de pele, passou levando um labrador na coleira. O txi passou por uma
loja de queijos finos, outra loja de instrumentos musicais e uma escola, com um pequeno
parquinho por detrs de uma cerca de ferro escovado. Spencer examinou as fotos que Michael
Hutchins havia lhe enviado no outro dia e que ela havia imprimido. Seu futuro lar poderia ser no
quarteiro seguinte. Ela observou a rua, ansiosa.
         -- Senhorita? -- O motorista se virou, olhando para ela. Spencer deu um pulo. --Voc
disse rua Perry, 223?
         -- Rua Perry, 223, est correto. -- Spencer havia decorado o endereo.
         O motorista olhou pela janela. Ele usava culos de lentes grossas e tinha uma caneta
atrs da orelha.
         -- No existe nmero 223 na rua Perry. Seria no meio do rio Hudson.
         De fato, eles estavam no extremo oeste de Manhattan. Do outro lado da West Side
Highway havia um calado cheio de pedestres e ciclistas. Para alm dele estava o rio Hudson.
E do outro lado do rio ficava Nova Jersey.
         -- Ah. -- Spencer franziu a testa. Ela consultou suas anotaes. Michael no havia
includo o endereo em seu e-mail, e ela tambm no conseguia encontrar o papel em que o
anotara no outro dia. -- Bem, talvez eu tenha anotado o endereo errado. O senhor pode me
deixar aqui mesmo. -- Ela entregou algumas notas para o motorista e saiu do carro. O txi
tomou a direita no semforo e Spencer se virou, confusa. Ela comeou a andar na direo leste,
cruzando a Washington, e depois a Greenwich. Michael havia lhe dito que o apartamento ficava
perto da loja Marc Jacobs, que era na esquina da rua Perry com a Bleecker. Os nmeros dos
edifcios prximos eram 92 e 84. Ser que o nmero de seu prdio era um daqueles?
         Continuou a andar pela rua Perry para ter certeza, mas a numerao dos edifcios
continuava a diminuir, no a aumentar. Ela se certificou de examinar cada prdio
cuidadosamente, tentando reconhecer o prdio das fotografias, mas nenhum parecia ser o certo.
Finalmente, chegou  interseco da rua Perry com a avenida Greenwich. A rua terminava em
um T. Do outro lado, no havia mais rua Perry, apenas um restaurante chamado Fiddlesticks
Pub & Grill.
         O corao de Spencer comeou a disparar. Tinha a impresso de ter sido atirada para
dentro de um sonho recorrente que tinha desde o segundo ano, no qual um professor anunciava
um teste surpresa e, enquanto os outros alunos comeavam a responder as questes, Spencer
mal conseguia entend-las. Ela apanhou o celular, tentando permanecer calma, e ligou para o
nmero de Michael. Obviamente, havia uma explicao para aquilo.
         A gravao da voz de uma telefonista soou pelo aparelho: o nmero discado fora
desconectado. Spencer procurou na bolsa e encontrou o carto de Michael. Discou o nmero
dele novamente, repetindo-o para si mesma para ter certeza de que no estava confundindo os
nmeros. Spencer ouviu a mesma mensagem gravada. Ela segurou o telefone com fora e a dor
comeou a se irradiar por suas tmporas.
         Talvez ele tenha mudado de nmero, ela disse a si mesma. Em seguida, ela telefonou
para Olivia. Mas o telefone dela apenas tocou e tocou. Spencer pressionou o boto de desligar
por um longo tempo. Aquilo no significava nada, necessariamente; apenas que Olivia talvez
no tivesse um plano de chamadas internacional.
         Uma mulher empurrando um carrinho de beb apareceu no caminho, esforando-se para
segurar vrios pacotes de supermercado ao mesmo tempo. Quando Spencer olhou para o fim da
rua, ela viu o edifcio onde ficava o apartamento novo de Olivia, reluzindo  distncia. Ela
comeou a andar naquela direo, revigorada: Talvez Olivia tivesse outro nmero de Michael.
Talvez o porteiro a deixasse entrar e dar uma olhada na cobertura de Olivia.
         Uma mulher vestindo um casaco de l azul-brilhante saiu pelas portas giratrias do
edifcio. Duas outras pessoas entraram, carregando bolsas de ginstica. Spencer empurrou a
porta atrs deles, entrando em um trio de mrmore. No final do grande hall havia um corredor
com trs elevadores. Havia um mostrador antigo sobre cada um deles, indicando o andar no qual
eles se encontravam. O lugar cheirava a flores frescas e havia msica clssica tocando baixinho
atravs de um alto-falante bem escondido.
         O porteiro atrs da mesa da recepo vestia um terno cinza impecvel e culos sem
aros. Ele deu a Spencer um sorriso discreto quando ela se aproximou.
         -- Ah, oi -- disse Spencer, esperando que sua voz no soasse muito infantil e ingnua.
-- Estou procurando uma mulher que se mudou para c recentemente. O nome dela  Olivia.
Ela est em Paris neste momento, mas eu estava pensando se poderia ir at o apartamento por
alguns minutos.
         -- Eu sinto muito -- disse o porteiro, voltando a se concentrar em seus papis. -- No
posso deixar voc subir, a no ser que tenha a permisso do proprietrio.
         Spencer franziu a testa.
         -- Mas... ela  minha me. O nome dela  Olivia Caldwell.
         O porteiro balanou a cabea.
         -- Ningum com o nome de Olivia Caldwell mora aqui.
         Spencer tentou ignorar a dor sbita e aguda em seu estmago.
         -- Talvez ela no use o nome de solteira. Talvez ela esteja usando o nome de casada,
Olivia Frick. O nome do marido dela  Morgan Frick.
         O porteiro dirigiu a Spencer um olhar intimidante.
         -- Ningum com o nome de Olivia mora aqui. Eu conheo cada morador deste prdio.
         Spencer deu um passo para trs, olhando para uma fileira de caixas de correio, na
parede do outro lado do lobby. Deveria haver mais de duzentos apartamentos naquele prdio.
Como aquele cara poderia conhecer cada morador, honestamente?
         -- Ela acabou de se mudar -- insistiu Spencer. -- O senhor pode checar?
         O porteiro suspirou e apanhou um pesado livro preto, com encadernao em espiral.
         -- Esta  uma lista dos moradores do prdio -- explicou ele. -- Como voc disse que
era o sobrenome dela?
         -- Caldwell. Ou Frick.
         O porteiro examinou a pgina da letra C e, em seguida, a da letra F.
         -- No, no h ningum com nenhum desses nomes. Olhe voc mesma. -- Ele
empurrou o livro na direo dela, por sobre a mesa.
         Spencer se inclinou, confirmando. Havia um Caldecott e um Caleb, mas nenhum
Caldwell. E havia um Frank e um Friel, mas nenhum Frick. Seu corpo inteiro ficou quente e
depois gelado.
         -- Isso no pode estar certo.
         O porteiro fungou e colocou o livro de volta na prateleira. Um telefone preto sobre a
mesa da recepo emitiu um som agudo.
         -- Com licena. -- Ele apanhou o aparelho e atendeu a chamada, com uma voz baixa e
educada. Spencer se virou, pressionando a palma da mo na testa.
         Duas mulheres, carregando sacolas de compras da Barneys, entraram pelas portas
giratrias, rindo alto. Um homem puxando um pequeno cozinho montanhs pela coleira se
juntou a elas na frente dos elevadores. Spencer estava louca para se misturar a eles, subir at o
ltimo andar e... E o qu? Arrombar a porta da cobertura de Olivia, s para provar que ela
realmente morava ali?
         A voz de Andrew lhe veio  mente. Voc no acha que est indo um pouco depressa
demais? No quero que voc se machuque.
         No. O livro do porteiro provavelmente no fora atualizado recentemente. Olivia e
Morgan haviam acabado de se mudar. E o telefone de Olivia no estava tocando porque ela
estava fora do pas. E o nmero de Michael Hutchins estava desconectado porque ele o havia
mudado inesperadamente. O apartamento de Spencer existia. Ela iria se mudar para um
apartamento na rua Perry, o melhor quarteiro no Village, e viveria feliz para sempre a algumas
ruas de distncia de sua me biolgica. Aquilo no era bom demais para ser verdade. Era?
         A pele de Spencer estava quente. Ou voc esquece a mamezinha perdida por um tempo
e continua a investigar o que realmente aconteceu... ou vai pagar o preo, dissera A. Alm de
no contar para as outras que A havia enviado uma segunda mensagem, Spencer no havia
procurado pelo verdadeiro assassino de Ali. E se aquele fosse o preo de A? A sabia que
Spencer estava procurando por sua me biolgica. Talvez A tivesse um grupo de pessoas
trabalhando sob suas ordens. Uma mulher chamada Olivia. Um homem que se passara por um
corretor de imveis, inventando um apartamento na rua Perry, 223, sem consultar um mapa. A
sabia que Spencer queria uma famlia que a amasse, o suficiente para arriscar tudo, at mesmo
seu curso universitrio.
        Ela se afastou da mesa da recepo, procurando por seu Sidekick. Com alguns cliques,
conseguiu acessar a conta que descobrira no computador de seu pai. Ela se sentia como se no
pudesse respirar. Por favor, sussurrou ela, por entre os dentes. Isso no pode estar acontecendo.
        Um extrato apareceu na tela. Nele, havia o nome de Spencer, seu endereo e o nmero
da conta. O saldo estava em fonte vermelha, na parte inferior da tela. Quando o viu, o estmago
de Spencer se revirou. Sua viso se estreitou, at que tudo o que via era o nmero  sua frente.
No havia muitos zeros... apenas um.
        A conta havia sido esvaziada at o ltimo centavo.
                                          25
                                     E O VENCEDOR ...
Na noite de sbado, Hanna estava sentada na frente de sua penteadeira, passando mais um
pouco de p bronzeador nas bochechas. O vestido tubinho preto e rendado, da grife Rachel Roy,
comprado para a festa Radley, lhe caa perfeitamente; era justo, mas no justo demais, na
cintura e nos quadris. Ela estivera muito ocupada naquela semana, competindo pela ateno de
Mike, para ceder  sua vontade usual de devorar biscoitinhos salgados. Se ao menos a dieta
Mike Montgomery estivesse disponvel em uma garrafa...
         Houve uma batida na porta e Hanna deu um pulo. Seu pai estava parado na soleira de
seu quarto, vestindo um suter com gola em V e calas jeans.
         --Voc vai a algum lugar? -- perguntou ele.
         Hanna engoliu em seco, olhando para o reflexo de seu rosto maquiado no espelho.
Duvidava que o pai fosse acreditar que ela iria passar uma noite calma em casa.
         -- H uma festa de inaugurao de um grande hotel fora da cidade -- admitiu ela.
         -- E  por isso que a porta do quarto de Kate tambm est fechada? Vocs duas vo
juntas?
         Hanna colocou o pincel de maquiagem na mesa, resistindo  tentao de sorrir. Elas no
iriam juntas, porque Hanna havia vencido, e Mike era todo dela. R!
         -- No exatamente -- respondeu ela, controlando seus sentimentos.
         O sr. Marin se sentou na beirada da cama da filha. Dot tentou pular em seu colo, mas ele
afastou o co.
         -- Hanna...
         Hanna lanou um olhar suplicante ao pai. Ele iria coloc-la de castigo agora?
         -- Eu tenho um encontro. Seria estranho se ela viesse conosco. Eu j aprendi minha
lio, eu juro.
         O sr. Marin estalou as juntas das mos, um hbito que Hanna sempre detestara.
         -- Quem  o rapaz?
         --  s... -- Ela suspirou. -- Na verdade,  o irmo mais novo de Aria.
         -- Aria Montgomery? -- O sr. Marin franziu a testa, pensando.
         A nica vez em que Hanna se lembrava do pai ter encontrado Mike fora quando ele
levara Hanna, Aria e as outras a um festival de msica em Penn's Landing. Aria tivera que levar
Mike junto porque o sr. e a sra. Montgomery estavam fora da cidade. Enquanto elas assistiam a
um dos shows, Mike desapareceu. Elas procuraram freneticamente por ele por toda a rea, e
finalmente o encontraram na lanchonete. Ele estava dando em cima em uma garonete que
usava um traje tpico da Pensilvnia e cuidava das sobremesas.
         -- Kate tambm tem um encontro? -- perguntou o sr. Marin.
         Hanna deu de ombros. Mais cedo, naquele mesmo dia, ela dissera a Mike para se livrar
de seu compromisso com Kate, dando a desculpa que prometera ir com os outros garotos do
time de lacrosse no Hummer que eles tinham alugado. Se ele dissesse que iria com Hanna, Kate
contaria tudo ao seu pai imediatamente e estragaria tudo.
         Seu pai suspirou e se levantou.
         -- Tudo bem. Voc pode ir sozinha.
         -- Obrigada!
         Hanna respirou aliviada.
         Ele deu um tapinha nas costas da filha.
         -- Eu s quero que Kate se sinta bem-vinda aqui. Ela est passando por um momento
difcil em Rosewood Day. E, pelo que eu me lembro, as coisas nem sempre foram fceis para
voc, tampouco.
         Hanna sentiu o rosto enrubescer. No quinto e no sexto ano, quando Hanna e o pai
costumavam ser muito prximos, ela frequentemente se queixava para ele sobre a escola. Eu me
sinto um grande zero  esquerda, confessava ela. Seu pai sempre lhe assegurava que as coisas
iriam mudar. Hanna nunca acreditara nele, mas, no fim das contas, ele estivera certo. Quando
ela se tornou amiga de Ali, tudo mudara para melhor.
         Hanna olhou para o pai, desconfiada.
         -- Kate parece realmente feliz em Rosewood Day. Ela  muito amiga de Naomi e
Riley.
         O sr. Marin encarou a filha.
         -- Se voc conversasse com ela, saberia a verdade. O que ela mais quer  ser sua amiga,
Hanna. Mas voc parece querer dificultar as coisas tanto quanto possvel. -- Em seguida, ele
saiu do quarto, seus passos ecoando suavemente pelo corredor.
         Hanna continuou na cama, sentindo-se ao mesmo tempo confusa e irritada. Como se
Kate quisesse mesmo ser sua amiga! Ela obviamente dissera aquilo ao sr. Marin para fazer com
que ele ficasse ainda mais do seu lado.
         Hanna apertou o punho contra o colcho. No era como se tivesse uma multido
batendo  sua porta, querendo ser seus novos amigos de infncia. Na verdade, apenas duas
pessoas lhe vinham  mente: Ali, que a escolhera entre tantas outras garotas do sexto ano, e
Mona, que se sentara ao seu lado durante os ensaios das lderes de torcida no oitavo ano, puxara
conversa e a convidara para dormir em sua casa. Na poca, Hanna imaginara que as duas
meninas a haviam escolhido por motivos especficos: Mona, porque Hanna fora amiga de Ali,
portanto era algum com certo status; e Ali, porque vira nela um potencial que ningum jamais
percebera. Agora, Hanna sabia que no era bem assim. Desde o comeo, Mona estava
provavelmente planejando destru-la. E talvez Ali tambm tivesse motivos mais sinistros ainda
para escolh-la. Talvez visse o quanto Hanna era insegura e percebesse o quanto seria fcil
manipul-la.
         L no fundo, uma parte de Hanna queria acreditar que o que o pai dissera era verdade;
que, apesar de tudo, Kate honestamente queria que ela fosse sua amiga. Mas depois de tudo por
que Hanna havia passado, era difcil acreditar que as intenes de Kate eram puras.
         Saindo do quarto, ela ouviu o barulho de gua no banheiro do corredor. Kate cantava
alto uma msica recente do programa American Idol, e estava acabando com a gua quente.
Hanna parou perto da porta, sentindo-se totalmente desconfortvel. E enfim, enquanto um
caminho passava do lado de fora, ela se virou e desceu as escadas.
O Hotel Radley estava lotado de hspedes, fotgrafos e funcionrios. Hanna e Mike pararam o
carro na entrada e entregaram as chaves ao manobrista. Ao sair do veculo, Hanna reparou nas
charmosas caladas de tijolos, no lago meio congelado no jardim, e nos grandes degraus de
pedra que levavam  imponente porta de madeira. Quando ela e Mike entraram no salo
principal, seu queixo caiu ainda mais. O tema da festa era o Palcio de Versalhes e o saguo do
hotel Radley estava decorado com tapearias de seda e repleto de candelabros de cristal, pin-
turas com molduras douradas e poltronas ornamentadas. Havia um enorme afresco
representando alguma cena mitolgica na parede ao fundo, e ela ainda podia ver uma Sala de
Espelhos igualzinha  que havia no verdadeiro Palcio de Versalhes, perto de Paris.  sua
direita estava a sala do trono, completa com a cadeira alta e real, cujo assento era uma almofada
de veludo escarlate. Um grupo de hspedes estava reunido perto do bar, e outros grupos
conversavam junto das mesas. Uma orquestra completa estava a postos no fundo do salo e, do
lado esquerdo, estavam a mesa da recepo, os elevadores e uma placa discreta indicando o spa
e os banheiros.
         -- Uau! -- suspirou Hanna. Aquele era exatamente seu tipo de hotel.
         -- , est legal -- disse Mike, disfarando um bocejo. Ele vestia um smoking preto
impecvel e tinha os cabelos escuros penteados para trs, deixando  mostra as mas do rosto
proeminentes. Sempre que Hanna olhava para ele, seus braos e pernas ficavam trmulos. E, de
forma ainda mais bizarra, ela estava sentindo vagas pontadas de tristeza. No era assim que uma
vencedora devia se sentir.
         Um garom de terno branco passou por eles.
         --Vou pegar uma bebida -- disse Hanna vagamente, afastando os sentimentos
melanclicos da cabea. Ela foi at o bar e ficou na fila atrs do sr. e da sra. Kahn, que estavam
animados, cochichando sobre qual obra de arte gostariam de comprar. Em seguida, uma
cabeleira loura do outro lado da sala chamou a ateno de Hanna. Era a sra. DiLaurentis,
conversando com um homem de cabelos grisalhos vestindo um smoking. O homem balanava
os braos, apontando a sacada, as colunas decoradas, os candelabros, o corredor que dava para o
spa e os quartos dos hspedes. A sra. DiLaurentis concordou e sorriu, mas sua expresso
parecia sem vida. Hanna estremeceu, sentindo-se desconfortvel ao ver a me de Ali em uma
festa. Era como ver um fantasma.
         O barman pigarreou e Hanna se virou, pedindo um martni extraforte. Enquanto ele
preparava a bebida, ela se virou novamente e ficou na ponta dos ps, procurando por Mike.
Quando afinal o viu, ele estava em um dos cantos do salo, perto de uma gigantesca pintura
abstrata, junto a Noel, Mason e algumas garotas. Hanna estreitou os olhos ao ver a menina
bonita que sussurrava ao ouvido dele. Kate.
         Sua irm adotiva usava um vestido longo azul-escuro e saltos de dez centmetros.
Naomi e Riley estavam ao seu lado, ambas usando vestidos pretos ultracurtos. Hanna apanhou
seu martni e atravessou o salo rapidamente, a bebida transbordando de sua taa. Ela alcanou
Mike e bateu com fora em seu ombro.
         -- Oi -- disse Mike, com uma expresso de eu-no-estou-fazendo-nada-errado no
rosto. Kate, Naomi e Riley o cercavam, dando risinhos.
         A pele de Hanna parecia quente. Agarrando a mo de Mike, ela enfrentou as outras.
         --Vocs sabiam? Mike e eu vamos juntos ao baile de formatura.
         Naomi e Riley pareciam confusas. a sorriso de Kate desapareceu.
         -- Baile?
         -- Ah, sim! -- cantarolou Hanna, passando as mos sobre sua bandeira da Cpsula do
Tempo, que havia amarrado na corrente dourada de sua bolsa Chanel.
         Noel Kahn deu um tapinha nas costas de Mike.
         -- Maneiro.
         Mike deu de ombros, como se tivesse sabido desde o comeo que Hanna o convidaria.
         -- Preciso de outra dose de Jager -- disse ele e, juntando-se a Noel e Mason, atravessou
a sala at o bar, um empurrando o outro a cada poucos passos.
         A orquestra comeou a tocar uma valsa e alguns dos antigos frequentadores de bailes,
que realmente sabiam danar, foram para a pista. Hanna colocou as mos na cintura e dirigiu um
sorrisinho satisfeito para Kate.
         -- E a, quem  a vencedora, agora?
         Kate abaixou um dos ombros.
         -- Meu Deus, Hanna. -- Ela desatou a rir. --Voc realmente o convidou para o baile?
         Hanna revirou os olhos.
         -- Pobrezinha. Voc no est acostumada a perder. Mas reconhea, voc perdeu.
         Kate balanou a cabea vigorosamente.
         --Voc no entende. Eu nem sequer gostava dele.
         Hanna deu um muxoxo.
         --Voc gostava dele tanto quanto eu.
         Kate abaixou o queixo.
         -- Gostava? -- Ela cruzou os braos sobre o peito. -- Eu queria ver se voc iria atrs
de qualquer um, se achasse que eu estava a fim dele, tambm. A piada foi voc, Hanna. Todas
ns sabamos disso.
        Naomi soltou um risinho de escrnio. Riley apertou os lbios, esforando-se para no
dar uma gargalhada. Hanna piscou, subitamente confusa. Ser que Kate estava falando srio?
Hanna teria sido motivo de piada?
        O rosto de Kate se suavizou.
        -- Oh, acalme-se. Pense nisso como uma vingancinha por aquela histria de herpes e
estamos quites! Por que voc no aproveita a festa com a gente? Tem uns caras lindos da
Brentmont Prep na Sala dos Espelhos.
        Ela passou o brao pelo de Hanna, mas Hanna a afastou. Como Kate podia ser to
arrogante? Como aquilo podia ser uma vingancinha pela histria de herpes? Hanna tivera que
contar a todos que Kate tinha herpes. Se no o tivesse feito, Kate teria contado a todos sobre a
sua bulimia.
        Mas, de repente, Hanna se lembrou de como Kate ficara espantada quando Hanna
espalhou a notcia sobre o herpes. Ela olhara para Hanna de um modo to impotente, como se ti-
vesse sido pega de surpresa pela traio. Seria possvel que Kate nunca tivesse tido a inteno
de contar o segredo de Hanna, naquela noite? Seria verdade o que o pai lhe havia dito, que Kate
s queria ser sua amiga? Mas no. No.
        Hanna encarou Kate.
        --Voc queria o Mike, mas eu o ganhei. -- Sua voz soou mais alta do que ela
pretendera. Algumas pessoas pararam para olhar. Um homem atarracado, vestindo um smoking,
que provavelmente era um segurana, olhou para Hanna com uma expresso de alerta.
        Kate colocou a mo na cintura.
        --Voc precisa mesmo ser assim?
        Hanna balanou a cabea.
        -- Eu ganhei! -- gritou ela. --Voc perdeu!
        Kate olhou por sobre o ombro de Hanna, a expresso em seu rosto alterando-se. Hanna
seguiu o olhar dela. Mike estava segurando dois martnis, um para ele e outra dose para ela. Os
olhos dele pareciam muito azuis. A julgar pelo modo como estava olhando para Hanna, parecia
que ele entendera perfeitamente o que acabara de acontecer. Antes que Hanna pudesse dizer
uma palavra, ele colocou a bebida dela gentilmente junto  taa j vazia e se virou sem dizer
nada. Suas costas estavam retas e tensas enquanto ele desaparecia em meio  multido.
        -- Mike! -- chamou Hanna, segurando a saia e comeando a correr. Mike achara que
Hanna estava apenas fingindo gostar dele... Mas talvez aquilo no fosse verdade, afinal de
contas. Mike era engraado e sincero. Talvez ele fosse mais perfeito para ela do que qualquer
outro cara que ela havia namorado. E isso explicava o fato de ela sentir um frio na barriga
sempre que ele estava por perto, o porqu de sorrir feito uma boba quando ele lhe mandava
mensagens de texto, e o motivo de seu corao ter disparado quando eles quase se beijaram na
porta da casa dele. E explicava por que Hanna estava se sentindo triste naquela noite, tambm:
ela no queria que aquele joguinho com Mike acabasse.
        Ela parou do outro lado do salo, olhando em volta freneticamente. Mike tinha
desaparecido.
                                          26
                                ALGUM TEM UM SEGREDO
Emily estava de p na ampla varanda de pedra na entrada do hotel Radley observando as
limusines e os carros que entravam. O ar parecia uma mistura de perfumes caros, e um fotgrafo
circulava em meio aos convidados, tirando fotos. A cada vez que um flash disparava, Emily
pensava nas fotografias assustadoras enviadas por A. Ali, Jenna e Naomi reunidas no quintal de
Ali. Darren Wilden saindo de um confessionrio. E depois Jason DiLaurentis brigando com
Jenna Cavanaugh, na sala de estar de Jenna. Por que voc acha que ELE est to zangado? O
que aquilo significava? O que A estaria tentando dizer a ela?
        Ela tirou o celular da bolsa e checou a hora outra vez. J eram oito e quinze e Aria
deveria t-la encontrado na entrada quinze minutos antes. Cerca de uma hora depois daquela
conversa desconfortvel pelo telefone, de manh, Aria havia ligado de volta para Emily e
perguntado se a amiga queria ir  festa do hotel Radley com ela. Emily imaginou que aquele
fosse o modo de Aria lhe pedir desculpas por ter gritado com ela e, embora no estivesse
realmente com vontade de ir, agora que ela e Isaac tinham terminado tudo, concordara com
relutncia. Elas haviam ligado para Spencer e perguntado a ela se queria ir tambm, mas
Spencer dissera que passaria a noite no celeiro da irm, fazendo as lies de casa.
        Mais pessoas passavam pelas portas do Radley, mostrando seus convites para uma
garota que usava fones de ouvido e segurava uma prancheta. Emily telefonou para Aria, mas ela
no atendeu. Emily suspirou. Talvez Aria tivesse entrado sem ela.
        O interior do hotel estava quente e cheirava a hortel. Emily tirou o casaco e o entregou
para a garota da chapelaria, ajeitando o vestido tomara que caia vermelho. Depois que Isaac a
convidara para a festa, ela correra para o shopping, experimentara o vestido e imaginara Isaac
babando quando a visse dentro dele. Pela primeira vez em sua vida, ela comprara um vestido
sem sequer olhar o preo. E para qu? s duas horas da manh do dia anterior, Emily rolara na
cama e olhara para o pequeno visor em seu celular, esperando que Isaac tivesse lhe enviado uma
mensagem de desculpas. Mas no havia nada.
        Ela esticou o pescoo, procurando por ele agora. Ele definitivamente estava ali, em
algum lugar, assim como o sr. e a sra. Colbert. Sua pele comeou a se arrepiar.Talvez ela no
devesse estar ali. Uma coisa era acompanhar Aria, pelo menos teria uma desculpa, mas Emily
no achava que poderia lidar com aquele lugar sozinha. Ela se virou novamente para a entrada,
mas muitas pessoas haviam chegado ao mesmo tempo, bloqueando as portas. Esperou que a
multido se espalhasse, rezando para no ver nenhum dos Colbert. Ela no podia suportar a
ideia de ver o dio em seus olhos.
        Na parede perto dela, havia uma grande placa de bronze contando a histria do hotel
Radley.
        O Retiro G.C. Radley para o Bem-Estar da Infncia comeou
        em 1897 como um orfanato, mas finalmente se transformou
        em um abrigo seguro para crianas problemticas. Esta pla-
        ca celebra as vidas das crianas que se beneficiaram das
        instalaes nicas e do ambiente do Radley, e os mdicos e
        a equipe que dedicaram anos de suas vidas a uma causa.
         Sob a inscrio, estavam os nomes dos vrios diretores e reitores da instituio. Emily
os examinou, mas eles no significavam nada para ela.
         -- Eu ouvi dizer que as crianas que ficavam aqui eram totalmente lunticas.
         Emily se virou e quase engasgou. Maya estava parada ao seu lado, usando um vestido
cor de avel. Seus cabelos estavam penteados para trs, e ela usava sombra dourada nos olhos.
Havia um sorrisinho provocador em seu rosto, no muito diferente daquele que Ali costumava
dar a Emily quando queria deix-la desconfortvel.
         -- O-oi -- gaguejou Emily. Ela pensou em Maya, de p junto  janela de seu quarto, na
noite passada, quando Emily estacionara o carro na rua sem sada, como se previsse sua
chegada. Teria sido apenas uma coincidncia? E no outro dia, na escola, ela vira Maya e Jenna
conversando. Elas moravam praticamente ao lado uma da outra. Teriam as duas ficado amigas?
         -- Est vendo aquela sacada? -- Maya apontou para o mezanino do hotel. As pessoas
se inclinavam por sobre o corrimo de ferro trabalhado, observando a multido l embaixo. --
Eu ouvi dizer que algumas crianas se matavam, pulando dali. Elas se arrebentavam bem ali,
onde est o bar. E ouvi dizer que um paciente matou uma enfermeira.
         Maya tocou na mo de Emily. Seus dedos estavam rgidos e mortalmente frios. E
quando aproximou o rosto do de Emily, seu hlito cheirava a chiclete de banana.
         -- E a, onde est o seu namorado? -- cantarolou Maya. -- Ou vocs dois brigaram?
         Emily afastou a mo, seu corao martelando contra as costelas. Maya saberia, de
alguma forma... Ou teria simplesmente adivinhado?
         -- Eu... Eu preciso ir -- disse ela. Emily olhou para a entrada novamente, mas a
multido ainda estava l. Ela girou nos calcanhares, voltando para o salo de baile. Havia uma
escadaria  sua frente, que levava para o andar superior. Segurando a barra do vestido, correu
at l, sem se importar para onde estava indo. No topo dos degraus havia um corredor longo e
escuro com vrias portas de cada lado. Emily tentou abrir algumas, pensando que poderiam ser
o banheiro, mas as maanetas frias e escorregadias no cediam. Apenas uma porta, no final do
corredor, abriu. Ela correu para dentro, sentindo-se grata por um pouco de silncio e
privacidade. Seu nariz se contorceu. O lugar cheirava a p e mofo. Sombras do que parecia ser
uma escrivaninha e um sof estavam logo  sua frente. Ela procurou por um interruptor na
parede e conseguiu acender a luz. A escrivaninha estava coberta de papis e livros. Um velho e
usado div de couro estava coberto de livros, tambm. Havia estantes ao longo da parede do
fundo, com pilhas de arquivos. Papis soltos estavam espalhados pelo cho, junto com um
porta-lpis virado. Parecia at que o quarto tinha sido deliberadamente revirado.
         Emily se lembrou do sr. Colbert comentando que algumas partes do hotel no tinham
sido reformadas a tempo para a festa. Talvez aquele fosse um escritrio, do tempo em que
aquele lugar costumava ser uma escola... ou, como Maya descrevera, uma casa de lunticos.
         Uma tbua no cho rangeu. Emily se virou para a porta e olhou. Nada. Uma sombra
passou pela parede. Emily olhou para cima, para o telhado rachado. Uma aranha estava no cen-
tro de uma teia enorme e sinuosa. Havia uma massa negra de alguma coisa presa na seda, talvez
uma mosca.
         Aquele quarto era muito assustador. Emily se virou para sair, manobrando
cuidadosamente por entre as pilhas de livros e jornais espalhados pelo cho. Foi a que algo lhe
chamou a ateno. Havia um livro aberto aos seus ps, uma lista de nomes escritos com tinta
azul-escura. Parecia um registro. A pgina estava dividida em colunas, com os ttulos Nome,
Data, Entrada, Salda. Um dos nomes era...
         Emily se ajoelhou, pensando -- esperando -- que fosse apenas sua imaginao. Sua
viso ficou borrada. "Oh, meu Deus," ela sussurrou. Um dos nomes no livro era o de Jason
DiLaurentis. O nome dele aparecia na pgina trs vezes, a primeira em 6 de maro, depois no
dia 13 e depois no dia 20. Com sete dias de intervalo. Emily virou uma pgina. L estava o
nome de Jason novamente em 27 de maro, 3 de abril e 10 de abril. Ele se registrara pela manh
e sara de noite. Ela virou as pginas cada vez mais rpido. O nome de Jason continuou a
aparecer. Ele se registrara em 24 de abril, no aniversrio de Emily. A data era de oito anos antes.
Emily contou nos dedos -- ela tinha nove anos. Era um sbado. Naquele ano, os pais de Emily a
levaram, junto com as amigas da equipe de natao, para um jantar de aniversrio no All That
Jazz, seu restaurante favorito, no Shopping King James. Ela estava no terceiro ano. Ali havia
comeado a estudar em Rosewood Day no incio daquele ano, depois que sua famlia se mudara
de Connecticut.
         Ela apanhou o livro que estava embaixo do primeiro. O nome de Jason aparecia durante
todo o vero entre o terceiro e o quarto ano escolar de Emily, o inverno do quarto ano, o outono
do quinto ano e o vero entre o quinto e o sexto ano. Ele estivera ali no final de semana antes do
primeiro dia de aula, quando Emily, Ali e as outras comearam o sexto ano. Alguns dias depois,
a escola anunciara o lanamento do jogo da Cpsula do Tempo. Ela procurou a pgina
correspondente ao final de semana seguinte, quando ela e suas antigas amigas haviam se
esgueirado para o quintal de Ali para roubar sua bandeira. O nome de Jason no constava
naquela data. Ela procurou o outro final de semana, mais ou menos a poca em que Ali se
aproximara de todas elas no evento de caridade de Rosewood Day e transformou-as em suas
novas melhores amigas. Mais uma vez, nada de Jason. Ela virou mais pginas. O nome dele no
apareceu novamente. O final de semana antes do primeiro dia de aulas fora a ltima vez em que
o nome dele aparecera no livro de registros.
         Emily abaixou o livro, colocando-o no colo e sentindo-se tonta. Que diabos o nome de
Jason DiLaurentis estaria fazendo em um livro de registros naquele pequeno e escuro escritrio?
Ela pensou na brincadeira que Ali fizera, anos atrs: eles deveriam coloc-lo na ala
psiquitrica, que  o lugar dele. Ela teria falado srio? Jason teria sido um paciente regular?
Talvez aquilo fosse o que Ali quisera dizer, quando contara a Jenna sobre problemas com
irmos... Talvez Ali tivesse contado a ela que Jason tinha problemas srios o suficiente para se
tratar em uma clnica. E talvez fosse sobre aquilo que Jenna e Jason estavam discutindo na noite
anterior, talvez ele quisesse ter certeza de que Jenna no contaria a ningum.
         Emily pensou em como o rosto de Jason havia se contorcido e ficado vermelho quando
ele pensou que ela tivesse batido em seu carro. Ele se aproximara tanto dela que sua raiva era
palpvel. Do que Jason realmente seria capaz? O que ele estaria escondendo?
         Ouviu-se o som de passos no corredor. Emily ficou gelada. Ela ouviu algum respirar.
Em seguida, uma sombra apareceu perto da porta. Emily comeou a tremer.
         -- O-ol? -- guinchou ela.
         Isaac apareceu na luz. Estava vestindo o terno branco e os sapatos pretos dos garons.
Emily imaginou que seu pai o estivesse fazendo trabalhar naquela noite, agora que no tinha
mais um encontro. Ela recuou, seu corao batendo com fora.
         -- Pensei ter visto voc subir -- disse ele.
         Emily olhou para o livro de registros novamente, era difcil mudar de foco, de Jason
para Isaac. Ela abaixou a cabea, incapaz de olhar para ele. Tudo o que eles haviam dito um ao
outro na noite anterior voltou  sua mente, ainda recente demais.
         -- Acho que voc no deveria estar aqui em cima -- disse Isaac. -- Meu pai me falou
que este corredor  s para os funcionrios.
         -- Eu j estava saindo -- resmungou Emily, indo para a porta.
         -- Espere! -- disse Isaac, sentando-se no brao empoeirado do sof de couro. Alguns
segundos de silncio se passaram. Ele suspirou. -- A fotografia de que voc me falou ontem,
aquela com a sua cabea cortada? Eu a encontrei ontem  noite em uma gaveta na cozinha. E... e
eu confrontei a minha me. E ela perdeu a cabea.
         O queixo de Emily caiu; ela mal podia acreditar no que ouvia. Isaac saltou do brao do
sof e se ajoelhou a seu lado.
         -- Eu sinto muito -- sussurrou ele. -- Eu sou um idiota, e agora provavelmente perdi
voc. Voc pode me perdoar?
         Emily mordeu as bochechas por dentro. Ela sabia que deveria se sentir bem, ou pelo
menos vingada, mas, em vez disso, se sentia ainda pior. Seria to fcil dizer a Isaac que estava
tudo bem. Que eles estavam bem. Mas o que ele fizera na noite passada ainda machucava. Ele
no havia sequer considerado a possibilidade de acreditar nela. Tirara concluses precipitadas,
convencido de que ela estava mentindo. Emily se afastou dele, inclinou-se e apanhou o livro. A
capa estava coberta de uma camada grossa de poeira e fuligem.
        -- Eu posso perdoar voc um dia -- disse ela --, mas no hoje.
        -- O-o qu? -- murmurou Isaac.
        Emily colocou o livro debaixo dos brao, controlando as lgrimas. Ainda que ela
odiasse dizer a Isaac algo que o magoaria, sabia que era a coisa certa a fazer.
        -- Eu preciso ir -- balbuciou ela.
        Ela correu pelas escadas o mais rpido que podia. Chegando ao andar de baixo, ouviu
uma risadinha familiar no outro lado do salo. Ela contraiu o estmago, olhando ao redor,
nervosa. A multido se moveu e a risada se dissipou. A nica pessoa que Emily reconhecia do
outro lado do salo era Maya. Ela estava encostada em uma parede, segurando um martni e
olhando fixamente para Emily, com um vestgio de sorriso nos lbios grossos e brilhantes.
                                          27
                                   O DJ-VU EXPLICADO
Hanna escorregou pelo piso de mrmore liso, parando abruptamente. Aquele hotel era um
labirinto e, de algum modo, ela conseguira refazer seus prprios passos e estava, de novo,
parada na frente da imensa tapearia que representava Napoleo. Olhou para a direita e para a
esquerda, procurando por Mike. A multido de convidados era to densa que ela no o via em
lugar algum. Passou pela sala do trono e ouviu uma voz familiar. L dentro, estava Noel Kahn,
estirado sobre o grande trono de veludo, os ombros sacudindo com as gargalhadas. Havia um
balde de champanhe virado de cabea para baixo em sua testa, como uma coroa.
         Hanna grunhiu. Era inacreditvel o que Noel era capaz de aprontar nas festas de
Rosewood sem ser punido, s porque seus pais praticamente controlavam as finanas da cidade.
Ela marchou at ele e cutucou seu brao. Noel se virou e seu rosto se animou.
         -- Hanna! -- Ele cheirava como se tivesse bebido uma banheira inteira de tequila.
         -- Onde est Mike?
         Noel atirou as pernas por sobre a poltrona. As pernas de suas calas subiram um pouco,
revelando meias azuis e vermelhas.
         -- No sei. Mas eu devia beijar voc.
         Eca.
         -- Por qu?
         -- Porque -- disse ele arrastando as palavras -- voc me fez ganhar quinhentos dlares.
         Ela deu um passo para trs.
         -- Como assim?
         Noel levou o coquetel aos lbios, uma bebida vermelha que parecia uma mistura de Red
Bull e vodca. O lquido escorreu por sua camisa e formou uma poa no assento da poltrona.
Algumas garotas do colgio Quaker, sentadas em banquinhos forrados, cutucavam umas s
outras, dando risinhos. Como elas podiam achar Noel bonito? Se aquele lugar fosse realmente
Versalhes, Noel no seria o rei Lus XIV; ele seria a verso francesa do bobo da corte.
         -- A equipe de lacrosse fez uma aposta para ver quem Mike conseguiria levar ao baile
-- explicou Noel. --Voc ou a gostosa da sua irm. Ns fizemos a aposta depois que vocs
duas comearam a se atirar em cima dele. Eu vou dar metade do meu prmio ao Mike, por ter
sido to divertido.
         Hanna passou as mos pela bandeira da Cpsula do Tempo que havia amarrado na
corrente de sua bolsa Chanel. Ela sentiu a cor desaparecer de seu rosto.
         Noel indicou a porta com a cabea.
         -- Se voc no acredita em mim, pode perguntar ao prprio Mike.
         Hanna se virou. Mike estava encostado contra uma das colunas em estilo grego,
sorrindo para uma garota da escola preparatria Tate. Hanna deixou escapar um grunhido alto e
foi imediatamente at ele. Quando Mike a viu, deu um sorrisinho constrangido.
         -- Seus colegas de equipe apostaram sobre ns? -- gritou Hanna. A garota da Tate
desapareceu rapidamente.
         Mike bebericou seu vinho, dando de ombros.
         -- No  muito diferente do que vocs duas estavam fazendo. Mas os caras do time
estavam apostando dinheiro.Vocs estavam apostando o qu? Absorventes?
         Hanna passou a mo pela testa. No era assim que as coisas deveriam acontecer. Mike
deveria se sentir vulnervel e fraco, como uma vtima. E durante todo aquele tempo, ele soubera
que havia uma competio. Ele estivera jogando com ela o tempo todo. Ela suspirou, cansada.
         -- Bom, acho que nosso compromisso para o baile est cancelado, no?
         Mike pareceu surpreso.
         -- Eu no quero cancelar.
         Hanna examinou o rosto dele.
         -- Srio? -- Mike balanou a cabea. -- Quer dizer que... voc no se importa por ter
sido apenas uma... aposta?
         Mike olhou para ela timidamente e desviou o rosto.
         -- No, se voc tambm no se importar.
         Hanna fez o melhor que podia para esconder um sorriso... e seu alvio. Ela o cutucou
com fora nas costelas.
         -- Bem,  melhor voc me dar metade do seu prmio.
         -- E  melhor voc me dar metade dos seus... -- Mike se interrompeu, fazendo uma
careta. -- Deixe para l. Eu no preciso da metade dos seus absorventes. Vamos usar o dinheiro
para comprar uma garrafa de champanhe Cristal para o baile, que tal? -- Em seguida, seu rosto
se animou ainda mais. -- E para um quarto de motel.
         -- Um motel? -- Hanna olhou feio para ele. -- Que tipo de garota voc pensa que eu
sou?
         -- Querida, comigo voc no vai se importar com onde estamos -- disse Mike na voz
mais insinuante que Hanna j tinha ouvido. Ela deu um grunhido, inclinando-se para ele. Ele se
inclinou para ela tambm, at que suas testas se tocaram. -- Sinceramente? -- sussurrou, a voz
se suavizando, ficando quase terna. -- Eu sempre gostei mais de voc.
         O estmago de Hanna virou geleia. Arrepios lhe percorreram as costas. Seus rostos
estavam muito prximos e apenas uma pequena fresta de ar os separava. Em seguida, Mike
estendeu a mo e afastou os cabelos do rosto de Hanna. Ela riu com nervosismo e seus lbios se
encontraram. A boca de Mike era quente e tinha gosto de vinho tinto. Os arrepios desciam da
cabea de Hanna at os dedos dos ps.
         -- Isso! -- Noel Kahn berrou do outro lado da sala, quase caindo de cima do trono.
Com o susto, Hanna e Mike se separaram. Mike levantou o punho, a manga de seu palet escor-
regando pelo brao. Ele ainda estava usando a pulseira de borracha amarela da equipe de
lacrosse de Rosewood Day. Hanna suspirou, resignada. Havia uma srie de coisas esquisitas
com que ela teria que se acostumar, agora que estava namorando um atleta de lacrosse.
         Houve um barulho alto de esttica e uma msica alta e agitada comeou a tocar pelos
alto-falantes. Hanna olhou para o salo de baile. A orquestra desaparecera e havia uma mesa de
DJ em seu lugar. O DJ estava usando uma peruca longa e cacheada em estilo Lus XIV,
pantalonas e um manto comprido.
         --Vamos? -- convidou Mike, estendendo-lhe a mo.
         Hanna se endireitou e o seguiu. Do outro lado do salo, Naomi, Riley e Kate estavam
sentadas em um sof, observando. Naomi parecia irritada, mas Kate e Riley tinham sorrisos nos
rostos, quase como se estivessem felizes por Hanna. Depois de um instante, Hanna devolveu um
pequeno sorriso para Kate. Quem sabe, talvez Kate realmente quisesse ser sua amiga. Talvez
Hanna pudesse deixar o passado ficar no passado.
         Mike comeou a se esfregar nela, e ela o empurrou, rindo. Quando a msica terminou, o
DJ informou ao microfone:
         -- Estou recebendo pedidos. -- E, com uma voz rouca, disse: -- Aqui vai um. --
Todos ficaram parados, esperando. Alguns acordes encheram o ar. O ritmo era mais lento, mais
suave.
         Mike sacudiu a mo.
         -- Quem foi o idiota que pediu isso? -- zombou, indo at a mesa do DJ para descobrir
o que estava tocando.
         Algumas notas encheram a sala. Hanna parou, inclinando a cabea. Ela reconhecia o
cantor, mas no sabia o motivo.
         Mike voltou.
         --  algum chamado Elvis Costello -- anunciou ele. --Quem quer que seja ele.
         Elvis Costello. Naquele mesmo instante, o refro comeou. Allli-son, I know this world
is killing you...
         O queixo de Hanna caiu. Ela sabia por que aquela msica era familiar: alguns meses
antes, algum a estava cantando em seu chuveiro. Al-i-son, my aim is true...
         Quando Hanna sara para o corredor naquele dia, ela vira Wilden enrolado em sua
toalha favorita da Pottery Barn. Wilden parecera assustado. Quando Hanna lhe perguntara por
que ele estava cantando aquela msica -- s um louco a cantaria em um raio de cinquenta
quilmetros de Rosewood -- ele havia ficado vermelho.
         -- s vezes, eu no percebo que estou cantando.
         Uma fasca se acendeu na mente de Hanna e logo pegou fogo. s vezes, eu no percebo
que estou cantando! Ali dissera aquilo, no sonho daquela manh. Ela tambm dissera, Se voc
encontr-lo, vou lhe contar tudo a respeito. Aqueles dois. Estaria Ali tentando dizer que Wilden
estava, de algum modo, ligado ao seu assassinato?
         E a, a sensao de dj-vu que Hanna tivera quando Wilden se afastara da calada
voltou como um tapa. Era por causa do carro de Wilden, daquela coisa preta e velha que ele
estava dirigindo, enquanto o carro da polcia estava na oficina. Ela j tinha visto aquele carro
antes, havia muitos anos. Era o carro estacionado na frente da casa dos DiLaurentis no dia em
que Hanna e as outras haviam tentado roubar a bandeira de Ali.
         -- Hanna? -- Mike olhava para ela com curiosidade. --Voc est bem?
         Hanna balanou a cabea levemente. O sonho com Ali no saa de sua cabea. Pescaria,
dissera Ali repetidamente, quando Hanna lhe perguntara de quem ela estava falando. As
palavras se referiam a Wilden... e Hanna entendia aquilo, tambm. Aquele adesivo com o
smbolo do peixe. Hanna sabia onde tinha visto aquele adesivo pela ltima vez; os DiLaurentis
tinham um igualzinho. O passe lhes dava acesso  comunidade fechada em Poconos. Mas e da?
Muitas, pessoas iam para l nas frias; talvez a famlia de Wilden tambm fosse. Por que
Wilden havia tentado esconder o adesivo? Por que havia feito tanto segredo sobre aquilo? A
menos que ele precisasse guardar segredo.
         Hanna cambaleou para a cadeira mais prxima e se sentou.
         -- O que foi? -- Mike continuou a perguntar. Ela balanou a cabea, incapaz de
responder. Talvez Wilden tivesse mesmo um segredo. Ele andava agindo de modo to estranho
ultimamente. Esgueirando-se por a. Tendo conversinhas em voz baixa ao celular. No estando
onde dizia que estaria. Culpando as meninas to rapidamente pelo desaparecimento de Ian.
Escondendo-se no velho quintal de Ali. Dirigindo como um manaco para levar Hanna para
casa, praticamente matando-a. Usando aquele capuz, como o vulto que assustara Hanna na
floresta na noite em que o corpo de Ian fora descoberto. Talvez ele fosse o tal vulto.
       E se eu lhe disser que h algo que voc no sabe?, dissera
       Ian a Spencer, na varanda da casa dela. Algo grande. E eu
       acho que a polcia sabe disso, tambm, mas esto ignoran-
       do. Eles esto tentando colocar a culpa em mim.
        E depois, as mensagens dele: Eles descobriram que eu sei. Eu tive que fugir.
        O salo estava lotado de gente. Havia guardas em todas as entradas e vrios policiais de
Rosewood, mas Wilden no estava entre eles. Em seguida, um reflexo em um dos espelhos que
iam do cho ao teto chamou a ateno de Hanna. Ela viu um rosto familiar, com olhos azuis e
cabelos louros.
        Hanna ficou paralisada. Era a Ali de seu sonho. Mas quando ela olhou de novo, o rosto
havia se transformado. Kirsten Cullen estava ali, em seu lugar. Mike ainda estava olhando para
Hanna, parecendo assustado.
       -- Eu preciso achar a sua irm -- disse ela, tocando a mo dele. -- Mas j volto,
prometo. -- Depois disso, Hanna atravessou o salo correndo.
       Algum estava escondendo alguma coisa, com certeza.
       E, desta vez, elas no poderiam pedir ajuda para a polcia.
                                          28
                                 MAIS E MAIS ASSUSTADOR
Quando Aria finalmente conseguiu se desvencilhar do trnsito e da fila para estacionar na festa
de reabertura do hotel Radley, j estava mais de uma hora atrasada. Ela atirou as chaves do car-
ro para o manobrista e procurou por Emily entre a multido de seguranas, fotgrafos e
convidados, mas ela no estava em lugar nenhum.
        Depois que Jason encontrara Aria em seu apartamento, mais cedo naquele dia, e exigira
que ela fosse embora, ela no soubera o que fazer. Por fim, Aria dirigiu at o cemitrio St. Basil
e subiu o morro at chegar ao tmulo de Ali. Na ltima vez em que Aria estivera ali, o caixo de
Ali ainda no estava na sepultura, pois o sr. e a sra. DiLaurentis haviam adiado o enterro,
negando que a filha estivesse realmente morta. E, embora as provas de DNA ainda no tivessem
revelado que era realmente o corpo dela que estava naquele buraco no quintal dos DiLaurentis, a
famlia certamente enfrentara a realidade, porque Aria ouvira falar que eles finalmente haviam
enterrado Ali discretamente no ms anterior, sem qualquer cerimnia.
        Alison Lauren DiLaurentis, dizia a lpide. Havia uma nova camada de grama
recentemente plantada ao redor do tmulo, j ressecada pelo frio. Aria olhou para o bloco de
mrmore, desejando que Ali pudesse falar. Ela queria contar a Ali sobre o Livro do Ano que
encontrara no apartamento de Jason. Ela queria perguntar sobre a mensagem que Wilden
escrevera sobre a foto de Ian. O que Ian fez de to terrvel? E o que aconteceu com voc? Por
que n6s no sabemos?
        Uma garota vestindo um tubinho preto parou Aria na grande entrada de portas duplas do
Radley.
        --Voc tem um convite? -- perguntou ela, com um tom de voz nasalado e
condescendente. Aria mostrou o convite que Ella havia lhe enviado e a garota concordou.
Puxando o casaco com fora em torno de si, Aria passou pela entrada de pedra e entrou no hotel.
Um grupo de alunos de Rosewood Day, incluindo Noel Kahn, Mason Byers, Sean Ackard e
Naomi Zeigler, estava na pista de dana, rebolando ao som de uma verso remixada de uma
msica de Seal. Depois de pegar uma taa de champanhe e vir-la em alguns goles, ela comeou
a examinar os grupos de convidados, procurando por Emily. Aria precisava contar a Emily
sobre o Livro do Ano.
        Quando sentiu um tapinha em seu ombro, Aria se virou.
        -- Voc veio! -- gritou Ella, dando um grande abrao em Aria.
        -- O-oi! -- Aria tentou sorrir. Ella usava um vestido de seda preto, com uma echarpe de
renda verde-escura ao redor dos ombros. Xavier estava ao seu lado. Ele vestia um terno risca de
giz e uma camisa azul, e segurava uma taa de champanhe.
        --  bom ver voc de novo, Aria. -- Os olhos de Xavier se moveram dos olhos de Aria
para seus seios e quadris. O estmago dela se revirou. -- Como vai a vida na casa de seu pai?
        -- Muito bem, obrigada -- respondeu Aria, seca. Ela tentou lanar um olhar discreto e
suplicante a Ella, mas os olhos de sua me j estavam enevoados. Aria se perguntou se ela havia
bebido muito antes da festa. Ella fazia aquilo frequentemente, antes de um evento.
        O pai de Noel Kahn bateu de leve no ombro de Ella, e a me de Aria se virou para falar
com ele. Xavier se aproximou de Aria e colocou a mo na cintura dela.
         -- Senti sua falta -- disse ele. Seu hlito era quente e cheirava a usque. --Voc sentiu
a minha?
         -- Eu preciso ir agora -- disse Aria em voz alta, sentindo o rubor lhe subir ao rosto. Ela
se afastou rapidamente de Xavier, passando por uma mulher usando uma estola de mink. Ouviu
Ella chamando:
         -- Aria? -- Havia mgoa e decepo em sua voz, mas Aria continuou a se afastar.
         Ela parou na frente de um grande vitral representando um menestrel e sua luta. Quando
sentiu um segundo puxo no brao, franziu o rosto, temendo que Xavier a tivesse seguido. Mas
era apenas Emily. Algumas mechas de seu cabelo louro-avermelhado haviam se soltado do
coque, e seu rosto estava vermelho.
         -- Eu andei procurando voc por toda parte! -- exclamou Emily.
         -- Acabei de chegar -- disse Aria. -- O trnsito estava horrvel.
         Emily tirou um livro verde, grande e empoeirado de debaixo do brao. Suas pginas
tinham as beiradas douradas e lembravam uma enciclopdia. -- D uma olhada nisso. -- Emily
abriu o livro e apontou para um nome escrito em letra manuscrita. Jason DiLaurentis. Havia
uma data e uma hora ao lado do nome, de sete anos atrs.
         -- Eu encontrei isto l em cima -- explicou Emily. -- Deve ser um livro de registros,
do tempo em que este lugar era uma instituio para doentes mentais.
         Aria piscou, incrdula. Ela levantou a cabea, olhando ao redor. Um homem bonito e
grisalho, provavelmente o dono do hotel, circulava pela multido, parecendo satisfeito com seu
trabalho. Havia placas por todo o salo, descrevendo a academia de ginstica multimilionria
que fora construda no segundo andar e as instalaes de ltima gerao do spa. Ela ouvira falar
que aquele lugar j havia sido um hospital para crianas com problemas mentais, mas era difcil
de acreditar naquilo agora.
         -- Olhe! -- Emily virou pgina por pgina. -- O nome de Jason aparece aqui, e aqui, e
depois aqui. E isso continua por anos. E at pouco antes de termos tentado roubar a bandeira de
Ali. -- Emily colocou o livro no colo, dirigindo um olhar preocupado a Aria. -- Eu sei que
voc sente algo por ele. Mas isto  estranho. Voc acha que talvez ele tenha... Tenha sido... um
paciente?
         Aria passou as mos pelos cabelos. Isso  algum tipo de brincadeira?, Jason lhe
perguntara quando Aria lhe mostrara o convite para a festa do hotel Radley. Seu corao se
apertou. Talvez ele tivesse sido um paciente ali. Talvez ele tivesse achado que Aria estava
zombando dele com o convite, paranoico com a ideia de que Aria soubesse mais sobre ele do
que deixara transparecer.
         -- Oh, meu Deus -- gemeu Aria. -- A me enviou uma mensagem h alguns dias. Ela
dizia que Jason estava escondendo alguma coisa de mim e que eu no iria querer saber o que
era. Eu meio que... ignorei a coisa toda. -- Ela abaixou os olhos. -- Eu pensei que A estivesse
brincando comigo. Mas... eu... eu sa com Jason algumas vezes. Em um dos encontros, ele ficou
realmente esquisito quando eu disse que viria a uma festa aqui. Ele tambm me disse que
procurou um psiquiatra em Rosewood Day. Talvez isso fosse mais uma terapia, alm do
mdico que ele consultava... aqui. -- Ela olhou para o livro novamente. O nome de Jason estava
escrito em uma caligrafia dolorosamente perfeita, cada letra redonda e reta.
         Emily concordou.
         -- E eu estive tentando lhe dizer o dia inteiro que A me mandou uma mensagem ontem
 noite, dizendo para ir ao velho bairro de Ali. Eu vi Jason na casa de Jenna. Ele estava gritando
com ela.
         Aria desabou na cadeira forrada de veludo prxima ao vitral, mais atemorizada ainda.
         -- O que eles estavam falando?
         Emily balanou a cabea.
         -- Eu no sei. Mas pareciam chateados. Talvez ele realmente tenha feito algo terrvel
com Ali e por isso tenha sido mandado para c.
         Aria olhou para o cho de mrmore polido. Ela podia ver um reflexo de seu vestido azul
no piso. Durante toda a semana, Aria estivera to irritada com Emily, convencida de que no
estava olhando para a situao sobre Ali e Jason objetivamente. Mas talvez Aria tambm no
estivesse.
         Emily suspirou.
         --Acho que deveramos falar com Wilden sobre isso.
         -- No podemos procurar Wilden! -- uma voz a interrompeu.
         Ambas se viraram. Hanna estava atrs delas, com uma expresso perturbada no rosto.
         --Wilden  a ltima pessoa a quem deveramos procurar!
         Emily encostou-se  janela.
         -- Por qu?
         Hanna sentou-se no sof.
         --Vocs se lembram de quando nos encontramos no quintal de Ali para roubar a
bandeira? Depois que ela voltou para dentro de casa, eu vi um carro estacionado perto da
calada. Parecia que a pessoa no carro estava observando o lugar. E, no outro dia, quando fui
correr, vi Wilden de p na frente da casa de Ali novamente, embora os policiais tenham
suspendido as buscas. Ele me deu uma carona para casa... Mas no estava dirigindo o carro da
polcia. Ele estava dirigindo o mesmo carro que eu vi anos atrs, na frente da casa de Ali. E se
ele a estivesse perseguindo?
         Emily olhou para ela com curiosidade.
         --Voc tem certeza de que  o mesmo carro?
         Hanna fez que sim com a cabea.
         --  um carro antigo, dos anos 1960. Eu no consigo acreditar que no tenha ligado os
pontos antes. E depois, quando eu estava no carro de Wilden, vi um velho adesivo com o
desenho de um peixe. Dizia Passe Dirio. Vocs sabem qual foi a ltima vez em que eu vi
aquele mesmo adesivo? No carro do pai de Ali, quando costumvamos ir a Poconos. Vocs se
lembram?
         Aria esfregou o queixo, tentando acompanhar a narrativa. Ali costumava levar Aria e as
outras para sua casa em Poconos com frequncia. Uma vez, Aria ajudara a famlia a levar as ba-
gagens para o. carro. Depois que a sra. DiLaurentis arrumara as malas, ela se abaixara perto do
para-choque e colara um novo passe bem em cima do adesivo quase idntico do ano anterior.
         Aria concordou lentamente.
         -- Mas o que isso significa?
         Hanna balanou a cabea febrilmente. O DJ havia ligado uma luz estroboscpica, e o
rosto de Hanna mudava da luz para a sombra, e da sombra para a luz. Parecia que ela estava
aparecendo e desaparecendo.
         -- E se Wilden tiver conseguido um passe h muito tempo? E se ele tivesse o hbito de
ir a Poconos para espionar Ali? E se... E se ele tivesse algum tipo de paixo doentia por ela, uma
paixo mais louca que a de Ian? Vocs no acham que ele tem se comportado de modo estranho
ultimamente? Ele foi to rpido em prender Ian, quando Spencer apresentou, vamos ser
honestas, aquelas provas fracas. E se ele estiver escondendo alguma coisa? E se foi ele o
culpado?
         Aria sacudiu as mos, interrompendo Hanna.
         -- Mas Wilden poderia ter conseguido o passe com Jason. Vocs sabiam que Jason e
Wilden eram amigos?
         Os cantos da boca de Hanna se abaixaram. Emily pressionou a mo contra o peito.
         -- Eu sei que parece loucura -- admitiu Aria. -- Recebi um e-mail hoje de Jason,
pedindo que eu fosse encontr-lo na casa de seus pais em Yarmouth. Eu fui at l, mas ele no
estava em casa. Ele no me mandou e-mail nenhum... Outra pessoa mandou. Provavelmente foi
A. Mas enquanto eu estava esperando no apartamento, encontrei um velho Livro do Ano de
Rosewood Day, do ano em que Jason se formou. Wilden assinou em cima da fotografia de Ian.
Desenhou uma seta apontando a cabea de Ian e escreveu: Eu no acredito no que esse babaca
fez. Minha oferta ainda est de p.
         Emily levou a mo  boca, arregalando os olhos castanhos.
         Hanna levantou-se abruptamente, colocando as duas mos no alto da cabea.
         -- Voc est totalmente certa. Eles eram amigos. Aquele carro preto de que eu estava
falando? Aquela coisa velha que Wilden estava dirigindo por a? Eu o vi outra vez. Vocs se
lembram do dia em que a Cpsula do Tempo foi anunciada? Ns estvamos de p no ptio e Ian
disse que mataria Ali para conseguir o pedao da bandeira dela. Jason apareceu e ele e Ian
tiveram aquela briga estranha. E a Jason...
         -- Correu para um carro preto -- sussurrou Aria, lembrando-se do dia.
         -- E ele disse: Dirija. -- Emily disse em voz baixa. Ela apanhou o celular e procurou
entre as fotos do arquivo. -- Combina com isto aqui, tambm. -- Ela lhes mostrou a foto que
elas j tinham visto, a foto de Wilden saindo de um confessionrio, com uma expresso culpada
no rosto.
       Acho que todos nos sentimos culpados em relao a al-
       guma coisa, no ?
        --  to estranho que A esteja nos mandando pistas que realmente... fazem sentido --
murmurou Aria.
        -- , nem parece coisa de A -- concordou Hanna.
        -- E se A no tiver uma inteno maliciosa? -- sibilou Emily. -- E se A estiver
tentando ajudar?
        Hanna deu uma risada irnica.
        -- Claro. Ns ajudamos A, no ? Ou A acaba com as nossas vidas.
        O DJ desligou a luz estroboscpica e comeou a tocar outra msica danante. Os
convidados correram para a pista. Alguns faziam brindes com suas taas de vinho, comemoran-
do a existncia de outro hotel para onde escapar nos finais de semana. Aria viu o sr. e a sra.
DiLaurentis no salo de baile, conversando animadamente com o sr. e a sra. Byers, como se
nada estivesse errado.
        Ela olhou para o livro de registros nas mos de Emily. O casal DiLaurentis poderia ter
mandado Jason ao terapeuta durante anos, mantendo aquele segredo bem guardado. Talvez eles
estivessem escondendo outras coisas a respeito de Jason, tambm. Ele ficara to zangado,
naquele mesmo dia. Ser que ele poderia ser uma dessas pessoas que escondiam a raiva com ha-
bilidade, parecendo doce e calmo, at que um dia, de repente... Tudo vinha  tona? E talvez
Wilden tambm fosse uma dessas pessoas.
        -- E se Jason tivesse descoberto que Ali e Ian estavam namorando? -- sugeriu Aria. --
Naquele dia em que ele foi at Ian e Ali no ptio, parecia muito protetor em relao a ela, como
se soubesse que havia algo errado. Talvez seja isso que Wilden quis dizer com Eu no acredito
no que esse babaca foz. Eu apostaria que um irmo mais velho quisesse matar um cara que se
aproveitasse de sua irm.
        Hanna cruzou as pernas, seu rosto franzido com a concentrao.
        -- Ian disse em suas mensagens que eles queriam machuc-lo. E se eles forem Wilden e
Jason?
        -- Mas Ian deu a entender que quem quer que o tenha feito sair da cidade, foi o
verdadeiro culpado -- disse Emily. -- Quer dizer, isso significaria...
        -- Que Jason e Wilden tm algo a ver com o assassinato de Ali -- sussurrou Hanna. --
Talvez tenha sido um acidente. Talvez algo horrvel tenha acontecido, algo que eles no tinham
planejado.
        Aria se sentiu mal. Aquilo seria possvel? Ela olhou para as outras.
        -- A nica pessoa que sabe a verdade  Ian, Vocs acham que podemos falar com ele
por mensagens? Vocs acham que ele nos contaria?
        Elas trocaram olhares desconfortveis, incertas sobre o que fazer. O som do baixo
pulsava no salo. O cheiro de camaro grelhado e fil-mignon enchia o ar, fazendo o estmago
vegetariano de Aria se revirar. Ela respirava com dificuldade, seus nervos  flor da pele. Seu
olhar caiu sobre a bandeira da Cpsula do Tempo que Hanna havia amarrado na corrente de sua
bolsa. Ela apontou para o ponto negro em um dos cantos, lembrando-se de como Hanna o havia
descrito para Kate, no ch de beb de Meredith.
        -- Por que voc desenhou um sapo de mang na sua bandeira?
         Hanna piscou com fora, como se estivesse confusa com a mudana de assunto de Aria.
Em seguida, ela estendeu a bandeira e lhes mostrou a pea inteira. Tambm havia um logotipo
da Chanel, uma garota jogando hquei e o famoso padro da Louis Vuitton.
         -- Eu a decorei em homenagem a Ali, com as mesmas coisas que ela havia desenhado
na bandeira dela, antes que fosse roubada.
         Aria mordeu a unha do polegar.
         -- Hanna, Ali no desenhou um sapo de mang na bandeira dela.
         Hanna pareceu confusa.
         -- Desenhou, sim. Eu fui para casa naquela tarde e escrevi tudo o que ela disse.
         Uma sensao de pavor percorreu a espinha de Aria.
         -- Ela no desenhou um sapo de mang -- protestou ela. --Ela no desenhou nenhum
animal.
         Os olhos de Hanna se moviam de um lado para o outro e seu rosto perdeu toda a cor.
Emily afastou uma mecha de cabelo para trs da orelha, parecendo preocupada.
         -- Como voc sabe disso?
         O estmago de Aria se revirou. Ela teve a mesma sensao de quando tinha seis anos e
queria andar na montanha-russa grande no parque Grande Aventura. Seu pai a prendera no cinto
de segurana e puxara uma grande barra de metal contra o seu peito, mas quando o trenzinho
estava para partir, ela fora invadida por um pnico avassalador. Ela gritara e gritara, fazendo
com que o funcionrio do parque de diverses parasse a montanha-russa para ela poder descer.
         Suas amigas piscaram, esperando. Por mais que ela no quisesse discutir aquele assunto,
precisava contar-lhes a verdade. Ela respirou fundo.
         -- Naquele dia em que tentamos roubar a bandeira de Ali, eu peguei um atalho pela
floresta para ir para casa. Algum estava vindo no sentido contrrio. Era... Jason. E... bem... ele
estava com a bandeira de Ali. Antes que eu soubesse o que estava acontecendo, ele a entregou
para mim. E no explicou por qu. Eu sabia que devia ter devolvido a bandeira para Ali, mas
pensei que talvez Jason no quisesse que eu fizesse isso. Eu pensei que talvez houvesse um
motivo para Jason t-la roubado. Como se ele pensasse que no fosse certo que ela a tivesse
encontrado to facilmente. Ou como se estivesse preocupado com o que Ian tinha dito para ela
alguns dias antes, no ptio, que ele a mataria para pegar a bandeira. Ou talvez ele gostasse de
mim...
         Emily deu uma risada irnica. Ela ergueu o livro de registros que encontrara no
escritrio do segundo andar.
         -- Ou talvez ele a tenha roubado dela porque tinha problemas.
         -- Eu no sabia o que pensar, naquele momento -- protestou Aria.
         -- E da decidiu mentir para Ali, foi isso? -- disparou Emily.
         Aria grunhiu. Ela sabia que Emily reagiria daquele jeito.
         -- Ali mentiu para ns, tambm! -- gritou ela. -- Todas ns guardamos segredos umas
das outras. Como isso pode ser diferente?
         Emily deu de ombros e virou as costas.
         -- Eu pretendia devolv-la para Ali, de verdade -- disse Aria, cansada. -- Mas depois
ns ficamos amigas dela. E quanto mais tempo eu ficava calada, mais estranho teria parecido.
Eu no sabia o que fazer. -- Ela apontou novamente para a bandeira de Hanna. -- Eu no olhei
de novo para a bandeira de Ali desde o dia em que a peguei, mas juro que no havia sapo
nenhum nela.
         Hanna levantou a cabea.
         -- Espere, Aria. Voc ainda tem a bandeira dela?
         Aria assentiu.
         -- Est em uma velha caixa de sapatos h anos. Quando levei minhas coisas para a casa
do meu pai, vi a caixa de novo. Mas no a abri.
         O rosto de Hanna empalideceu.
         -- Eu tive um sonho na noite passada sobre o dia em que tentamos roubar a bandeira de
Ali. Preciso v-la.
         Aria comeou a protestar, ento sentiu uma vibrao no quadril. Seu celular estava
tocando.
         -- Esperem -- resmungou ela, olhando para o visor. -- Tenho uma nova mensagem.
         A pequena bolsa de mo de Emily comeou a vibrar.
         -- Eu tambm -- sussurrou ela. Elas olharam uma para a outra. O iPhone de Hanna
estava em silncio, mas ela se inclinou para ver o Nokia de Emily. Aria olhou para seu prprio
celular e pressionou a opo "ler".
       Vocs no odeiam quando seus sapatos Manolo comeam
       a machucar?
       Eu gosto de escaldar meus dedos na banheira de hidro-
       massagem no quintal. Ou me sentar no meu celeiro acon-
       chegante, debaixo de um cobertor.  to quieto aqui, agora
       que os policiais grandes e protetores foram embora. - A
        Aria olhou para as outras, confusa.
        -- Parece que A est falando sobre o celeiro de Spencer -- sussurrou Emily. Seu queixo
caiu.-- Eu falei com Spencer mais cedo, hoje. Ela est no celeiro... sozinha.
        Ela apontou para as palavras agora que os policiais grandes e protetores foram
embora.
        -- E se ela estiver em perigo? E se A estiver nos avisando que algo horrvel vai
acontecer?
        Hanna colocou seu iPhone no viva-voz e discou o nmero de Spencer. Mas o telefone
tocou repetidas vezes e finalmente a ligao caiu na caixa postal. O corao de Aria estava
disparado.
        -- Ns deveramos nos certificar de que ela est bem -- disse ela.
        Em seguida,Aria sentiu os olhos de algum sobre si, do outro lado do salo. Ela olhou
em volta e viu um homem de cabelos escuros, vestindo um uniforme da polcia de Rosewood,
perto da porta. Wilden. Ele estava olhando com raiva para elas, estreitando os olhos verdes
penetrantes, a boca curvada para baixo. Parecia ter ouvido tudo o que elas tinham dito... e que
tudo era verdade.
        Aria agarrou a mo de Hanna e comeou a pux-la na direo da entrada lateral.
        -- Meninas, ns temos que sair daqui! -- gritou ela. --Agora!
                                         29
                            ELAS ESTAVAM TO ERRADAS
Eram nove da noite e Spencer estivera relendo o mesmo pargrafo do livro The House of Mirth
por uma hora e meia. Lily Bart, a nova-iorquina ambiciosa, tentava conquistar seu lugar na alta
sociedade, na virada do sculo XX. Como Spencer, tudo o que Lily queria era encontrar um
modo de escapar de sua vida miservel e incerta e, como Spencer, Lily no estava chegando a
lugar algum. Spencer estava quase esperando pela parte do livro em que Lily descobriria que era
adotada, seria enganada por uma mulher rica que se passava por sua me e perderia todo o seu
dinheiro.
        Ela largou o livro e olhou tristemente ao redor, no apartamento do celeiro, para onde
havia ido assim que voltara de Nova York. As almofadas fcsia espalhadas pelo sof cor de ave-
l pareciam velhas e gastas. Os poucos pedaos de queijo Asiago que Spencer encontrara na
geladeira e comera em vez de jantar, parada ao lado da pia, tinham gosto de poeira. No
chuveiro, a gua no estava nem quente nem fria, apenas morna. Todos os sentidos de Spencer
estavam entorpecidos. O mundo no tinha graa, nem alegria.
        Como ela pudera ter sido to estpida? Andrew a avisara. Todos os sinais de que Olivia
a estava enganando estavam l. Quando Spencer a visitara, Olivia no a deixara subir para o
apartamento, nem mesmo por um minuto. E Olivia havia se atrapalhado com aquele grande
arquivo, convenientemente se esquecendo dele quando subira no helicptero. Ela provavelmente
cara na risada quando decolara, sabendo exatamente o que Spencer fada. E pensar que Spencer
tinha olhado nos olhos de Olivia e pensado que elas se pareciam! Ela abraara Olivia com fora
antes de partir, finalmente sentindo que estava se aproximando de um membro de sua famlia!
Olivia provavelmente nem era o nome verdadeiro daquela mulher. E Morgan Frick, o suposto
marido dela, era definitivamente uma inveno. Como ela pudera ter ignorado tudo aquilo?
Morgan Frick era a combinao apressada dos nomes de dois importantes museus de Nova
York.
        A madeira do celeiro estalava e rangia. Spencer ligou a televiso. Havia toneladas de
programas no TiVo de sua irm, aos quais ela no tinha assistido ainda. Mais cedo naquela
noite, Spencer ouvira uma mulher do spa Fermata deixar uma mensagem na secretria eletrnica
de Melissa, avisando que ela havia faltado a uma sesso de limpeza de pele e perguntando-lhe
se ela gostaria de remarcar. Por que a irm teria sado com tanta pressa? Teria mesmo sido
Melissa na floresta, na noite passada, procurando alguma coisa?
        Spencer desligou a televiso, desinteressada. Seus olhos pousaram novamente nas
estantes de Melissa. Estavam abarrotadas com velhos livros da escola e, entre eles, o livro que
ela usara para fazer o trabalho de Economia. Junto a eles, havia uma caixa Kate Spade verde,
com o rtulo Notas da Escola. Spencer deu um sorrisinho sarcstico. Notas, do tipo que voc
passava para as amigas na sala de aula? A certinha Melissa no parecia fazer aquele tipo.
        Ela apanhou a caixa e abriu a tampa. Um caderno azul em espiral, com uma etiqueta que
dizia Clculo, estava logo em cima. Melissa provavelmente quisera dizer anotaes. Havia
carinhas sorridentes desenhadas na capa e os nomes de Melissa e Ian escritos repetidamente,
numa caligrafia elaborada. Spencer abriu o caderno na primeira pgina. Estava cheia de
problemas de matemtica, diagramas e equaes. Tedioso, Spencer pensou.
         Na pgina seguinte, a tinta verde-brilhante chamou a ateno de Spencer. Havia
anotaes na margem, escritas com tinta de duas cores diferentes. Parecia uma conversa entre
duas pessoas, como se o caderno tivesse sido passado para l e para c, durante a aula. Spencer
reconheceu a caligrafia de Melissa em tinta preta, e havia uma letra estranha em verde.
         Adivinhe com quem eu fiquei na festa, no final de semana passado? dizia a primeira
mensagem, na inconfundvel caligrafia de Melissa. Abaixo dela, havia um ponto de interrogao
exagerado e verde. JD foi a resposta de Melissa. Depois, aparecia um ponto de exclamao
verde. E depois, Garota malvada... Aquele garoto est to apaixonado por voc...
         Spencer segurava a pgina a centmetros de distncia do rosto, como se examin-la de
perto ajudasse a fazer sentido.JD? O crebro dela procurava uma resposta lgica. Poderia aquilo
significar Jason DiLaurentis? No dia em que elas haviam tentado roubar a bandeira de Ali e
Jason sara correndo de casa, ele olhara com raiva para Melissa e Ian no quintal de Spencer. Ele
vai superar, Melissa havia sussurrado para Ian mais tarde. Poderia Jason ter sentido cimes
porque Melissa estava saindo com Ian? Poderia ele ter estado secretamente apaixonado por ela?
         Ela apertou os dedos contra as tmporas. No parecia possvel. Houve uma batida forte
na porta e o caderno escorregou do colo de Spencer para o cho. Em seguida, outra batida.
         -- Spencer! -- Ela ouviu algum chamar. Emily e Hanna estavam na varanda; Emily
usava um vestido vermelho longo, e Hanna um tubinho curto e rendado.
         -- Voc est bem? -- Hanna entrou correndo no celeiro e agarrou os antebraos de
Spencer. Emily entrou logo atrs dela, carregando um livro enorme com uma capa de couro
gasta.
         -- Sim -- disse Spencer, devagar. -- O que est acontecendo?
         Emily colocou o livro no balco da cozinha.
         -- Acabamos de receber uma mensagem de A. Estvamos preocupadas, achando que
algo havia acontecido com voc. Voc ouviu algum barulho estranho l fora?
         Spencer piscou, espantada.
         --No...
         As garotas olharam uma para a outra, suspirando de alvio. Os olhos de Spencer
pousaram no livro de couro preto que Emily estava carregando.
         -- O que  isso? -- perguntou ela.
         Emily mordeu o lbio. Ela olhou para Hanna e ambas comearam a explicar o que
haviam descoberto mais cedo naquela noite. Elas tambm disseram que Aria correra de volta
para casa para buscar a bandeira de Ali, perdida havia tanto tempo -- ela poderia conter uma
pista vital --, e as encontraria ali. Quando ~s duas finalmente se calaram, Spencer olhava para
elas, pasma.
         -- Jason e Wilden sabem de alguma coisa -- sussurrou Hanna. -- Algo que eles esto
escondendo. Precisamos falar com Ian novamente. Todas aquelas mensagens que ele mandou
para voc, dizendo que tinha que fugir, que eles o odiavam, que eles descobriram o que ele
sabia... Entende? Precisamos saber o que Ian sabe.
         Spencer amassou um travesseiro nas mos, sentindo-se angustiada.
         -- E se for perigoso? Ian foi forado a sair da cidade porque sabia demais. Isso pode
acontecer conosco, tambm.
         Hanna balanou a cabea.
         -- A est nos implorando para fazer isso. Ela pode nos arruinar se no o fizermos.
         Spencer fechou os olhos com fora, pensando no grande zero escrito em vermelho no
saldo de sua conta de poupana. A j a havia arruinado.
         Ela deu de ombros e foi at o laptop de Melissa, incerta sobre o que fazer. Lentamente,
ela mexeu no mouse, fazendo a tela acender. O computador ainda estava conectado  conta de
MSN de Melissa, e havia uma lista de amigos on-line em uma janelinha. Quando Spencer viu o
nome familiar na tela, seu corao comeou a martelar.
         -- Eu no acredito.  ele! -- disse ela, apontando para USC-MidfielderRoxx. Aquela
era a primeira vez que ela o via on-line, em uma semana.
         Hanna olhou para Spencer.
         -- Fale com ele -- disse ela.
         Spencer clicou no cone de Ian e comeou a digitar.
       Ian, aqui  Spencer. No desconecte. Estou aqui com
       Hanna e Emily. Ns acreditamos em voc. Sabemos que
        inocente. Queremos ajud-lo a resolver tudo isso. Mas
       voc precisa nos contar sobre as provas conflitantes de
       que falou na minha varanda, semana passada. O que
       aconteceu na noite em que Ali foi morta?
         O cursor piscou. As mos de Spencer comearam a tremer. Em seguida, a tela acendeu.
Elas se inclinaram para a frente.
       Spencer?
       As meninas apertaram as mos. Outra mensagem apareceu logo em seguida.
       Ns no devamos falar sobre isso. Se vocs souberem,
       podem correr perigo.
       Spencer empalideceu e olhou para Emily e Hanna.
       -- Esto vendo? Talvez ele esteja certo.
       Hanna empurrou Spencer para o lado e comeou a digitar.
       Precisamos saber.
       O visor se acendeu novamente.
       Ali e eu estvamos planejando nos encontrar naquela noi-
       te, escreveu Ian. Eu estava nervoso com o encontro e fi-
       quei bbado. Fui esperar por ela, mas ela no apareceu.
       Quando olhei para o outro lado do jardim, posso jurar que
       vi duas pessoas com cabelos louros compridos, na flores-
       ta. Parecia que uma delas era Ali.
        Spencer engasgou. Ian havia lhe contado aquilo, quando a encontrara na varanda, na
semana anterior. Ela e Ali haviam brigado naquela noite, mas Ian dissera que poderia ter sido
outra pessoa. Ela fechou os olhos, tentando imaginar outra pessoa ali, naquela noite... Algum
que elas jamais haviam suspeitado. Seu estmago comeou a doer.
        As mensagens de Ian continuaram a chegar.
       Parecia que as duas pessoas estavam discutindo, mas es-
       tavam longe demais para eu poder saber. Pensei que Ali
       no viria mais, o que talvez fosse bom, porque eu estava
       muito bbado. Depois que Ali desapareceu, no percebi
       que a pessoa com quem ela estava brigando naquela noite
       poderia t-la machucado e foi por isso que eu no disse
       nada, no comeo. Ela falava muito sobre fugir quando es-
        tvamos juntos, e foi isso que eu pensei que ela tivesse
        feito.
        Spencer olhou para as outras, confusa.
        -- Ali nunca falou em fugir, no ?
        -- Eu costumava falar sobre fugir dos meus pais rgidos -- sussurrou Emily. --Ali
disse que iria, tambm. Eu sempre pensei que ela s estava dizendo aquilo para ser gentil... Mas
talvez no.
        A luz acendeu de novo.
        Mas depois que eu fui preso, entendi muitas coisas. Des-
        cobri quem realmente estava l fora... e por qu. Eles
        queriam a mim, no a ela. Eles descobriram o que estava
        acontecendo e queriam me machucar. Mas encontraram
        Ali primeiro. Eu no sei o que aconteceu. Eu no sei se foi
        um acidente, mas estou bem certo de que foram eles. E
        que esto encobrindo as pistas desde ento.
         A viso de Spencer se estreitou. Ela pensou sobre o vulto na floresta, na noite anterior,
procurando alguma coisa no cho. Talvez houvesse algo l fora, algum tipo de prova.
         Quem so eles?, digitou Spencer. Quem fez aquilo? Ela estava com a sensao de que
sabia a resposta de Ian, mas queria que ele a confirmasse.
        No lhe parece estranho que ele tenha procurado uma car-
        reira como policial?, dizia a mensagem seguinte de Ian,
        ignorando a pergunta de Spencer. Ele era o cara com
        menor probabilidade de fazer algo do tipo. Mas culpa 
        uma coisa louca. Ele provavelmente queria se absolver do
        que aconteceu, do modo que pudesse. E ambos tinham
        um libi slido naquela noite. Eles deveriam estar na casa
        em Poconos. Ningum sabia que eles estavam em Ro-
        sewood. Foi por isso que nunca foram questionados. Eles
        no estavam l.
        Hanna apertou as mos contra o rosto.
        -- A casa de Poconos. O adesivo de Wilden.
        -- E Jason tinha permisso para ir l sozinho -- murmurou Spencer.
        Ela se voltou novamente para o teclado.
        Diga quem so eles. Diga os nomes deles.
        Voc pode se machucar, respondeu Ian. Eu j falei demais.
        Eles vo saber que voc sabe. Provavelmente j sabem. E
        no vo parar, faro de tudo para manter o segredo.
        DIGA, digitou ela.
        O cursor piscou. Finalmente, a mensagem chegou, com um bipe alto.
        Jason DiLaurentis, escreveu Ian. E Darren Wilden.
         Spencer pressionou as mos contra o rosto gelado, algo se abrindo em sua mente. Ela se
lembrou da foto que havia no protetor de tela de seu pai, a foto de todos juntos na casa dos
DiLaurentis, em Poconos. Os cabelos molhados de Jason passavam dos ombros, to compridos
quanto os de uma garota. Ela arregalou os olhos para Emily e Hanna.
         -- Os cabelos de Jason eram compridos naquela poca, lembram? Se Ian viu duas
pessoas de cabelos louros compridos...
         -- Pode ter sido ele -- sussurrou Emily. -- E Ali.
         Spencer fechou os olhos. Aquilo combinava com a lembrana dela daquela noite.
Depois que ela brigara com Ali e cara, Ali havia sado correndo pela trilha. Spencer olhara para
o outro lado do jardim e vira Ali conversando com algum. Claro que ela imaginara que fosse
Ian... Tantas pistas apontavam para ele. Mas quando ela apertou os olhos e se esforou para
pensar, o quadro comeou a mudar. A pessoa no tinha mais o queixo esculpido e os cabelos
curtos e ondulados de Ian. Seus cabelos eram mais lisos e mais louros, e suas feies eram mais
delicadas. Ele se inclinava intimamente na direo de Ali, mas tambm de forma protetora. Do
modo que um irmo faria, no um namorado.
         Como poderia ter acontecido? Teria sido apenas um acidente estranho? Teria Jason sido
tomado por um acesso de raiva, por causa do que sua irm estava fazendo com Ian? Teriam os
dois brigado, e Ali acidentalmente cado naquele buraco? Teriam Jason e Wilden corrido para a
floresta, petrificados de medo com o que havia ocorrido? Ian no teria contado para a polcia
sobre ter visto algum na floresta com Ali, porque aquilo o teria colocado na cena do crime, e
tambm teria que explicar seu relacionamento secreto com Ali. Mas quando ele viera a pblico
com o que realmente sabia, depois que fora preso, a pessoa mais provvel de ter tomado seu
depoimento era Wilden... e Wilden obviamente no contaria a verso de Ian a uma autoridade
maior. Quando Ian conseguiu um advogado e comeou a falar que no era o assassino e que a
verdade ainda estava l fora, talvez Wilden o tivesse ameaado. E devia ser por isso que Ian
teve que fugir.
         Todas ficaram em silncio por um longo tempo. Ouviu-se o relinchar de um cavalo ao
longe, nos estbulos de Spencer. Uma rajada de vento fez os galhos das rvores farfalharem. Em
seguida, Emily levantou o queixo, farejando o ar. Uma expresso preocupada passou por seu
rosto.
         -- O que foi? -- perguntou Hanna, aflita.
         -- Eu... Estou sentindo o cheiro de alguma coisa -- murmurou Emily.
         Elas respiraram fundo. Havia um cheiro estranho no ar, que Spencer no conseguiu
identificar imediatamente. O cheiro ficou mais forte e mais intenso e a cabea de Spencer
comeou a latejar. Seus olhos caram sobre uma das ltimas mensagens de Ian. Voc pode se
machucar. Eles provavelmente j sabem. O corao de Spencer quase lhe escapou pela
garganta.
         -- Oh, meu Deus. Isso ... gasolina.
         Em seguida, elas ouviram o som inconfundvel de um fsforo sendo riscado.
                                          30
                                   O INFERNO NA TERRA
Aria desceu correndo as escadas em espiral de seu quarto no sto da nova casa, tropeando
duas vezes e se agarrando no corrimo de ferro para no cair. Saiu apressada pela porta da
frente, correu para o Subaru e ligou a ignio. Nada aconteceu. Ela rangeu os dentes e tentou de
novo. O motor no respondeu.
         -- Por favor, no faa isso -- implorou para o carro, batendo a cabea no volante e
fazendo a buzina tocar.
         Derrotada, ela saiu do carro e olhou para a direita e para a esquerda. Deixara sua
bicicleta na casa de Ella, o que significava que teria que andar at o celeiro de Spencer. O
caminho mais rpido era atravessar as matas cerradas e escuras da floresta. Mas Aria nunca
tinha ido at l sozinha,  noite.
         A lua crescente brilhava no cu. A noite estava muito sossegada e quieta, sem um
vestgio de vento. Aria podia ver a luz dourada da varanda do celeiro de Spencer por entre as
rvores. Ela retirou a bandeira de Ali do bolso da jaqueta. A bandeira estava exatamente onde
ela sabia que estaria, bem no fundo da caixa de sapatos. Ela a apanhara sem olhar, ansiosa para
voltar para Spencer e as outras.
         O tecido continuava espesso e brilhante, quase perfeitamente preservado. Ainda
cheirava um pouco como o sabonete de baunilha que Ali usava. Aria ligou a lanterna que
apanhara na cozinha, examinando os desenhos que Ali fizera. Havia os logotipos da Chanel e da
Louis Vuitton, como na bandeira de Hanna. Havia tambm estrelas e cometas, e um desenho de
um poo dos desejos. Mas no havia um sapo de mang em lugar nenhum. Nem um desenho de
uma jogadora de hquei. Quer dizer que Hanna se enganara... Ou teria sido Ali?
         Aria esticou a bandeira at os cantos. Do lado esquerdo, Ali desenhara um smbolo
estranho que Aria no percebera antes. Parecia uma placa de estacionamento proibido, o tipo
que mostrava uma letra E com uma grande faixa vermelha ao centro. Mas em vez de E, Ali
havia escrito outra letra. Aria aproximou a bandeira do rosto. Num primeiro exame, a letra se
parecia com um I. Mas, quando olhou mais de perto, notou que no era. Era um J.
         De... Jason?
         Com o corao disparado, Aria enfiou a bandeira de volta no bolso e correu para a
floresta. A neve havia derretido, e o cho estava escorregadio.
         Aria correu por sobre folhas molhadas e poas d'gua, espalhando lama por todo canto.
Quando chegou ao fundo de uma ravina, suas botas escorregaram. Ela caiu no cho com um
rudo alto, batendo o quadril com fora. A dor foi lancinante e Aria deixou escapar um grito
abafado.
         Alguns segundos de silncio se passaram. O nico som que ela ouvia era a prpria
respirao. Lentamente, ela se levantou, limpou a lama do rosto e olhou em volta.
         Do outro lado da clareira estava uma rvore torta, familiar. Aria franziu o rosto,
percebendo por qu. Fora ali que elas encontraram o corpo de Ian na semana anterior, ela estava
certa. Algo brilhou sob uma pilha de galhos cados e folhas secas. Aria se aproximou
cuidadosamente e se abaixou. Era um anel de formatura de platina, sujo de barro. Ela puxou a
manga da jaqueta por sobre a mo, e esfregou o anel at que ficasse limpo. Uma pedra azul
brilhou ao luar. Em torno da base da pedra, estavam gravadas as palavras Rosewood Day. Ela
fechou os olhos, lembrando-se do corpo de Ian jazendo entre as folhas, apenas uma semana
antes. Os olhos dela foram atrados imediatamente para o anel de formatura em seu dedo
inchado. Aquele anel tambm tinha uma pedra azul.
         Ela apontou a lanterna para o nome gravado no interior do anel.
         Ian Thomas.
         Ser que o anel cara do dedo de Ian, quando ele fugira? Ser que algum o tinha
arrancado dele? Ela olhou novamente para a pilha de folhas molhadas. O anel estava bem em
cima dela, mal escondido. Como os policiais podiam ter falhado em encontr-lo?
         Um galho estalou e Aria levantou a cabea rapidamente. O barulho viera de perto. Mais
galhos estalaram, e ouviu-se o rudo de folhas sendo esmagadas. Em seguida, um vulto deslizou
por entre as rvores. Aria se abaixou. O vulto deu mais alguns passos e parou. Estava muito
escuro para ver quem estava ali. Algo provocou um barulho estranho, como se fosse algum
lquido batendo contra os lados de um recipiente. Um cheiro forte a alcanou e os olhos de Aria
se encheram de lgrimas. Era o cheiro tpico de um posto de gasolina, um dos odores que ela
mais detestava no mundo.
         Quando Aria viu o vulto se abaixar e ouviu o barulho do lquido sendo derramado do
recipiente e espalhado no cho lamacento, percebeu o que estava acontecendo. Levantou-se
rapidamente, um grito preso na garganta. Lentamente, a pessoa colocou a mo no bolso e retirou
um objeto. Aria ouviu um estalido.
         -- No -- murmurou ela.
         O tempo pareceu diminuir de velocidade. O ar estava pesado e silencioso. Em seguida, a
floresta ficou alaranjada. Tudo se iluminou.
         Aria gritou e correu de volta pela ravina. Ela esbarrou em rvores e tropeou em um
pequeno fosso, torcendo o tornozelo. Durante os primeiros segundos, tudo o que ouviu foi o
crepitar horrvel do fogo crescendo e crescendo, destruindo tudo em seu rastro. Mas quando se
virou, ouviu outro som. Um som baixo, doloroso e desesperado. Um pequeno gemido.
         Aria parou. As chamas j haviam se espalhado pela ravina, onde ela estivera minutos
antes.  sua direita estava um vulto encolhido. Essa pessoa parecia menor e mais fraca do que o
vulto que atravessara a floresta momentos antes, ateando fogo em tudo. Sua perna estava presa
sob um galho pesado que cara de uma rvore e pequenas chamas subiam pelo galho, chegando
cada vez mais perto de seu rosto.
         -- Socorro! -- gritou a pessoa, quem quer que fosse. -- Por favor!
         Aria saiu correndo na direo do grito.
         O rosto do vulto estava coberto por um grande capuz. Ela examinou o galho. Era grande
e pesado, e Aria torceu para conseguir mov-lo.
         --Voc vai ficar bem! -- gritou ela, seu rosto comeando a ficar quente por causa das
chamas. Reunindo toda a sua fora, Aria empurrou o galho, que rolou pelo barranco, at atingir
uma poa de gasolina e explodir. A pessoa gritou e caiu contra a rvore. Houve outro rudo
ensurdecedor atrs delas e Aria se virou, gritando. A floresta era uma parede alaranjada. O fogo
estava subindo pelas rvores agora, derrubando mais galhos. Em segundos, elas estariam
encurraladas.
         A pessoa ainda estava encostada contra o tronco da rvore, olhando para Aria com uma
expresso traumatizada no rosto sujo de fuligem.
         -- Vamos! -- gritou Aria, comeando a correr. -- Temos que sair logo daqui ou vamos
morrer!
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                                  RENASCIDA DAS CINZAS
Emily, Spencer e Hanna saram rapidamente do celeiro, correndo o mais rpido que podiam
para fugir das chamas que surgiam a seu redor. O ar tinha um cheiro forte de fumaa e rvores
queimadas. Os pulmes de Emily ardiam enquanto ela corria. Elas atravessaram um trecho de
arbustos espessos, ignorando os espinhos que ficaram presos em seus suteres, pele e cabelos.
Em seguida, Hanna parou abruptamente e colocou as mos no alto da cabea.
         -- Oh, meu Deus! -- gritou ela. -- Wilden! Eu o vi outro dia na Home Depot,
colocando alguns gales em seu carro. Era propano!
         Emily se sentia nauseada e tonta. Pensou em como Jason havia olhado para ela na outra
noite, depois de sair da casa de Jenna. E em como Wilden olhara para elas na festa. Eles sabiam.
         --Vamos! -- Spencer as apressou, apontando para as rvores. Elas podiam ver o
contorno do moinho de Spencer, a distncia. Logo estariam seguras.
         O vento aumentou de velocidade, espalhando cinzas por toda a parte. Algo plano e
quadrado passou voando por Emily, parando ao p de uma rvore pequena e retorcida. Era a
foto do memorial de Ali, a foto de Ali usando uma camiseta Von Dutch e as quatro meninas ao
seu redor, rindo. Os cantos da foto estavam queimados pelas chamas e metade da cabea de
Spencer havia desaparecido. Emily olhou para os olhos alegres, muito azuis, de Ali. E ali
estavam elas, correndo pela mesma floresta onde ela morrera e, possivelmente, com as mesmas
pessoas que a haviam assassinado tambm tentando mat-las.
         Elas correram para o quintal de Spencer, tossindo com a fumaa txica que lhes invadia
os pulmes. O moinho dos Hastings tambm estava pegando fogo. Cada uma das velhas ps de
madeira se quebrara e cara. A parte de baixo, com a palavra MENTIROSA pichada com tinta
vermelho-sangue, estava no cho e parecia queimar com mais intensidade.
         Um grito agudo emergiu da floresta. Primeiro, Emily pensou que fosse a sirene de um
caminho de bombeiros... Certamente, eles j estariam a caminho. Em seguida, ela ouviu outro
grito, alto e aterrorizado. Ela agarrou a mo de Spencer.
         -- E se for Aria? A casa nova dela fica no bairro vizinho. Ela pode ter pegado um
atalho atravessando a floresta para chegar aqui.
         Antes que Spencer pudesse responder, dois vultos saram cambaleando da floresta
espessa que queimava. Aria. Algum estava atrs dela, usando um suter largo com capuz e
calas jeans.As meninas cercaram Aria.
         -- Eu estou bem -- disse ela rapidamente. Aria fez um gesto indicando a pessoa ao seu
lado. Quem quer que fosse, o vulto havia se encolhido em posio fetal na grama seca. -- Ele
estava preso sob um galho enorme -- explicou Aria. -- Eu tive que tir-lo de cima dele.
         --Voc est ferido? -- perguntou Emily para a pessoa, que balanou a cabea,
choramingando.
         Ao longe, podia-se ouvir a sirene do caminho dos bombeiros. Talvez eles tambm
tivessem mandado uma ambulncia.
         -- O que voc estava fazendo na floresta, afinal? -- perguntou Spencer.
         A pessoa tossiu, uma tosse violenta e sufocante.
         -- Eu recebi uma mensagem.
         Emily fez uma pausa. A voz da pessoa era pouco mais que um sussurro, mas parecia ser
de uma menina, no de um menino.
         -- Uma... mensagem? -- repetiu Emily.
         A menina cobriu o rosto com as mos, tremendo com os soluos.
         -- Eu fui avisada para ir at a floresta. Parecia algo realmente importante. Mas eu acho
que eles estavam tentando me matar.
         -- Eles? -- perguntou Spencer. Ela olhou para as outras. As chamas nas rvores
danavam pelo seu rosto.
         A menina tossiu de novo.
         -- Eu tinha certeza de que iria morrer.
         Uma sensao sinistra percorreu a pele de Emily. A voz da menina ainda estava abafada
e rouca, mas tinha um tom nasalado que Emily no ouvia fazia muito, muito tempo. Eu inalei
muita fumaa, disse ela a si mesma. Estou ouvindo o que quero ouvir. Mas quando olhou para
as outras, elas tambm tinham expresses espantadas nos rostos.
         -- Est tudo bem. Voc est salva agora -- murmurou Spencer. A menina tentou
concordar.
         Quando ela afastou as mos do rosto, elas estavam cobertas de uma fuligem negra. Em
seguida, ela levantou a cabea. A fuligem e a poeira haviam escorrido por seu rosto, revelando
uma pele clara e rosada. Quando ela olhou para as garotas pela primeira vez e sorriu,
agradecida, o corao de Emily parou. A menina tinha olhos azuis brilhantes. Um nariz perfeito,
levemente arrebitado. Lbios em forma de corao. Quando limpou a fuligem, seu rosto
anguloso apareceu.
         Ela olhou para as meninas com uma expresso neutra, sem parecer reconhec-las. Mas
elas a reconheceram. Hanna soltou um gritinho de susto. Spencer permaneceu imvel. Emily se
sentia to tonta que caiu ao cho, apertando a cabea com as mos.
         L estava a garota das fotos do noticirio. A garota no protetor de tela do celular de
Emily. A garota da foto que havia cado perto das rvores, alguns minutos antes. A garota que
usava uma camiseta Von Dutch naquela foto, rindo, como se nada de mal pudesse lhe acontecer
um dia.
         Isto no pode estar acontecendo, pensou Emily. No h como isso estar acontecendo.
         Era... Ali.
                            O QUE VAI ACONTECER AGORA?
R!
        Aposto que vocs no esperavam por essa. Mas vocs sabem como so as
coisas em Rosewood... Num minuto, voc v algo, e no seguinte... puf!
        Desapareceu.
        O que torna um tanto quanto impossvel saber o que est realmente
acontecendo. Isso  muuuuuuuuito frustrante, no ?
        As dvidas provavelmente esto lhes matando: Ian est realmente morto... Ou
est bebericando mojitos no Mxico, tramando sua vingana? A falsa me de Spencer
realmente roubou o dinheiro dela... Ou ela simplesmente pagou meu preo? O
queridinho de Aria  um assassino psictico... Ou as minhas mensagens a fizeram
acreditar nisso? Emily descobriu um segredo obscuro da famlia Di-Laurentis... Ou eu
deixei o livro de registros l de propsito, para que ela o encontrasse? O policial favorito
de Hanna acabou de tentar transform-la em um torresmo... Ou mais algum quer
aquelas vagabundinhas mortas?
        E quanto a mim? Estou do lado delas, ou estou controlando o jogo?
        Mas aqui vai a pergunta de um milho de dlares:
        Quem -- ou o que -- elas acabaram de ver, retomando das cinzas? Poderia Ali
ainda estar viva? Ou tudo seria apenas uma iluso?
        Isso j  o bastante para enlouquecer qualquer um. A clnica Radley pode estar
fechada, mas existem outros hospitais para lunticos por aqui.
        E quando eu acabar com Hanna, Aria, Spencer e Emily, quatro lindas novas
pacientes talvez sejam internadas...
        Durmam bem, meninas. Enquanto vocs ainda podem.
        Beijos - A
                                     AGRADECIMENTOS
Palavras no seriam suficientes para expressar a minha gratido e a minha sorte por ter o apoio
de uma equipe editorial to inteligente, dedicada e criativa, que ajudou a tornar Destruidoras um
livro to cheio de mistrio, surpreendente e interessante. Muito obrigada a Josh Bank e Les
Morgenstein por sua intuio certeira sobre o que faz uma grande histria; a Kristin Marang por
toda a sua ajuda com o maravilhoso site Pretty Little Liars; a Sara Shandler, um extraordinrio
gnio criativo e uma amante de cachorros; e especialmente a Lanie Davis, porque  uma alegria
conviver com ela, pelas muitas conversas ao telefone tentando descobrir exatamente para onde
ir com este livro, e por tantas ideias que realmente ajudaram a torn-lo um livro melhor.
        Meus agradecimentos a Farrin Jacobs, Gretchen Hirsch e Elise Howard, da Harper,
pelas suas contribuies, sua ateno paciente e seu apoio incondicional. Estou eternamente em
dvida com vocs.
        Agradeo aos leitores deste livro, muitos dos quais eu tive o prazer de conhecer.
Agradeo meu marido, Joel; minha irm, Alison; meus pais, Shep e Mindy; e meus sogros, Fran
e Doug, por terem me permitido escrever este livro em sua sala de estar.
        E, finalmente, este livro  dedicado a Riley, um cachorro maravilhoso.
        Sentiremos muita saudade.
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232
